segunda-feira, 7 de março de 2011

Homens não sabem sorrir


Algumas semanas atrás, eu e minhas três meninas (esposa inclusa na categoria), fomos ao Khan el Khalili - aquela casa de chá egípcio aqui em São Paulo, em que há espetáculos de dança do ventre. Lá, observando as pessoas, comecei a amadurecer um pensamento, sobre o qual resolvi escrever hoje, véspera do Dia Internacional da Mulher. Paradoxalmente, não será sobre elas, mas sobre nós, os homens: estes primitivos seres que não sabem sorrir.

Durante o espetáculo, havia umas 60 pessoas, das quais cerca de 90%, mulheres. Afinal elas conseguem olhar para outra mulher - mais maquiada, mais produzida e mais sarada do que sua plateia - e admirá-la. Homens podem até admirar outros homens, também, desde que sejam jogadores de futebol, cantores famosos ou empresários bem sucedidos. Mas dificilmente admirariam outros homens que sorriem para sua plateia - especialmente se sua "fêmea" estiver nela - enquanto fazem movimentos que não conseguiriam imitar sem parecerem ridículos.

As dançarinas de dança do ventre são encantadoras e simpatissímas. Sorriem o tempo todo. E o que as mulheres, na plateia, fazem? Sorriem de volta, claro! Fazem isso com naturalidade e beleza. E os homens? Bem, é triste dizer, mas eles não fazem nada. Olham para elas como se olhassem para uma parede sem reboco.

Veja bem, não estou dizendo que não apreciem o espetáculo! Acho que apreciam, sim. Só não conseguem retribuir o sorriso e mostrar no rosto a satisfação de estar ali. Já estive lá uma dezena de vezes e, em todas elas, saio com a mesma impressão sobre estes primatas de pouco pelo.

Pensando a respeito, formulei algumas teorias sobre a diferença entre o sorriso deles e delas. Cheguei à conclusão de que o sorriso feminino é social. Elas sorriem com facilidade, espontaneamente, mesmo para quem não conhecem. Se uma mulher me pergunta as horas, ela agradece com um sorriso minha resposta. Uma mulher sempre sorri quando alguém - não importa quem - lhe segure a porta, para que passe. E, na saída da loja, o "Obrigada" à vendedora em geral é acompanhado também por um sorriso. Para a maioria delas, sorrir para estranhos é absolutamente normal. É parte da vida social.

Para os homens, não. Homens sorriem para os próprios filhos enquanto esses fazem alguma traquinagem. Homens sorriem para a mulher, quando querem levá-la para a cama. Ou sorriem quando veem um gol contra o time que odeiam. Homens apenas sorriem sozinhos ou para aquelas pessoas que o conhecem bem. Homens não sorriem para estranhos, porque o sorriso do homem é íntimo e extremamente pessoal. Podem até sorrir quando esperam o final de um piada; uma espécie de licença para gargalhar. Mas é um sorriso que é parte de uma experiência cômica. Sorrir para aproximar pessoas, encurtar distâncias, ganhar a simpatia, é um talento que poucos homens possuem - e que praticamente todas as mulheres esbanjam.

Socialmente, o sorriso do homem é levantar a sobrancelha. Se você, num gesto de gentileza, segura a porta para outro homem, ele levanta a sobrancelha, e agradece. Não sorri.

E na hora da foto? A maioria das mulheres sai bem. O homens, mesmo insistindo no ineficiente "XIIIIIIIS", em geral saem com cara de alface. Porque, se sorrir espontaneamente já lhes é difícil, sorrir "sob demanda" é tão impossível quanto ridículo.

Não sei bem se isto é ensinado ou não. Crianças pequenas, de qualquer sexo, sorriem com facilidade. O tempo, porém, vai endurecendo os homens. Talvez sejamos ensinados a controlar nossas emoções e, por isso, não sorrimos pelo mesmo motivo que não choramos. Resultado: no fim da vida, as vovós em geral são as simpáticas velhinhas; eles, os velhotes rabujentos.

É claro que isso varia de homem para homