quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Meus Ipês Amarelos - para os Palhaços Graças a Deus


"Há memórias que moram na cabeça, muito úteis. 
Essas memórias não doem, são informações que levamos no bolso, ferramentas.
 Mas há outras memórias que moram no coração, são parte da gente."  
   
Rubem Alves  

    
É absolutamente verdade que as histórias dependem do olho do seu narrador. Isto vale aqui, especialmente considerando que ele as viveu em primeira pessoa. Perdoem-me aqueles que viveram estas mesmas histórias e têm delas visões diferentes. E perdoem-me também se os anos apagaram alguns dos detalhes importantes ou tornaram mais vistosos alguns que talvez tenham sido apenas embelezados pela moldura da saudade. Mas é exatamente assim que um garoto, já crescido, vê 3 dos melhores anos que viveu.

Na primavera de exatos 20 anos atrás, com os Ipês Amarelos em plena floração, um garoto magro de voz engraçada estreou em sua primeira peça teatral no Grupo de Teatro Palhaços Graças a Deus. Este texto homenageia um pouco desta história e de seus personagens, que tanto o marcaram. E, humildemente, fala sobre o orgulho de fazer parte dela...



O ano é 1988 e o garoto acaba de chegar à 5a. série. Sempre foi meio lerdo pela manhã, mas daqui em diante não há mais jeito: não poderá mais estudar à tarde. É inevitável ter que estudar justamente no período do dia em que seu cérebro é tão ágil quanto uma ameba em coma.

No segundo dia de aula, uma professora de cabelos curtos e loiros entra na sala e escreve na lousa seu nome e sobrenome, com mais consoantes consecutivas do que ele está acostumado a ver. Ela diz qual será a matéria que irá ministrar: Arte Dramática. "Que raios é Arte Dramática?!".

Passam-se alguns dias, e o garoto sobe ao palco pela primeira vez. Não sente nada de especial. Na verdade, sente-se meio estranho, porque a atividade consiste em, bem, consiste em não fazer nada. Apenas ficar lá, em pé, raspando levemente as pontas dos dedos umas nas outras, para acalmar, para manter-se "à vontade", enquanto se é observado pelos colegas de classe. Enquanto isso, deve transferir periodicamente o peso de uma perna para outra, para uma e para outra. Um "não fazer nada" bastante desconfortável para um garoto prestes a fazer 11 anos, sob os olhares dos colegas de classe, na mesma situação.

Na aula seguinte, triangulação de palco: imaginar o palco como um barco, e dispor os elementos (pessoas inclusas na categoria) de forma a equilibrá-los em cena, para que o barco não afunde. Tarefa de casa: desenhar alguns exemplo de triangulação usando 3, 4, 5, 6 elementos.

Ele a faz às pressas, em uma folha de caderno. Arranca-a e entrega à professora, mas é repreendido: ela não acha adequada uma tarefa feita em uma folha arrancada, cheia daquelas rebarbas na borda do papel. Ele, com toda a extraordinária bagagem intelectual de um menino de 11 anos, já tem o veredito: "Este curso será estranho".

1990. Dois anos se passam e, com eles, muitas aulas de Artes Dramáticas. Ele nunca detestara as aulas até ali, mas também nunca morrera de amores. Com o passar do tempo, e depois de assistir às peças feitas pelos "grandes" do colegial, subir ao palco havia se tornado, digamos, curioso. Apenas curioso.

Particularmente curiosa é também sua voz. Na verdade, curioso é o descompasso entre seu corpo de adolescente, magro e desajeitado, e sua voz, já de um homem adulto. Os colegas brincam, sem maldade, imitando-o. E ele gosta daquela atenção.

A professora de Arte Dramática é agora também sua professora de Português. Exigente e desafiadora como é, passa a demandar da 7a. série muitas coisas com as quais não estão acostumados. E, com o passar dos meses, o garoto, agora com 13 anos, descobre ter certa facilidade para escrever. Os desafios impostos pela professora, em vez de afastá-los, começa a aproximá-los.

O quebra-cabeças começa a fazer sentido: as palavras, que ele está aprendendo a moldar a seu próprio estilo, viram peças úteis no curso de Arte Dramática. E, quando se apercebe disto, ele passa a se interessar também pelas não-palavras, pelas expressões, as posturas e as ações, e o que elas representam, sem serem ditas.

A peça do final de ano, montada com todos os alunos da 7a série, é sua última "obrigação" com o teatro, já que no ano seguinte não há mais o curso de Arte Dramática. Durante a peça, ele participa de uma cena, durante poucos segundos, no papel de um padre, à frente de uma procissão, em absoluto silêncio. Uma música fúnebre os acompanha, enquanto a procissão simplesmente atravessa o palco, de uma coxia à outra. Alguns colegas ficam na coxia "de chegada" fazendo palhaçadas, para que se desconcentrem e riam. Ele não ri. E, ali, orgulhoso pelo simples fato de ter conseguido não rir, percebe que quer continuar a fazer teatro por mais algum tempo. O curioso curso de Arte Dramática definitivamente virou prazer, e o garoto quer mais. Quer muito.

1991. O garoto, já na 8a série e prestes a fazer 14 anos, entra, finalmente, no Palhaços Graças a Deus.

Dia do batismo. É o dia em que se deixa de ser simplesmente um calouro, para virar um Palhaço, para sempre. Pelo menos, é o que dizem os veteranos, com ar solene (que o garoto viria a reproduzir no anos seguintes, exatamente como os que o antecederam).

Batismo de 1992. Clique na imagem para ampliar.
 
São muitos minutos de uma deliciosa ansiedade, enquanto tem o seu rosto maquiado, vendo a maquiagem dos outros, mas sem ver a sua própria. E que sussurros e risadinhas são aqueles dos veteranos? O que será que estão tramando? Como será que escolheram os nomes de palhaço para cada pessoa? E, caramba, que nome será que vai receber?

Ele não espera muito, porque é o primeiro a ser batizado. As palhaças Fantasia e Coxia o chamam ao palco e ele pode finalmente ver sua maquiagem no espelho: uma partitura estilizada. Seu nome de Palhaço: Pavarotti. Um reconhecimento "oficial" àquela curiosa voz de adulto no corpo de garoto. E que orgulho! Uma sensação extraordinária que, ele sabe, não irá se repetir de novo. Ele é, oficialmente, um Palhaço a partir de agora. O que ele não sabe, ainda, é que se lembrará disso todos os dias dali em diante, pelos 20 anos seguintes.

Neste ano de 1991, é a primeira vez que o grupo divide-se em dois, para fazer duas montagens distintas: o infanto-juvenil "Cavalinho Azul", e o adulto "Filme Triste", numa clara demonstração de feeling apurado das diretoras, que antecipam a tendência de "revival" dos anos 60, que só iria se manifestar alguns meses depois, em todo o Brasil. O garoto faz parte da montagem de "Filme Triste": um grupo de rapazes e moças dos anos 60 e suas preocupações inocentes com estudos, namoro, paqueras, curtições, e ao mesmo tempo, uma inexplicável e inapropriada alienação quanto à turbulência política do país naquele momento.

O garoto sempre foi um rapaz bastante reservado. Não exatamente tímido, mas reservado. Nunca foi o centro das atenções, nem buscou ser. Não é feio, nem bonito. É simplesmente normal. Mas, para "Filme Triste", ele recebe o papel de Mário Jorge, o namorador da peça. Nada a ver com seu jeito reservado... mas como não adorar aquela situação e aquela badalação toda? Seu apelido nos ensaios vira MJ (caprichosamente pronunciado em inglês: "ÉM-DJEI"). Ele adora!

Que fascinante o processo de montagem de uma peça teatral! A criação das cenas, os textos, os personagens e as personalidades que vão se moldando, a agitação e o senso de realização...

Especial é também o momento da chegada do figurino e da caracterização: os vestidos coloridos e alegres para as meninas, suas maquiagens com olho de gatinha, as calças justas de tergal dos meninos e as gravatinhas azuis, que eram parte do uniforme escolar na época representada pela peça. Tudo pronto para a estreia! A expectativa e a energia são indescritíveis e palpáveis como um presente embrulhado, que ainda não se pode abrir.

Elenco de "Filme Triste", 1991. Clique na imagem para ampliar.


Entre os meninos, surge (ou talvez já viesse de anos anteriores) o grito "THUNDER-THUNDER-THUNDERCASTS - UOOOOOUU!": uma brincadeira com o desenho animado da infância deles, e que dá àquele grupo de rapazes a sensação de união, de pertencerem a algo único e especial - o que é particularmente forte naquela peça, em que os garotos atuam quase o tempo todo juntos.

Finalmente, a estreia, a concentração e o delicioso nervosismo, perceptível nos olhos arregalados, nos sorrisos ansiosos e nas mãos geladas que se apertam com força, minutos antes do espetáculo. É uma sensação mágica e poderosa de pertencer a um grupo de pessoas que estão ali, de corpo e alma, e que não trocariam aquela experiência por nada no mundo.

Na estreia, o tal garoto esquece-se de uma cena, em que estariam só o seu personagem, Mário Jorge, e a Madalena, interpretada pela bela palhaça Dama da Noite, com sua voz tão peculiar. Mas ele simplesmente se esquece de entrar em cena e ela fica lá vários segundos, esperando-o chegar. No final das contas, chamado às pressas pelos colegas, ele entra e a cena acontece. Ele se desculpa com ela depois e promete a si mesmo que não iria mais deixar aquilo acontecer, perfeccionista como é.

Curiosamente, o garoto guarda o manuscrito daquela cena, com a letra inconfundível da diretora que escrevia com uma Mont Blanc bico de pena preta, que não emprestava a absolutamente ninguém. Encontrá-lo, 20 anos depois, numa caixa de recordações apelidada de "Slices of Life" ("Pedacinhos de Vida"), foi um dos fatores que o motivaram a narrar o presente texto.

Cena de "Filme Triste" (1991), na caligrafia da palhaça Fantasia. Clique na imagem para ampliar

Mas, voltemos a 1991. Foram muitas apresentações, inclusive no TUCA, e até adaptações-relâmpago para uma versão "teatro de arena", realizada em uma escola pública. Um total de quase 20 apresentações, em cujos talentos e esforços de seus amigos Palhaços o encantam: as cenas de baile, as cenas de beijo que despertavam pontinhas de inveja nos garotos (Sulceneide, Sulceneide!!!) e um impecável e emocionante monólogo de encerramento da palhaça Rubrica Perneira, cujos expressivos e diretos olhos azuis choravam com a verdade das grandes atrizes, seguido por "Carcará", na voz de Maria Bethânia.

São muitos aplausos, muitos sorrisos e uma sensação de alegria diferente de tudo o que já sentiu.

Embora no dia-a-dia o garoto seja (ou acredite ser) o mesmo, está inegavelmente fascinado com os aplausos. Recebe cartinhas de "admiradoras", brincadeiras e namora uma de suas "paqueras", na peça: a palhaça Cambalhota, um ano mais velha que ele. As cartas de Anita, sua personagem, para Mario Jorge, escritas e assinadas como se fossem de 1962, faziam parte do texto original da peça, mas nunca chegaram ao palco na montagem final do Palhaços. Ainda assim, tornaram-se lembranças incríveis do processo de criação da peça - e do vínculo que se esboçava, além dela. O garoto reservado, caramba, agora namora uma menina do colegial, cara!!!!


O garoto não cabe em si. E é devidamente alertado por algumas pessoas próximas, como a palhaça Fofucha, em uma carta pessoal, que está lá, também na caixinha, guardada: "não misture as bolas, não se encante demais consigo mesmo. O excesso de auto-confiança poderá decepcioná-lo, no futuro". Isto vem, sim, a fazer sentido para ele, alguns anos depois. Ele nunca teve a chance de agradecê-la pelos conselhos e pela verdade neles contida, mas lembrou-se muito deles em sua vida adulta.

Mas, por enquanto, não. O sucesso da peça e o sentimento de ter sido visto - ainda que muito mais pelo papel que recebeu, do que exatamente pela sua performance - o enchem de alegria, assim como o orgulho decorrente de uma nítida sensação de um vínculo especial, de respeito, admiração e carinho mútuos, com algumas das pessoas que mais influenciariam sua vida.

Termina o ano de 1991 e começa o igualmente fascinante ano de 1992. É neste ano (veio a saber o garoto só em 2010) que surge o grito de "SEXO" das meninas, para "competir" com o "THUNDERCATS", dos meninos. Soa bobinho, assim, por escrito, mas é engraçadíssimo. Especialmente quando se tem 15 anos...

A diretora acredita que o grupo, entrando no seu 12o. ano de existência, está pronto para um clássico: "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. A peça é montada inteiramente com músicas de Chico Buarque.

Montar "Romeu e Julieta" revela-se um desafio em um grupo de teatro-escola, amador, com 20 e poucas pessoas, em que a existência de protagonistas é uma tema delicado e potencialmente espinhoso.

A solução encontrada é criativa e nobre, com vários Romeus e várias Julietas. Seriam diferentes "romances proibidos": um (espetacular) casal de idosos, um belo e muito elegantemente conduzido casal formado por um aluno e uma professora, e o "original", com os filhos das famílias Capuleto e Montecchio. Na verdade, após a publicação deste texto, o palhaço Pluft, que entrara no grupo naquele ano de 1992, lembrou este autor que havia ainda um quarto casal, com um Romeu tímido (o próprio Pluft) e uma Julieta extrovertida. A memória infelizmente não lhes permitiu resgatar quem era exatamente aquela Julieta.

Pavarotti tem a felicidade de ser escolhido Romeu Montecchio. Como Julieta, é escolhida a palhaça Colombina. Só que, sem que saibam exatamente o porquê, o casal no início dos ensaios mostra não ter grande afinidade. Nunca brigaram, nunca discutiram... mas existe entre eles uma certa distância tola e inexplicável - talvez por serem mais parecidos um com o outro do que estão dispostos a admitir - e não muito interessante para um par que deve ser romântico e parecer apaixonado.

Em um desses ensaios, na clássica cena do balcão, realizada nos recém-instalados praticáveis nas laterais do teatro, Julieta falava ao vento sobre sua paixão secreta por Romeu, enquanto ele ouvia às escondidas, para em seguida declarar-se a ela também. No final da cena, o casal se abraça apaixonadamente. Ou, melhor dizendo, deveria se abraçar apaixonadamente. Mas a distância entre os atores é tão visível quanto engraçada. A diretora, divertindo-se com a situação os "ensina" a abraçar:

- Abracem direito, com o corpo todo! Não é só passar os braços! Encostem-se! Assim, ó!

E apertava os dois.

- Abracem-se de verdade! Vocês estão apaixonados, caramba! Vocês não precisam se amar fora daqui, não. Mas devem nos convencer no palco! Devem ser capazes de olhar apaixonadamente para um prego, se precisar!

Sobe ao palco e olha apaixonadamente para um prego na parede.

- Agora, tratem de se apaixonar!

Demora, mas o abraço sai. E, depois da estreia, já na temporada de apresentações, durante a cena do balcão, diversas vezes o garoto se pega admirando a naturalidade com que sua parceira atua e a beleza viva e delicada que imprime à personagem - embora nunca tenha tido a chance de dizer isto a ela, com todas as letras.

Como de hábito ao final dos espetáculos, os atores, no proscênio, conversam com a plateia sobre a peça, sobre o que acharam, do que gostaram, ou não gostaram, o que têm a perguntar. Em uma dessas ocasiões, uma jovem senhora, sorrindo, pede a palavra:

- Posso fazer só uma pergutinha?
Faz alguns segundos de silêncio, mantém o sorriso, e diz:
- Posso levar o Romeu e a Julieta para casa?

O teatro todo a acompanha no sorriso e solta um sonoro "Oooooooh" (de "Ó, que fofo!"). Pavarotti e Colombina se olham e, sem que precisem dizer nada, sabem que aquilo tudo funcionou. A aproximação entre os dois nunca viria a acontecer fora dos palcos. Mas existia, sim, uma química curiosa e inegável, que parecia funcionar em cena e que, muito provavelmente, fosse motivo de orgulho e satisfação para ela tanto quanto era para ele.

O garoto lamenta nunca ter podido assistir à cena do enterro de Julieta, nem mesmo em ensaios - pois sempre estave na coxia, esperando para entrar na cena da qual participaria, logo em seguida. Mas ele lembra-se de ouvir pessoas queridas mencionando que aquela era uma das cenas mais lindas que o grupo já havia apresentado em sua história. Recorda-se apenas da luminosidade bruxuleante das tochas, que sentia na coxia, e do réquien solene e alto... mas isto é tudo. O resto desta cena, para ele, só existe em imaginação, porque nunca a pode ver por completo, assim como Julieta, que nela sempre esteve de olhos fechados.

1993, Anarquistas Graças a Deus. Em oposição ao ano anterior, nesta peça há uma grande família, em dose dupla: o casal de pais, a pajem, os vários filhos, em 2 grupos distintos, que atuam alterando-se entre as cenas. Ambos os grupos, infantil e adulto, montam a mesma peça, e o sortudo garoto tem a honra de poder participar de ambas as montagens, que trazem muitos personagens e muitos novos talentos - certamente alguns dos maiores da história do grupo, em todas as épocas.

A sensação do garoto, agora com 16 anos, é diferente do que fora até ali; uma felicidade intensa, só que mais serena. Como uma paixão que vira amor. A ansiedade sobre o processo de elaboração da peça é menor, talvez por já conhecê-lo dos anos anteriores e por saber que o processo como um todo, e não simplesmente o seu fim, é o que torna tudo tão incrivelmente extraordinário.

Além do mais, sabendo que é o seu último ano no grupo, pensar sobre o fim é exatamente a última coisa que ele deseja fazer...

Os figurinos são - como dizer? - cor de chá. São sépia; cor de fotografia tirada no início do século XX - exatamente a época retratada pela peça.

O garoto interpreta Ernesto, o pai da família Gattai, desta vez alterando a voz, para torná-la um tanto rouca e parecer de um homem de mais idade, com seu sotaque ítalo-brasileiro de meia tigela, mas desempenhado da maneira mais sincera que lhe foi possível fazer.

"Anarquistas Graças a Deus" é uma peça sóbria, mas com várias situações cômicas - talvez mais pelos atores que a interpretaram do que pelo tom do texto. E o garoto lembra-se bem de algumas dessas passagens, apreciadas à época pelo gosto antecipado da saudade iminente que, ele sabia, viria a sentir quando a temporada acabasse.

Em uma cena, em que ele faz o seu próprio genro (?! - coisas de Fantasia...), ele curiosamente é de novo par da mesma palhaça que fez Julieta no ano anterior. Ele a pede em casamento aos sogros, interpretados pela impagável e hilária palhaça Fanikito e um acolhedor e naturalíssimo Chicabon. É simplesmente impossível fazer a cena sem rir, sem se desconcentrar. Depois de algumas vezes, o garoto simplesmente desiste de tentar. O casal de sogros rouba a cena de tal forma, que ele sabe que pode rir sem medo: não existe a menor chance de alguém estar prestando atenção nele. E, mesmo que estejam, veriam o mesmo que em todas as outras pessoas, no palco ou fora dele: risadas.

Há também uma outra passagem curiosa. Passam-se alguns dias da estreia da peça e o garoto está envolvido com a palhaça Xantili (assim mesmo, com X e I no final). Mas, oficialmente, ainda não estão namorando.

Em uma das cenas, Xantili faz uma rica e severa mulher, que inspeciona alguns candidatos para o emprego de motorista. O garoto, Pavarotti, é um deles, e lembra-se que ela dizia mais ou menos assim:

- Eu sou uma mulher fina! E meu motorista deve ter aparência impecável! Deve andar arrumado, perfumado e barbeado!

Os homens, perfilados, ouvem em silêncio.

- E devem ter a mãos e as unhas perfeitamente limpas para trabalhar no meu carro! Limpíssimas, ouviram bem? Deixem-me ver suas mãos!

Os homens mostram as mãos e ela inspeciona, esbravejando e resmungando. Olha primeiro as unhas, em seguida as palmas, de cada um.

Chega a vez do garoto e ela vê suas unhas. Ao virar suas mãos, lê a mensagem secretamente escrita em suas palmas: "Quer namorar comigo?". Ela arregala os olhos, cora-se como uma criança envergonhada, esboça um sorriso contido e continua a cena, sem hesitar. Na coxia, Xantili e Pavarotti tornam-se, oficialmente, namorados.

Mesmo sabendo que a plateia não perceberia, talvez não tenha sido muito adequado misturar as bolas, colocando no meio da peça uma coisa tão pessoal, que poderia ter desconstruído a cena... Mas aquele foi definitivamente o pedido de namoro mais original que já fizera. E ele nunca duvidou, a qualquer tempo, que a imagem do sorriso contido da Xantili compensou em muito os riscos de ter estragado a cena.

A temporada está chegando ao fim. Pavarotti desfruta pela última vez de uma das cenas mais simples da peça. Ele, em um dos praticáveis, sentado com um cobertor sobre as pernas. No outro lado, a palhaça Té Kinfim - talentosíssima! - no papel de Angelina, faz o mesmo. O casal, na cama (da qual a plateia, entre os dois, faz parte), conversa sobre a contratação de uma pajem para as filhas. A cena termina em blecaute e, em todos eles, desde o início da temporada, o garoto pensa em como aquela cena tão simples era tão deliciosa de fazer: a naturalidade do texto e a liberdade de dizê-lo de diferentes modos, as expressões precisas de sua parceira, a segurança da direção em resolver uma cena simples com apenas dois banquinhos, duas pessoas sentadas e um blecaute.

Mas, no último espetáculo, aquele blecaute doi. Cada segundo, doi. Cada fala, tem gosto de despedida. E, ao final, ao som da voz rouca de Raul Seixas em "Tente Outra Vez", Pavarotti chora um choro verdadeiro e desavergonhado. Um choro espedaçado. Um choro intenso, que mistura orgulho pelo que realizou e uma dor inconsolável pelo que sabe que não virá mais. Chora uma saudade que ainda nem veio. Uma saudade dos outros e de si próprio. Acaba ali a jornada de Pavarotti no Palhaços Graças a Deus.

Com o passar do tempo, o azedo da saudade rasgada dá lugar ao sabor doce das lembranças ternas. Ele desiste de pensar no que perdeu e no que deixou de ter, para ficar só com aquilo que ganhou e que ninguém lhe pode tirar: recordações de uma das melhores épocas de sua vida, em que suas semanas gravitavam em torno dos dias em que o grupo de teatro se reunia.

Não houve dia sequer, desde que saiu do grupo, em que não se sentiu Palhaço. Ser Palhaço, e ter vivido as coisas que viveu, deixou no garoto, já crescido, marcas que foram impressas em sua personalidade, em sua forma de ver as pessoas, o mundo e a vida. Para melhor ou para pior, ciente dos seus novos talentos e também dos seus novos defeitos, sua vida foi profundamente influenciada pelo que viveu ali.

Talvez alguns Palhaços não se lembrem de detalhes, ou talvez nem sequer lembrem dos seus nomes de batismo. Mas isto também não é importante. Porque estes Palhaços também viveram coisas naquele grupo que certamente não viveram nem viverão em nenhum outro lugar - mesmo que talvez nem se lembrem mais delas.

As pessoas que hoje fazem parte do grupo certamente não sabem nada a respeito do Palhaço Pavarotti ou de suas lembranças, que, no fundo, talvez não tenham importância alguma, a não ser para ele próprio. O que o orgulha, o que é de fato importante, é saber que gerações e gerações de Palhaços carregam em suas vidas as lições que ali aprendem e ensinam, muitas vezes sem querer, nem perceber. Este é seu maior orgulho nesta jornada: saber que faz parte de uma história que deixa um legado tão importante na vida de tantas e tantas pessoas que, mesmo de épocas tão diferentes (afinal, são mais de 30 anos de história), mesmo que completamente desconhecidas uma das outras, carregam semelhanças e valores que são tão belos quanto atemporais e que os une de uma forma inexplicável.

A primavera é a época da floração dos Ipês. E, especialmente quando florescem os amarelos, é sinal de que está próxima a estreia da montagem daquele ano. Faz 20 anos que o garoto sorri todas as vezes em que vê um Ipê Amarelo florido. E, especialmente nesta época, mesmo com a distância física que às vezes o tempo acaba impondo, lembra com imenso carinho de muitos palhaços que dividiram com ele o palco, os aplausos e que foram, ao mesmo tempo, espectadores e atores importantes da sua vida: Coxia, Pôr-do-Sol, Fuligem, Bastidor, Fofucha, Arrelia, Sereno Orvalho, Alvorada, Cambalhota, Colibri, Amanhecer, Aquarela, Xantili, Tcham Tcham Tcham Tcham, 123 Sinais, Bereré, Colombina, Tim Pim Pim, Batatinha Quando Nasce Espalha a Rama Pelo Chão, Chicabon, Raspa de Tacho, Joystick, Té Kinfim, Pingo, Pluft, Papoula, Ciclorama, Butterfly, Fanfarra, Fanikito, Dama da Noite, Brigadeiro, Peteca, Rubrica Perneira e, a mãe de todos, Fantasia, além de todos aqueles cujos nomes o tempo apagou de sua memória, mas não do legado dos Palhaços Graças a Deus.

Amyr Klink, em um dos seus extraordinários livros, em um trecho que fala das saudades que sente enquanto está em suas viagens solitárias, diz que "Trazia próximos, como nunca, pessoas queridas e amigos, e a provisória distância que nos separava era apenas física. Uma distância real e emocionante, que sabia muito bem como percorrer. Uma distância fácil de resolver. (...) E foi, só - por esses breves instantes que dura um inverno -, que descobri como fazer o tempo correr para tornar próximos todos os lugares, e certas pessoas, por quem se morre de saudades".

Ao escrever este texto, o garoto fez o tempo correr e percorreu distâncias enormes, sem sair do lugar. Sentiu inúmeras vezes o coração acelerado e as pernas inquietas, como se uma parte do seu corpo revivesse as lembranças e sensações que resgatou. Sonhou com o que escreveu, dormindo e acordado. Mas, acima de tudo, humildemente, homenageou em pensamento aquelas tantas pessoas, por quem nunca deixou de morrer de saudades e que tão generosamente dividiram dias tão especiais com ele.

Que os Ipês amarelos continuem a florescer. E que as lembranças da época que simbolizam, continuem deixando marcas indeléveis na vida de pessoas absolutamente inesquecíveis.


     Pavarotti  
 Agosto de 2011   
  


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Medíocre, mas imortal


Peço desculpas pelo texto grande. Mas não faço ideia de como resumir o tema...

Sou um artista medíocre, mas feliz. Não, não estou carente de atenção, de afagos ou dos aplausos dos amigos que me leem - ainda que me sinta muito agradecido sempre que os recebo. O fato é que conheço bem quais são e quais não são os meus talentos, e sei que a arte verdadeira está no segundo grupo.

Não sei fazer poemas, não sei cantar, não toco nenhum instrumento direito, não sei pintar, desenhar ou esculpir. No entanto, sou perdidamente apaixonado por arte. Perdidamente. E, ao longo da vida, venho tentando criar pedacinhos de arte dos quais possa me orgulhar.

Na adolescência, há exatos 20 anos, foi o teatro: uma das épocas mais felizes e mais importantes da minha vida, da qual me orgulho imensamente, e que muito tem a ver com a pessoa que sou. Atuei por 3 anos, no Palhaços Graças a Deus, no colégio em que estudei. Não vou escrever muito a respeito agora, porque pretendo fazê-lo em um texto especificamente para isto, em breve, em meados da primavera, quando os ipês amarelos já estiverem em plena floração.

Mais recentemente, resolvi começar a escrever, sem saber bem o porquê. Estou feliz em conseguir manter este blog com conteúdos pelo menos mensais. E faço-o sem nenhuma pretensão, sem me preocupar com quantas pessoas vão ler, nem que opiniões terão a meu respeito através do que escrevo. Faço-o com imenso prazer, só para não esquecer dos meus próprios pensamentos, muitas vezes tão fugazes. Escrevo, talvez, para poder me lembrar como era lá atrás, quando o futuro de hoje virar presente amanhã. Mas também não é sobre isso que quero falar hoje...

Ainda sob o efeito mágico do show do Bobby McFerrin, que tive a honra de assistir na semana que passou, hoje vou escrever sobre música e sobre dança. E porque preciso delas para viver...

Sempre fui apaixonado por música, desde muito pequeno. Quando eu tinha, sei lá, uns 5 anos, lembro-me de assistir aos primeiros e ainda incipientes vídeo-clipes no programa Realce, na TV Gazeta, na época em que a TV tinha não mais do que 7 canais. Me divertia nos finais de tarde com o Capivara - o personagem que apresentava o programa - e com meu tio, com quem eu assistia.

Andando de carro, lembro-me de ouvir as músicas no rádio tentando listar todos os instrumentos que conseguia escutar, prestando atenção aos seus tímbres e seus "papéis" nas músicas.

Lá pelos 10 anos, ganhei dos meus pais um pequeno teclado Casio, e comecei a dedilhar. Na mesma época de pré-adolescência, começaram os bailinhos lá no prédio, que deixaram lembranças de pessoas queridas e meus primeiros contatos com a dança... e com as meninas.

Depois de muito esperar - era uma época economicamente difícil - ganhei meu micro-system Gradiente com duplo-deck! Era uma sexta-feira, e naquela noite eu quase não dormi, porque fiquei escutando músicas até de madrugada, fascinado com o presente. E passei então a preparar as fitas cassete, com as músicas para os bailinhos.

CD-players, no início muito caros, fui o último a ter... Todo mundo tinha, menos eu. E talvez a longa espera tenha alimentado ainda mais o desejo de ouvir os detalhes e a pureza do som que antes só podia escutar na casa dos amigos.

Algum tempo depois, comecei a estudar piano. Me encantava o seu som solene, e o desafio de tocar coisas diferentes com cada mão era imenso. Não me lembro do porquê, mas parei de fazê-lo algum tempo depois. Nunca perdi o encantamento pelo instrumento, que pretendo voltar a tocar um dia.

Com a adolescência, veio o teatro, que ocupou em mim todo o espaço que havia para a paixão por arte. Minhas semanas giravam, durante 3 anos, em torno dos dias em que havia reuniões do grupo. E, claro, sempre havia muita música. Foi nesta época que me dei conta de que precisaria de arte pelo resto da minha vida.

Mas faltou-me a coragem para tentar fazer da arte propriamente dita a minha profissão. E já, já eu digo porque eu acho que isto foi bom...

Veio a vida adulta, o namoro, a faculdade, o casamento, e muito trabalho. Produzindo vídeos, animações, roteiros e personagens, pude me manter envolvido com música - ainda que ela fosse coadjuvante em um processo eminentemente técnico - e também com atuação, já que fiz a direção e vozes de alguns personagens em filmes que produzimos.

Em alguns dos vídeos, fiz da música o elemento principal. E, quando os produzia, ouvia a música-tema repetidamente, vez após vez, horas a fio, dias ininterruptamente - até que aquela música entrasse no meu sangue. Nunca enjoava.

Foi exatamente nesta época que desenvolvi o gosto eclético que orgulhosamente trago até hoje. Tenho dezenas e dezenas de CDs, de muitos gêneros, de artistas magníficos, mesmo que desconhecidos do grande público. Tive a oportunidade e a honra de assistir a alguns desses artistas em shows ao vivo - e é sempre um orgulho fazê-lo. Com eles, e graças a eles, aprendi a ouvir sutilezas e apreciar com gratidão pequenos toques de genialidade que colocam em suas músicas, pelas quais me apaixonei tão intensamente.

Lembro-me que em 2000, às vésperas do nascimento da minha primeira filha, após vários dias de intenso trabalho e pouquíssimas horas de sono, voltei para casa ouvindo um CD instrumental, só com violão, que continha a música "How Great Thou Art". Foi como se algo maior do que eu (sobre o qual também pretendo escrever um dia), quisesse falar comigo, e me colocar numa sintonia diferente, para receber minha pequena e iniciar uma nova fase em minha vida...

E por aí, foi. Novas descobertas, novas músicas e, por elas, incontáveis paixões. Mas, nos primeiros anos do novo século, ainda que eu me mantivesse próximo à música através dos vídeos que produzia, o excesso de trabalho e o cansaço permanente chegaram ao limite do aceitável. Produzir aquilo deixou de ser um prazer, para virar um processo doloroso e angustiante.

Minha empresa, naquele momento, mudou de rumos - para melhor. Muito melhor! Passamos a trabalhar com internet, e os vídeos ficaram para trás. Meu dia-a-dia tornou-se mais técnico do que jamais fora, e a música deixou de fazer parte dele. Mas, ao diminuir sensivelmente o ritmo do trabalho, passei a ter vida fora dele. Sem a carga de obrigações e stress que o trabalho envolvia, passei a ter espaço e tempo para a arte e para música. E foi exatamente aí que reencontrei-me com elas, através da dança.

Quem diria! Pois é... o CDF aprendeu a dançar... Na segunda metade de 2006, com as filhas já mais crescidinhas, e motivados pelos novos ares que a vida nos trazia e demandava, eu e minha esposa resolvemos iniciar um curso de dança de salão. "Vamos lá, ver como é...". Só que o "ver como é" virou para mim paixão imediata e arrebatadora, que persiste até hoje. E isto também abriu portas para ouvir novas músicas, que antes meu gosto "eclético e pseudo-refinado" não me permitia apreciar.

Quem lê isto talvez possa me julgar um artista frustrado e covarde. Mas se por um lado talvez tenha me faltado a coragem - quase com certeza, também o talento - para seguir atuando profissionalmente, por outro, hoje posso me dar o luxo de ter uma relação com a arte que é de puro prazer. Me assusta me imaginar como ator profissional, ainda que amasse a profissão, pensando um "Ai, que saco! Hoje eu não estou a fim de subir no palco!" - porque afinal, todos nós temos nossos dias de chateação e desmotivação. Para mim, não. Não tenho obrigações com a minha arte, porque não preciso sobreviver dela.

Eu sei que isto soa cômodo, e talvez me impeça de desenvolver plenamente esta tal arte pela qual me digo tão apaixonado. Mas, por outro lado, me permite ter com ela uma relação de prazer em seu estado mais puro: faço quando e como quiser, sem amarras, sem obrigações e sem expectativas de terceiros...

A dança foi a oportunidade de voltar a juntar a paixão pela música, com a paixão e o desafio do teatro. Danço bem? Não. Só engano - como fazia com o teatro, com o piano e agora, com esses textos que alguns amigos pacientes e queridos insistem em ler, apesar do tamanho inadequado para a internet. Mas é este "enganar", este fazer unicamente pelo prazer, que me permite respirar arte, mesmo tendo um dia-a-dia tão técnico. Encontrei, sem querer e por mera força das circunstâncias, um equilíbrio que me permite viver, hoje, feliz e realizado com a arte que humildemente tento produzir, escrevendo, dançando e aprimorando meu ouvido, para que um dia meus dedos possam tocar o que eu escuto com admiração.

Quem tiver interesse em trocar figurinhas musicais comigo, por favor deixe um comentário! Sempre estou interessado em conhecer novidades musicais. Talvez eu possa também apresentar algumas das minhas, que vão da genialidade elétrica e contemporânea de Joe Satriani, à universalidade quase ancestral de Ladysmith Black Mambazo ou de Bobby McFerrin, que me motivou a escrever este texto.

Sim, sou um artista medíocre. Mas, isto não faz de mim um artista frustrado. E muito menos me impediu de descobrir a razão pela qual a arte existe e é tão desesperadoramente necessária: tornar a vida mais feliz e dar formas às lembranças que, de outro modo, poderiam ser apagadas pelo tempo. Porque a arte nos torna, mesmo que medíocres, imortais.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lembranças de Quem Fomos


Pouca gente sabe uma coisa a meu respeito: nasci no estado do Ceará. Meus pais se casaram em Belém e se mudaram imediatamente para Fortaleza, onde eu e meu irmão nascemos. Saímos de lá quando eu tinha 2 anos e meio. Vivemos mais 1 ano em Recife e, em seguida, viemos para São Paulo. Então, não é de se estranhar que eu me sinta 100% paulista. Foi em São Paulo que cresci, que aprendi a ler, que fiz meus melhores amigos, vivi minhas paixões e meus amores, descobri meus talentos, meus medos e minhas fraquezas. Foi em SP que me casei (com uma Uruguaia de nascimento e paulista de criação, como eu) e aqui nasceram minhas filhas.

Como minha família é toda de Belém, não mantive vínculos em Fortaleza. Passei mais de 20 anos sem ir à cidade. Em meados dos anos 90, estive lá, a trabalho. Imagine uma pessoa de roupa social, andando num calçadão em frente à praia no final de tarde. Isto foi o mais perto que cheguei do mar naquelas 24 horas.

Em 2011, com 34 anos, fui pela primeira vez como turista a Fortaleza, onde fiquei durante 9 dias com a esposa e filhas. Comecei a escrever este texto no voo de retorno para SP, embora só tenha conseguido terminá-lo quase uma semana depois.

Não, não trata-se de uma redação entitulada "Minhas férias". Mas não posso deixar de escrever sobre o que elas me fizeram pensar e sentir.

Fiz todos os passeios que queria fazer: andei de buggy por dunas que pareciam de açúcar, andei de Pau de Arara (aqueles precários caminhões com banco duro de madeira, em que os retirantes faziam inimagináveis viagens fugindo da seca), fiz passeio de jangada e nadei em alto-mar olhando para o céu, mergulhei em lagoas, desci rampas imensas no skibunda e fiquei à milanesa ao rolar pela areia, fotografei calangos, desci tobogãs altíssimos sentindo o coração na boca, e com ela comi rapadura quente e descobri o gosto do suco de siriguela.

Em cada um desses momentos, me encantei com a receptividade de um povo incrivelmente hospitaleiro. Me senti chegando à casa daquela tia que você não vê há anos, mas que te recebe com tanto carinho, com um abraço tão acolhedor, que te faz sentir íntimo instantaneamente.

O sotaque doce, em alguns momentos curiosamente engraçado, o jeito carinhoso de chamarem uns aos outros de "meu amor" e uma simplicidade sem subserviência, me fez sentir um orgulho enorme de ser conterrâneo daquela gente - e de ser brasileiro.

Tem gente em São Paulo que diz que "aqui nós trabalhamos em dobro porque lá ninguém faz nada". Isto é mentira. Trabalhamos muito, sim, é verdade. Mas eles também! Sabe quantos "pedintes" eu vi em 9 dias de Fortaleza? Poucos. Muito poucos. Menos do que vejo no trajeto entre a minha casa e o trabalho, todos os dias. Vi, sim, muita economia informal. Mas era gente trabalhando! Não vi quase ninguém pedindo!

Vi bugueiros uniformizados organizados em cooperativas, extremamente bem treinados para atender turistas. Vi cardápios de restaurantes em 4 idiomas - coisa que não me recordo de ter visto em nenhum dos restaurantes que frequento aqui ou em qualquer outro lugar. Passamos uma hora com uma simpática índia analfabeta que fazia artesanato "desenhando" os nomes das pessoas, com as letras que ela sabia reconhecer, mas que juntas formavam sílabas que ela não sabia ler. Vi homens fazendo lindas e trabalhosíssimas artes com areia colorida em pequenas garrafinhas, a preços inferiores a uma bola de sorvete no shopping center.

E vi muitos e muitos sorrisos de um povo que, como boa parte dos outros do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, irradia um calor que nós aqui em São Paulo, por mais cortezes que sejamos, simplesmente não temos. E se não o perdemos de todo, ainda, é porque há muitos deles vivendo aqui. Quando nos referimos com orgulho à "alegria do nosso povo", em geral é neles que estamos pensando.

Andei várias horas de ônibus ao lado da minha filha mais velha - uma moçona de 10 anos - e dei colo para ela, enquanto dormia como um bebê.

Fiz esculturas de areia! Adoro! Não, não tenho nenhum talento notável nesta área, não. São até bem feinhas. Mas fazê-las é uma coisa que me dá muita paz, muita tranquilidade... ficar ali, mexendo na areia, pacientemente, batendo, cavando, modelando e me sentindo criança outra vez.

Fiz minhas esculturas com minhas filhas, sempre próximas ao mar. Uma delas, na Praia das Fontes, foi o corpo de uma mulher, que chamamos - talvez sem muita originalidade - de Iracema. Outra, foi o rosto de um garotinho, que - definitivamente sem originalidade nenhuma - chamamos de Cumbuquinho, na praia de (adivinha!) Cumbuco.

A Iracema, fizemos na maré baixa e fomos embora da praia deixando-a lá, deitada e intacta.

Mas o Cumbuquinho, não. Quando terminamos, a escultura do rosto do menino sorrindo estava bem próxima ao mar. A fotografia no início deste texto foi tirada exatamente 2 segundos antes de uma onda destruir a escultura por completo. Minha filha mais nova, de 8 anos, ficou muito, muito triste. Uma tristeza tão grande, em um choro tão sincero, que me segurei para não chorar também. Não pelo Cumbuquinho - porque acho bonito pensar que o Cumbuquinho, na verdade, não era meu, nem nosso: era da praia. E a onda simplesmente estava devolvendo-o à sua verdadeira dona.

Quase chorei, na verdade, pelo sentimento de "saudade" que vi no rosto da minha pequena. Saudade do sorriso esculpido, que tinha voltado a ser praia. Pegamos na mãozinha dela, limpamos suas lágrimas e dissemos que tinha sido uma bela escultura e que ela estaria sempre em sua lembrança. E, olha só que sorte! Ainda tínhamos foto!

Nesta viagem, me senti privilegiado por vivermos momentos tão lindos e tão marcantes quanto um sorriso maior que o próprio rosto, ao se andar de buggy de frente para o vento, ou uma lágrima por algo que passou a estar apenas na lembrança, mas que trará, espero, sorrisos doces quando elas se recordarem da infância, em um futuro mais próximo do que gosto de imaginar.

Volto para São Paulo certo de que quero ser um pouquinho mais cearense. E certo de que as recordações que trazemos de lá - e de quaisquer outros lugares ou pessoas - estão, sim, nas fotos, nos souveniers e nos presentes. Mas, antes de tudo, estão nas lembranças de nós mesmos e de quem fomos quando lá estivemos. E, caramba, nós fomos felizes. Ah, como fomos felizes!

sábado, 2 de julho de 2011

Aquelas Mulheres de Branco

Semana passada, no feriado de Corpus Christi, passei uns dias descansando com a família em um hotel. E "descansando" é mesmo a palavra mais adequada: como todos que pegam no pesado, neste meio de ano eu estava precisando de uma pausa, que me permitisse desligar os motores e sossegar por alguns dias.

Só que, neste resort em que fiquei, em Campinas, entre as várias pessoas que vi, algumas delas me chamaram atenção especial: as personagens que dão título a este texto; as babás, aquelas mulheres de branco, que viajaram junto com seus patrões. Como estamos em Julho - época de férias escolares, em que muitas famílias viajam - achei oportuno escrever a respeito.

Mas, antes, quero deixar muito claro que não tenho absolutamente nada contra quem viaja com suas babás. De modo algum! Apenas aproveito para colocar no papel (na tela, você entendeu, vai!) algumas ideias sobre pais, filhos e convivência em família.

É claro que para algumas daquelas moças e senhoras, estar ali representa uma oportunidade muito bacana: um resort bonitão, com comida de primeiríssima qualidade, ambiente agradável e, visivelmente, patrões que gostam delas e valorizam sua presença. Não vi, em momento algum, alguém sendo ríspido ou grosseiro com elas. Ainda que seja a trabalho, imagino que estar ali seja uma coisa prazerosa.

Mas, o que realmente significa, do ponto de vista dos pais, a presença das babás ali? E não posso falar disso, sem falar de mim mesmo e da minha relação com a família.

Quem já leu meus textos anteriores, sabe que eu sou daqueles que trabalha 14 horas por dia. Não me considero workaholic, em absoluto. Já fui, mas não mais. Trabalho muito e gosto do que faço, mas encontro prazer em muitas outras atividades, que nada têm a ver com trabalho. Entre esses prazeres, está o de ficar com minhas filhas.

É verdade que, ficando em casa, mesmo que estejamos juntos, às vezes caímos numa rotina meio tola: cada um para o seu lado, lendo, jogando video-game, navegando na internet. Mas, muitas vezes, também estamos fazendo "nada" juntos: brincando, contando histórias, assistindo House e fazendo comentários sobre sua personalidade intrigante e maluca. E, nestes momentos, sinto um grande prazer.

É claro que ir viajar é uma ótima oportunidade para descansarmos. Mas confesso que nunca me imaginei indo para um local destes, e me abstendo de "cuidar" das minhas filhas. É claro que há os tios da recreação, e elas passam algum tempo com eles. Mas elas também ficam boa parte do dia com a gente e gostam de fazê-lo. Não vejo nos tios uma chance de "finalmente me livrar das crianças". Quero férias, sim, mas não das minhas próprias filhas. Estando ali, elas são automaticamente parte fundamental do meu descanso e dos prazeres que as férias - não importa quão curtas - me proporcionam.

Se elas não estiverem junto, aí é outra coisa. Já viajei sem as crianças, sim. É foi ótimo! Acho que os pais que têm esta chance, devem fazê-lo, vez em quando. Mas isto não é sempre! Quando estamos com as crianças, estamos realmente com as crianças!

Voltemos às babas. Imagino que algumas, lá no resort, talvez até dormissem no mesmo quarto que as crianças, para que os pais pudessem ter a devida privacidade, depois de um dia bem aproveitado ao sol. Algumas famílias, com 2 filhos, tinham uma babá para cada criança, inclusive.

Muitos daqueles pais que estão ali, devem trabalhar muito, como eu. E talvez fiquem pouco com suas filhas, como eu. E devem também estar ansiosos por um merecido descanso, como eu. No entanto, ao levar as babás, estes pais e mães perdem a oportunidade de, finalmente, passar momentos com os filhos fora de casa, como uma família - com as partes boas e as ruins. Ao levar as mulheres de branco, os pais ficam só com "a parte fácil" da convivência com os filhos, sempre limpos, banhados, de dentes escovados e cabelos penteados. Isto, convenhamos, não é muito diferente das noites, quando chegam em casa tarde, e vão dar um beijinho nas crianças, já adormecidas. No final das contas, viajaram com as crianças e mantêm delas, voluntariamente, a mesma distância asséptica que têm no dia-a-dia, por imposição da vida atarefada. Bem, isso para não falar daquelas que de atarefadas não têm nada... e ainda assim, levam as babás.

Felizmente, na minha família, tivemos a felicidade de contar com vovós quando nossas filhas eram pequenas, para nos ajudarem - e contamos até hoje, eventualmente. Isto nos permitiu não precisar de babás. Imagino que seja bastante difícil para aquelas mães e pais que vivem longe de suas famílias, ter que confiar a terceiros os cuidados aos seus filhos. É por isso que respeito e valorizo muito o trabalho das babás e os laços de amor que muitas delas criam com as crianças sob seus cuidados.

Talvez para algumas daquelas famílias, a babá seja realmente parte da família - o que legitima sua presença ali. Mas acredito que a maioria delas não as vê assim, não importa quão bem as tratem. Parece-me que muitos daqueles pais e mães perdem uma chance ímpar de, finalmente, cumprir um papel que habitualmente é da mulher de branco: simplesmente estar com os filhos. Dá trabalho, sim. E, se dá trabalho, mesmo que possam encarregar-se dele, simplesmente continuam a delegá-lo, para que outrem o faça.

Não estou apto a dizer que impacto isto terá na vida dessas crianças e dos futuros filhos destas crianças. Mas espero que isto não as faça acreditar que a distância é boa. A Privacidade é boa e a individualidade, também. Mas, distância, não.

Olhando minhas filhas de 10 e 8 anos, e quão rápido cresceram, "distância" é uma coisa que eu não quero neste momento. A vida vai se encarregar de fazer isto naturalmente, quando crescerem mais. Mas, enquanto não faz, quero me sentar com elas à mesa para fazer as refeições, brigar para que não limpem a mão na toalha de mesa e lembrá-las mil vezes de mastigar com a boca fechada. Fácil, não é. Muitas vezes, nada prazeroso. Mas a vida não é feita só de prazeres, é? Certamente as mulheres de branco saberiam falar muito bem a este respeito.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não queremos sapos

Alguns dias atrás, os canais de TV começaram a anunciar que estariam no ar a partir das 5 da manhã, para transmitir o casamento do príncipe William com a bela Kate Middleton. Confesso que, quando ouvi isso, falei para quem quisesse ouvir: "Caramba, eu ficaria uma fera se tivesse que acordar de madrugada para fazer a cobertura jornalística do casamento de quem quer que fosse. Um monte de plebeus mundo afora babando por um monte de nobres que não têm o que fazer".

Pois é. Só que depois de ver flashes do casamento, confesso que mudei completamente de ideia. Termino o dia convencido de que a família real, hoje, prestou um excelente serviço ao mundo - apesar do empenho da doida ao lado, em fazer o oposto.

É verdade, sem dúvida, que há um excesso de atenção a coisas sem a menor importância que aparecem  em um evento como este: os designs horrorosos de 9 entre 10 chapéus usados pelas convidadas, o número de pedras preciosas na tiara da noiva, a duração do primeiro beijo do casal, o nome da estilista que fez o vestido, e um monte de outras coisas tolas, que só servem para rechear os comentários de alguns pseudo-entedidos e as páginas das revistas que costumam conter mais fotos do que palavras.

Em época de celebridades instantâneas do BBB ou de super ídolos tão descartáveis quanto suas obras, parecia que a elegância, a classe e a discrição haviam tornado-se coisas dispensáveis e indesejáveis. Quanto menos roupa, melhor. Quanto mais espalhafatoso, também. Quanto mais escandalosa é uma celebridade, maior é a atração que ela exerce. Todos querem ser notados, mas poucos empenham-se em ser notáveis. O negócio é ficar famoso. É por isso que todo mundo quer ser artista: porque aparece e fica rico. Não porque ama a arte...

O que me fez mudar de ideia sobre a importância do casamento real, a princípio tão distante de nós, mortais, foi a imagem que eles hoje transmitiram ao mundo.

Assistimos a uma cerimônia que tinha toda a pompa e o protocolo que seriam de se esperar. Mas, ao mesmo tempo, marcada por uma elegante simplicidade da atitude dos noivos. Reforço: não estou falando de luxo. Estou falando da atitude. Não foi necessário um vestido que tivesse um decote até o umbigo, ou um tomara-que-caia tão baixo que virasse espero-que-não-caia. Não foi necessário que a mãe da noiva usasse roupinha de onça-pintada no cio. Não foi necessária maquiagem carregada que fizesse a noiva parecer que iria para a esquina, em vez do altar. A simplicidade e a verdade do sorriso da noiva plebeia, ao meu ver, foram os pontos marcantes do que se viu hoje, em Londres.

Eu não casei na igreja e não estou aqui fazendo apologia aos protocolos, tradições ou conservadorismo. Aliás, vivo há 13 anos com minha esposa, com a qual não casei formalmente - nem no civil, nem no religioso. Isso não nos torna menos casados do que ninguém. Acredito que as tradições existem e devem ser cumpridas por quem realmente se identifica com elas. Para nós, esta não é uma tradição importante, embora entendamos perfeitamente que seja para muitos casais. Não somos religiosos e, exatamente por respeitarmos aqueles que são, optamos por não casar na igreja. Se o fizéssemos, seria só porque é "bonito", e não porque cremos no que aquela cerimônia representa. Mas usamos aliança, sim, porque acreditamos e apreciamos o que ela simboliza. Nos damos um luxo que príncipes não podem se dar: tomar a liberdade de pegar emprestado das tradições aquilo que faz sentido a nós.

Mas não é a tradição que estou defendendo - e espero não parecer um velhote ao mencionar estas coisas. Estou me referindo, isto sim, à valorização do que é belo, sem ser exagerado; do elegante, sem demonstrar arrogância; do comportamento respeitoso, sem que isso necessariamente represente uma definitiva anulação da própria personalidade. Vimos isto tudo hoje nos noivos e confesso que fiquei feliz em ver o mundo tão interessado nisto, em uma cerimônia em que bons modos são mais importantes do que quantas cervejas se bebeu ou quantas bocas se beijou.

Hoje, sexta-feira à noite, quem sabe, teremos mais moças se arrumando para sair, diante do espelho, querendo se parecer mais com Kate Middleton, e menos com a Lady Gaga ou com alguma Paty Xavaskinha, que tenha participado de uma das 50 edições do BBB. Quem sabe os rapazes sinalizem claramente a estas moças que as valorizam mais como Kates do que Gagas, e elas mostrem para eles que querem ver mais príncipes que batem continência, em vez de sapos que coaxam, ou arrotam depois da décima cerveja.

Se isto acontecer, a nova princesa britânica terá cumprido um papel muito mais vistoso do que os exóticos chapéus que algumas madames desesperadas por atenção optaram por usar, e que, paradoxalmente, foram tão nitidamente ofuscados pelo seu exato oposto: a simplicidade com elegância; coisa que qualquer plebeu que preze bons modos, pode ter.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A Muleta dos Relapsos


No fim de semana passado, assisti à animação "Rio", dirigida pelo notável Carlos Saldanha. Como a maior parte desses filmes de animação, é divertidíssimo, e vale o preço do ingresso, sem dúvida.

O mais notável, no entanto, não é o filme em si - mas o seu tema. Existem, claro, cidades lindas e interessantes no mundo. Mas você se sentiria atraído por um filme cujo nome fosse simplesmente Cancun? Ou Barcelona? Que tal Viena? Quebec? Tá, eu sei que "Budapeste" (baseado no excelente livro de Chico Buarque) é o nome da capital Húngara.  Mas o que eu quero dizer é que são poucas a cidades que atrairiam público simplesmente com o seu próprio nome. Especialmente considerando-se que não estamos falando de um público cabeça, para um filme complexo. Estamos falando de grande público, crianças e adultos de todo o mundo. Esse filme, Rio, é um sinal claro de que existe um grande interesse no Brasil neste momento. Alguém de um grande estúdio achou que o tema Brasil seria vendável - e acertou.

O Obama esteve aqui e, independentemente do excesso de "pagação de pau" em torno dele, se dirigiu a nós como povo e nos disse com todas as letras e cores aquilo que esperávamos ouvir do mundo há decadas.

Sempre que vou para o exterior e me identifico como brasileiro, recebo olhares de interesse e comentários elogiosos aos nossos carros flex, à nossa (suposta) auto-suficiência em petróleo, ao nosso visível crescimento econômico nos últimos 17 anos - e não apenas 8, como alguns teimam em afirmar. Fiquei recentemente 40 minutos conversando com um taxista americano que sabia até o nome da nossa presidente ("presidente", e não "presidenta", né? Assim como ninguém fala "gerenta", nem "assistenta", não vejo razão para dizer "presidenta").

O fato é que o interesse por nós é imenso - e as Olimpíadas e Copa do Mundo são talvez as mais visíveis de todas as provas a este respeito. Torço muito, muitíssimo, para que possamos fazer por merecer todas esta atenção, holofotes, confiança e respeito. Mas, caramba, devo admitir que estou preocupado, como muitas pessoas também estão.

E acho que devemos, todos, assumir alguma culpa por esta preocupação. Porque os motivos que levam a ela, são um retrato fiel de quem somos, como povo.

Li no Estadão* que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) afirma que 9 dos 13 aeroportos que receberão investimentos para a Copa não ficarão prontos a tempo. Isso sem falar no jogo de abertura a ser realizado em um estádio que ainda não existe, em uma região com infra-estrutura igualmente inexistente.

Gente, estamos falando em um evento que será daqu
i a 3 anos! Não duvido que Fukushima, no Japão, esteja toda reconstruída até lá, e nós estejamos aqui envergonhados porque não conseguimos reformar 9 aeroportos e construir algumas arenas com um gramado no meio.

Existe uma frase bem brasileira, que diz que "Se ainda não está tudo bem, é porque ainda não chegou no fim". Existe uma crença entre nós de que "no fim, tudo dá certo" - e que o nosso "jeitinho" e nossa flexibilidade conseguem resolver tudo.

Talvez resolvam, sim, coisas simples. Dá pra botar mais água no feijão, quando uma visita inesperada aparece para almoçar. E dá também pra pedir uma chupeta na bateria do carro para o vizinho, que dificilmente vai nos negar ajuda. Dá pra atrasar a apresentação 5 minutinhos, porque você ainda está fazendo ajustes no PowerPoint que devia estar pronto há 3 dias. Ok. Mas, levantar um estádio, resolver o problema de transportes e oferecer serviços decentes pelo menos em inglês e espanhol compreensíveis para os milhares de turistas que para cá virão, não são coisas que se resolvem com jeitinhos, nem com boa vontade somente. Grandes problemas são resolvidos com uma coisa na qual somos péssimos: planejamento.

E o pior, é que aceitamos passivamente este nosso traço de personalidade: aceitamos a lentidão, os abusos das autoridades. Aceitamos a burocracia cancerígena que nos cerca e atribuímos a ela os entraves que nos impedem de seguir adiante com a devida rapidez. Não se fala em rever de vez políticas para acelerar processos; mas já fala-se abertamente na necessidade inevitável que haverá de se driblar temporariamente a burocracia para viabilizar projetos superfaturados, que vão "dar um tapinha" naquilo que deveria ser definitivo.

Temos 3 anos pela frente e não vemos nenhum movimento para que possamos sair do nível basal e mudar de vez este ritmo e este jeito de pensar que, sendo mantidos, simplesmente não nos possibilitarão realizar Copa alguma. Será que alguém poderia me explicar o que afinal nos falta para começar a planejar direito e, então, "colocar a faca no dente", trabalhar em 3 turnos, trabalhar aos fins de semana, e assumir o compromisso de entregar aquilo que nos foi confiado? Devemos isso ao mundo e, principalmente, devemos isso a nós mesmos. Ou estou enganado, e não merecemos tanto assim?

A conta vai ser alta, sem dúvida. Talvez até estejam certos aqueles que dizem que não deveríamos estar gastando tanto dinheiro, tendo tantos outros problemas mais importantes para resolver. Mas isto não está mais em questão. O compromisso está assumido e devemos, agora que nos vemos forçados a resolver certas coisas, tirar proveito da situação para crescer como país e como sociedade.

Não somos mais o país do futuro. O futuro chegou e, mesmo que ainda tenhamos muito o que melhorar, estamos atravessando nosso melhor momento. Se perdermos estas oportunidades e assistirmos pateticamente a estes eventos esportivos sendo transferidos na última hora para os EUA ou a Inglaterra, passaremos a ser o país do passado - e lamentaremos por gerações a inevitável queda no esquecimento, pelo qual seremos integral e inequivocamente culpados.

A África do Sul conseguiu e nós também temos que conseguir. Espero, sinceramente, que isto aconteça. A flexibilidade, uma das nossas características mais marcantes e mais positivas, talvez nos ajude a cumprir esses objetivos tão difíceis. Mas a flexibilidade deve ser um recurso dos inteligentes, e não a muleta dos relapsos. Temos 3 anos para provar que fazemos parte do primeiro grupo.

Talvez tudo isso não passe de um simples atraso - e que 2011, para nós, não tenha começado depois do Carnaval, e sim, vá começar depois da Páscoa. Que seja. Mãos a obra, todos nós. Já. Por favor.

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Nenhum talento especial

Outro dia eu vi na TV uma matéria feita nos EUA, sobre uma delícia brasileira: o brigadeiro. Você já parou para pensar nas coisas que só temos aqui, e que adoramos? Além do brigadeiro, temos o pão de queijo, o guaraná, o doce de leite com queijo minas, o pastel com caldo de cana. Isso, para falar só em comidinhas...

O fato é que os nossos brigadeiros estão fazendo sucesso na terra do Obama, e alguns brasileiros ganham uma graninha por lá vendendo-os a 1 dólar a unidade. Não dá pra ficar milionário, mas dá pra defender um trocado honestamente.

Mas o que me levou a escrever foi a "recriação do brigadeiro", que começou a acontecer por lá. Um chef (não sei se era francês ou canadense) pegou a nossa receita e fez diversas variações. Uma delas, inclui o brigadeiro com canela e pimenta - que deve ter um sabor bem diferente daquele que as crianças brasileiras sentem enquanto se lambuzam até o queixo nas festinhas.

"Poxa, mas por quê um chef estrangeiro para recriar o NOSSO brigadeiro?! E ainda enfiar pimenta nele?! Não, obrigado". Pensei um pouco sobre as razões que motivaram o tal chef a fazer  isso, e acho que a resposta resume-se a uma palavra apenas: "desapego".

Nós, brasileiros, dificilmente conseguiríamos reinventar o brigadeiro, porque somos muito apegados ao original. Não conseguimos nos afastar suficientemente da tradição, para poder pensar em algo novo. Isso não é ruim, de modo algum! Afinal, o brigadeiro é ótimo do jeito que é. O tradicional, muitas vezes, é tão bom que não precisa ser mudado.

Não precisa, mas pode. E também não há nada de mau nisso. Provavelmente nenhum japonês teria a ideia de fazer sushi com goiabada. Precisou chegar aqui e cair nas mãos de alguém que gostasse muito de sushi, mas que fosse suficientemente desapegado da tradição, para inventar essa novidade tão gostosa. Assim como foi necessário alguém de fora do Pará para inventar o açaí com granola. Açaí, no Pará, leva só açúcar em generosas quantidades e, para alguns, a deliciosa farinha de tapioca. Eu, como filho de paraenses, gosto do original. Minha filha mais velha, que carinhosamente apelidei de "Mari Poço sem Fundo" (em homenagem a uma permanente fome impulsionada pelo rápido crescimento aos 10 anos), gosta dos dois jeitos. Não tem apego ao original, como eu tenho.

É o desapego à tradição que, muitas vezes, leva ao nascimento de ideias novas, sem que as velhas necessariamente desapareçam. Ou então, que surjam aplicações novas para ideias já existentes. Provavelmente foi um físico quem inventou a câmera escura, um outro quem descobriu que uma placa com nitrato de prata registrava imagens. E um artista transformou a fotografia em arte. Isto não torna o artista mais nem menos importante que os físicos. Todos são agentes de um mesmo processo criativo, que gerou algo realmente novo. Talvez um outro físico tenha voltado a visitar esta ideia, para criar a câmera de cinema.

Santos Dumont, antes de inventar o avião, olhou para o relógio de bolso e inventou o de pulso, que foi construído pelo amigo Cartier. Alguém um dia olhou para uma Viola de Gamba, para inventar o violino. E outro olhou para o violão, para inventar a guitarra. Mas a guitarra não é melhor que o violão. E o avião (Dumont, de novo) não é melhor que a bicicleta. É mais complexo, claro. Pode, também, ter causado no mundo uma transformação mais profunda. Mas, cada invenção tem o seu valor. Neste caso, o valor depende apenas se você quer cruzar o Atlântico ou ir até a padaria comprar 100g de queijo prato.

O fato é que desapegar-se das próprias ideias e das próprias referências é, além de um ato de humildade, um bom caminho para buscar inovação. Na minha crônica de fevereiro, "Rebolation Ma Non Troppo", neste mesmo blog, falei sobre "ser plural", ter múltiplos interesses. Acho que as pessoas criativas são, antes de tudo, interessadas em tudo, mesmo que as informações que coletam, à primeira vista, não tenham nenhuma utilidade identificável. Einstein, numa frase que soa quase cômica, disse "Eu não tenho nenhum talento especial. Sou apenas apaixonadamente curioso". Mais humilde do que isso, está difícil. E mais genial, também.

Diversas vezes, me deparei no trabalho com problemas ou necessidades que não conseguia resolver. No caminho de casa, já sem os olhos na tela, ou enquanto tomava banho, ou num dia de descanso, a ideia e a solução se me apresentavam. Às vezes basta um breve afastamento do problema, para que a cabeça tome rumos diferentes, e a solução apareça. É a ideia de "olhar de cima", para ver melhor o que está no centro. Ou simplesmente olhar para o outro lado, e achar lá a resposta que insistia em não aparecer enquanto olhavámos apenas para o nosso próprio umbigo.

Normalmente, as boas ideias são pegajosas aos seus autores, que, compreensivelmente, têm dificuldades em largá-las. Mas quando esses mesmos autores têm o desprendimento de olhar para elas com outras opticas e outros enfoques, podem se modificar para algo ainda melhor, ou então irem para o lixo, por mostrarem-se simplesmente medíocres. Desapego, enfim.

Não sou grande admirador da arte de Picasso, até porque não a conheço bem. Mas não se pode deixar de reconhecer a importância e profunda influência que teve na arte contemporânea. Em uma frase que talvez ajude a exprimir a razão de sua arte ser como é, ele disse que "Outros viram o que era e perguntaram "Por quê?". Eu vi o que poderia ser, e perguntei "Por que não?". O desapego de quem recriou o nosso brigadeiro, para enfiar-lhe pimenta, talvez seja excessivo para nós. Mas, se agrada aos gringos, vamos citar Picasso: "Por que não?".

O desapego ao próprio ego (difíííícil) e às próprias ideias, ao meu ver, é um dos talentos que toda pessoa que se diz criativa deve ter. Ou, pelo menos, buscar ter. Se Eistein, que não tinha talento algum, conseguiu, imagina a gente!


segunda-feira, 7 de março de 2011

Homens não sabem sorrir


Algumas semanas atrás, eu e minhas três meninas (esposa inclusa na categoria), fomos ao Khan el Khalili - aquela casa de chá egípcio aqui em São Paulo, em que há espetáculos de dança do ventre. Lá, observando as pessoas, comecei a amadurecer um pensamento, sobre o qual resolvi escrever hoje, véspera do Dia Internacional da Mulher. Paradoxalmente, não será sobre elas, mas sobre nós, os homens: estes primitivos seres que não sabem sorrir.

Durante o espetáculo, havia umas 60 pessoas, das quais cerca de 90%, mulheres. Afinal elas conseguem olhar para outra mulher - mais maquiada, mais produzida e mais sarada do que sua plateia - e admirá-la. Homens podem até admirar outros homens, também, desde que sejam jogadores de futebol, cantores famosos ou empresários bem sucedidos. Mas dificilmente admirariam outros homens que sorriem para sua plateia - especialmente se sua "fêmea" estiver nela - enquanto fazem movimentos que não conseguiriam imitar sem parecerem ridículos.

As dançarinas de dança do ventre são encantadoras e simpatissímas. Sorriem o tempo todo. E o que as mulheres, na plateia, fazem? Sorriem de volta, claro! Fazem isso com naturalidade e beleza. E os homens? Bem, é triste dizer, mas eles não fazem nada. Olham para elas como se olhassem para uma parede sem reboco.

Veja bem, não estou dizendo que não apreciem o espetáculo! Acho que apreciam, sim. Só não conseguem retribuir o sorriso e mostrar no rosto a satisfação de estar ali. Já estive lá uma dezena de vezes e, em todas elas, saio com a mesma impressão sobre estes primatas de pouco pelo.

Pensando a respeito, formulei algumas teorias sobre a diferença entre o sorriso deles e delas. Cheguei à conclusão de que o sorriso feminino é social. Elas sorriem com facilidade, espontaneamente, mesmo para quem não conhecem. Se uma mulher me pergunta as horas, ela agradece com um sorriso minha resposta. Uma mulher sempre sorri quando alguém - não importa quem - lhe segure a porta, para que passe. E, na saída da loja, o "Obrigada" à vendedora em geral é acompanhado também por um sorriso. Para a maioria delas, sorrir para estranhos é absolutamente normal. É parte da vida social.

Para os homens, não. Homens sorriem para os próprios filhos enquanto esses fazem alguma traquinagem. Homens sorriem para a mulher, quando querem levá-la para a cama. Ou sorriem quando veem um gol contra o time que odeiam. Homens apenas sorriem sozinhos ou para aquelas pessoas que o conhecem bem. Homens não sorriem para estranhos, porque o sorriso do homem é íntimo e extremamente pessoal. Podem até sorrir quando esperam o final de um piada; uma espécie de licença para gargalhar. Mas é um sorriso que é parte de uma experiência cômica. Sorrir para aproximar pessoas, encurtar distâncias, ganhar a simpatia, é um talento que poucos homens possuem - e que praticamente todas as mulheres esbanjam.

Socialmente, o sorriso do homem é levantar a sobrancelha. Se você, num gesto de gentileza, segura a porta para outro homem, ele levanta a sobrancelha, e agradece. Não sorri.

E na hora da foto? A maioria das mulheres sai bem. O homens, mesmo insistindo no ineficiente "XIIIIIIIS", em geral saem com cara de alface. Porque, se sorrir espontaneamente já lhes é difícil, sorrir "sob demanda" é tão impossível quanto ridículo.

Não sei bem se isto é ensinado ou não. Crianças pequenas, de qualquer sexo, sorriem com facilidade. O tempo, porém, vai endurecendo os homens. Talvez sejamos ensinados a controlar nossas emoções e, por isso, não sorrimos pelo mesmo motivo que não choramos. Resultado: no fim da vida, as vovós em geral são as simpáticas velhinhas; eles, os velhotes rabujentos.

É claro que isso varia de homem para homem. Hoje em dia, acredito que o mundo esteja, felizmente, um pouco mais feminino. Elas passaram a demandar de nós mais demonstrações de sentimentos e, sinceramente, acho que muitos de nós estão escutando. Com isso, estamos aos poucos soltando essas travas que nos tornam tão pouco simpáticos. E isso é bom, sem sombra de dúvida.

E por isso, no Dia da Mulher, acredito que devamos agradecer a elas por não desistirem de nós, mesmo sabendo que somos alunos tão nitidamente limitados. E agradecer também pelos seus sorrisos, geralmente muito mais espontâneos, acolhedores e verdadeiros do que os nossos. Porque, sem esses sorrisos, nossa vida seria tão alegre quanto um inexpressivo par de sobrancelhas levantadas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Subindo a Colina - Reflexões sobre o Tempo, aos 33


Vai ser interessante reler isto daqui a uns anos. Será que eu ainda vou pensar do mesmo modo?

Minha esposa diz ter tido um professor que referia a si próprio como estando, “do lado de lá da colina”, começando a descer a montanha. Envelhecendo, enfim.

A menos que aconteça uma mudança brutal na expectativa de vida nos próximos anos – e que essa mudança me inclua – eu estou, digamos, começando a me aproximar do pico da colina, cerca de 10 anos antes do meio do caminho: estou com 33 anos, já quase 34. Uma idade em que uma parte daqueles sonhos que se tinha na adolescência já se realizou. Outra parte, deixou de ser importante. E uma outra que ainda não se realizou, parece relativamente viável, a menos que uma pessoa desta idade ainda sonhe em se tornar uma pop star, um astro de cinema, uma celebridade no esporte, ou um multi-bilionário apresentando um reality show arrogante. E, claro, há também os novos sonhos, que surgem com o tempo.

O que gosto nos 33 anos? Em segundo lugar, da autonomia. Você pode tomar suas próprias decisões com relativa independência, gastar seu dinheiro como bem entender (ou como suas filhas lhe “peçam” para fazê-lo), desenvolver seus próprios projetos de vida, deslocar-se sem pedir permissão, escrever sem necessariamente ter que se desculpar pelas próprias convicções, ou pela variação delas. Os ossos não doem, a visão funciona, os pelos nas orelhas ainda são administráveis e você não acha mais que precisa transar todos os dias para considerar-se sexualmente ativo.

Mas, em primeiríssimo lugar, o que eu mais gosto é da amizade que se começa a fazer com o Tempo. O bom, velho e confiável amigo Tempo. Pelo menos, foi o que fiz nos últimos anos.

Acredito que a adolescência seja a idade da urgência: a idade em que esperar pelo próximo beijo, pelo próximo aplauso ou pela próxima farra, parece simplesmente insuportável. Mas não foi sempre assim, foi? Acredito que, em tempos anteriores ao século XX, adolescência não existia. Crianças já trabalhavam, aos 14 já estavam casadas e aos 16 já tinham filhos. Filhos, no plural. Mas, com o passar do tempo, isso mudou e os adolescentes surgiram naquela “zona cinzenta” entre a infância e a idade adulta. Para muitos, a principal tarefa passou a ser Demandar. “I want it all! And I want it now”, cantaram a voz de Freddie Mercury e a as cordas da guitarra de Brian May, com as quais é impossível não se identificar.

Na adolescência, a quantidade de sonhos é inversamente proporcional ao tempo que se imagina que vá levar para que se realizem. Pergunte para qualquer garoto de 16 anos, qual carro ele imagina que vá estar dirigindo aos 22. Poucos vão dizer “Uno”. A maioria vai dizer algum carrão, que só vai conseguir comprar depois de vários anos de trabalho e economia. Alguns, mais sem noção, vão provavelmente dizer algum carro que nunca vão chegar a dirigir na vida.

Nos últimos anos, vemos de vez em quando aquelas reportagens que mostram pré-adolescentes de 12-13 anos em baladinhas. “Hoje eu fiquei com 15 meninas!”. Sério mesmo? Caramba, amiguinho, então você é MESMO um carinha muito desinteressante! Porque se fosse realmente interessante, a primeira não teria deixado você escapar!

Como é que se fica com tantas meninas em um espaço de 3 horas? Aliás, você não fica; você passa! O certo seria “Hoje eu passei com 15 meninas!”. Eu não consigo visualizar a cena. O carinha beija uma, sai, vai ao banheiro, no caminho beija outra e, na saída, mais outra? Fazendo isso durante 3 horas, talvez dê para beijar 15. Mas é só. Não dá tempo para mais nada a não ser beijar uma boca sem nome e sem rosto. Não dá tempo, especialmente, para que percebam que o tempero mais marcante da conquista é a expectativa.

Diga a eles, os adolescentes, que terão que passar alguns anos como trainee em uma empresa, e que quando derem entrada no primeiro e apertado apartamento de 60 metros quadrados, vão ter que pegar mais leve nas baladas ou nas viagens. Diga a eles que, não importa quão talentosos ou geniais sejam (ou acreditem ser), não serão diretores de porcaria nenhuma pelos próximos 20 anos (a menos, claro, que trabalhem em agências de publicidade, em que qualquer recém-formado é diretor disso ou vice-presidente daquilo). Diga a eles, os adolescentes, que, não importa quão bem achem que falem um idioma, já estão atrasados para aprenderem o próximo. Diga que que só poderão confiar nos próprios julgamentos sobre relacionamentos quando entenderem a diferença entre paixão e amor. Diga-lhes isso tudo, e a vida lhes parecerá insuportável. Porque ainda não aprenderam a, simples e elegantemente, esperar. Não fizeram ainda amizade com o Tempo. É compreensível. É um amigo difícil.

Mas é justamente ele, o Tempo, que torna as decisões tão amigas dos travesseiros, não é? Problemas difíceis, desafios importantes, grandes decisões, avaliações complicadas, muitas vezes requerem uma ou muitas noites de sono para que sejam resolvidas com a devida consistência, depois que olhou-se para a mesma coisa sob diferentes ângulos e sentiu-se seu gosto com diferentes humores. Tempo e paciência. Os mesmos que são necessários enquanto joga-se xadrez, ou rega-se o risoto com vinho durante seu preparo, aguardando o arroz soltar devagar o seu amido. É por isso que eu sinceramente não gostaria que o dia tivesse 40 horas, como alguns dizem. Gosto dele com 24, e gosto que os dias passem, do jeito que são.

O mundo é adolescente. Há um senso de urgência desmedido, que cria necessidades que, evidentemente, não deveriam existir, e expectativas que não podem esperar.  Fast foods, carros modelo “ano que vem” que são lançados em março deste ano e “Fale inglês em 3 meses” são exemplos clássicos disso.

Acho, inclusive, que esta é uma das razões pelas quais as pessoas não aprendem direito a falar um idioma: porque isto requer paciência. 30 anos atrás era difícil, caro, inacessível e, talvez, um tanto desnecessário. Hoje, qualquer criança de classe média tem acesso a um curso de inglês mais barato do que aulas de natação. Definitivamente mais barato que um tênis de marca. E por que será então que vemos tantos de 20, 25 anos – criados na classe média, cientes da importância do idioma -  que sabem que “the book is on the table”, mas não sabem que “the table is under the book and it’s made of wood”? Por que não tiveram oportunidade? Não. É porque não tiveram paciência para aprender. Porque aprender dá trabalho. E porque trabalho e paciência são feras difíceis de domar.

Estou escrevendo este texto na sala de embarque do aeroporto de Houston. E, enquanto escrevo sobre o tempo, neste momento em que a paciência é tão necessária quanto difícil, lembrei-me de Amyr Klink, o obstinado navegador do Paratii, suas viagens e seus livros magníficos. Recentemente, tive a honra de assistir a uma palestra sua e perguntei-lhe a respeito disso: paciência e motivação. A gente viaja para a Disney em um voo de apenas 10 horas e chega lá cansado da longa viagem. O Sr. Klink (cara, se isso não é nome de explorador, não sei do que é!) passa não-sei-quantos-meses viajando sozinho no barco para chegar à Antártida, e lá ficar, sozinho, no gelo. Ou fica 100 dias atravessando o Atlântico num barco a remo – coisa que nós, mortais, reclamamos de fazer em 8 horas, cochilando sentados em um avião. Acho que paciente é aquele que tem metas que vão além do “asap” (ou AZÁPI, já “abrasileirado”, na boca de muitos que acham que não têm tempo a perder). Amyr Klink, definitiva e admiravelmente, as tem. E é, nitidamente, amigo do tempo.

Quando me aproximei dos 30, fiquei também amigo do Tempo e das decisões maturadas, da espera e da reflexão. Entendi que para que se aprenda a fazer uma coisa direito – seja falar um idioma, aprender a dançar ou achar o tom certo em um texto, muitas vezes basta dar tempo ao tempo. E continuar tentando...

Talvez eu não vá pensar assim quando estiver realmente do lado de lá da montanha, e o tempo que resta seja menor do que o tempo que já passou. Os pensamentos são sempre moldados às nossas próprias conveniências, não é? E é por isso, inclusive, que me parece tão aceitável mudar de opinião com o tempo. Daqui a uns anos, quem sabe, eu revisite esses pensamentos e veja o que o tempo fez com eles e comigo.

Já não estou mais na sala de espera. Já estou no avião, a caminho do Brasil. E olha só que sorte: não tem ninguém ao meu lado! Bom, né? Assim viajo um pouco mais confortável e posso me “esparramar” em dois assentos. Porque, na classe econômica, uma viagem de avião de 10 horas é longa que doi. No futuro, quem sabe o tempo me coloque na primeira classe... ou então me leve à Antártida com o Amyr.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Minha bunda não ganha salário

No último domingo fui àquele shopping center de decoração e design bonitão aqui em São Paulo, o D&D. Lugar bacana, com móveis tão bonitos quanto caros. Um lugar onde, supostamente, deve-se encontrar pessoas civilizadas. Supostamente...

Procurando uma vaga para estacionar, passei por um carro e fiquei absolutamente indignado com a forma como estava parado. Não resisti. Tirei uma foto e fiz uma coisa que nunca tinha feito antes: deixei um bilhete ao seu dono, no vidro do pára-brisas.

"Você viu como você estacionou este carro?! Nosso país nunca vai ser desenvolvido enquanto houver gente do seu tipo. Lamentável".

Na véspera, eu tinha jantado com minha esposa na praça de alimentação do Shopping Market Place, que também é bem arrumadinho.  Nos chamou atenção a quantidade de pessoas que, quando terminaram de comer, deixaram a mesa "do jeito que ficou": com a bandeja, prato e talheres sujos, lata de refrigerante, guardanapo usado. Não se dignaram a levantar e colocar as coisas no lixo, a inatingíveis 2 metros de distância.

Na verdade, mais do que ficar irritado com essas cenas, eu fico é triste. Não só pela falta de educação dessas atitudes, mas por ver quem são as pessoas que as cometem. Como qualquer brasileiro, sei que nosso povo tem escolaridade baixa e que, quando a preocupação está em levantar às 4h da manhã, para chegar no trabalho às 8h e ganhar R$ 500 por mês (agora, R$ 540! Uau!), não se pode esperar regras de etiqueta ou grandes sofisticações de comportamento. Para estes, o que eu realmente gostaria de ver é uma escola decente e oportunidades reais de trabalho para que crescam e possam, aí sim, se preocupar com mais do que meramente sobreviver. Não vou entrar em questões políticas aqui, mas o fato é que nos últimos 17 anos fizemos bons avanços nesta área. Com muito a percorrer ainda, mas com visíveis avanços.

Entretanto, nestes locais que mencionei - shopping centers em regiões nobres da cidade mais rica do país - foi das pessoas da classe A que vi aqueles comportamentos inaceitáveis. Justo delas. Justo daquelas que, em tempos de Real valorizado, vão fazer compras em Miami, ou tomar café brasileiro a 12 Euros em Paris, ou passar uma semaninha em Cancun, bebendo tequilas e planejando se vão passar o próximo feriadão tomando vinho em Santiago ou em Buenos Aires.

Se você já viajou para um país desenvolvido, ou conheceu alguém que viajou, certamente já se pegou pensando em como "lá" as coisas funcionam, como "lá" é civilizado. "Lá, se você colocar o pé na rua, os carros param na hora, pra você atravessar". Quem nunca ouviu isso? "Lá, se está marcado que o show começa às 21h, ele começa às 21h e não às 21h18".

Voltamos admirados e orgulhosos por conhecer tanta civilidade. Eu sempre volto melancólico também, porque gostaria muito que nosso país também fosse assim. E quem melhor do que aqueles que conhecem também esta realidade em primeira pessoa, que também viajaram e se admiraram com esta civilidade, para praticarem isto aqui? Por que será que tão poucos o fazem? Fico me perguntando: por que é que em tantos de nós o botãozinho de Civilidade só é acionado quando atravessa-se a fronteira? Por que é que, aqui, "grudamos" no carro da frente no semáforo, em vez de deixar mais espaço? Por que é que não damos prioridade ao pedestre em uma esquina, mesmo ele já estando com o pé no asfalto? E por que é que, nas raras vezes em que o deixamos passar, ele atravessa correndo, como se estivesse nos atrapalhando? Por que é que paramos em fila dupla, na hora de pegar as crianças na escola? Afinal, é só um minutinho... não vai atrapalhar ninguém, não é?

E os outros aspectos, menos ligados às questões práticas de trânsito, e mais ligadas à questões éticas? "Você não paga meia entrada no cinema?! Todo mundo tem carteirinha de estudante, mané!".

Desculpem-me, mas eu não. Não tenho carteirinha de estudante, porque não sou estudante. Não me lembro quando foi minha última multa por excesso de velocidade. Não quero inventar uma dor imaginária para me aposentar daqui a uns 3 ou 4 anos. Mas confesso que, muitas vezes, não dou prioridade ao pedestre. Às vezes, por falta de hábito; às vezes, porque o carro de trás está tão colado, que vai me bater se eu parar de repente.

Não quero, em absoluto, dar aula de ética a ninguém. Até porque também tenho deslizes éticos dos quais não me orgulho nem um pouco. Mas acho, sinceramente, que aquelas que têm acesso a modelos de civilidade que realmente funcionam, seja fora do país, seja dentro de si mesmas ou em suas famílias, devem assumir o compromisso extra de tentar fazer disso uma constante. Dar exemplo, mesmo. Pouco a pouco, um dia de cada vez.

Eu devolvo troco quando vem a mais. Peço desculpas quando dou um encontrão em alguém. Pergunto "Tudo bem?" para a moça da cabine onde paga-se o estacionamento no shopping center, e espero ouvir a resposta. Olho garçom nos olhos e agradeço quando ele vem retirar os pratos na mesa. Paro na vaga e olho para ver se o carro ficou mesmo bem estacionado. Se não ficou, arrumo. Não faço barulho depois das 22h e brigo com minhas filhas quando elas andam correndo pelo apartamento feito dinossauros - seja a hora que for. Na minha casa, o papel higiênico da empregada é igual ao meu. Porque, afinal, minha bunda não ganha salário.

Recentemente, eu estive em um evento com a elite dos médicos brasileiros em uma determinada especialidade, que não vem ao caso mencionar agora. Havia uns 15 brasileiros e 3 gringos. Fiquei envergonhado com a postura de alguns brasileiros: faziam perguntas para os gringos e, enquanto estes respondiam, a pessoa que havia feito a pergunta se virava para conversar com o colega ao lado. Mas não era um "Ah, que interessante", não. Era conversa, mesmo, com princípio, meio e fim. O gringo ficava com expressão de "Este cara não está nem ouvindo minha resposta". Vergonhoso. Aquele episódio reforçou minha percepção de que, paradoxal, mas não surpreendentemente, a educação de um indivíduo não é necessariamente proporcional ao seu grau de instrução.

Aliás, basta olhar: os folgados, em geral, são os ricos. Quem fala alto, ri alto, para em fila dupla e acha que o universo gravita em torno de si, normalmente tem renda mensal de 5 dígitos, e um ego do tamanho do sol.

Sinceramente, tenho orgulho da nossa gente, da nossa alegria, criatividade e capacidade de acolher. Isso faz de nós um povo muito especial e é, sem dúvida, a grande razão pela qual o Brasil é tão apaixonante. Mas, quem sabe até 2014 ou 2016, quando acontecerem aqui a Copa e as Olimpíadas, tenhamos os gringos saindo daqui dizendo que somos, sim, alegres, criativos, acolhedores, mas também sérios e civilizados. Se isso acontecer, esses eventos tão singulares terão cumprido seu papel em nosso país. E se não acontecer, que pelo menos tenhamos começado até lá.

Talvez o dono do tal carro mal estacionado, tenha cometido um mero deslize, uma simples distração. Não posso julgar uma pessoa que nem conheço por uma simples atitude isoladamente - embora meu bilhete tenha tido este tom. Só espero que ele tenha se envergonhado. A própria vergonha, aquela que você sente quando ninguém vê, a vergonha de si próprio, é um dos mais persuasivos e transformadores sentimentos que alguém pode ter. E, quem sabe na próxima, ele não apenas arrume o carro, como também deixe um bilhete para alguém - talvez um distraído, ou talvez mais um que precise se lembrar que educação e bons modos não devem requerer esforço; devem ser tão presentes em nós, que sejam, na verdade, traços permanentes de personalidade.

É assim, e só assim, que poderemos causar a transformação ética da qual nosso país tão desesperadamente precisa, e que alguns de nós, gosto de acreditar, tão intensamente mereçam.






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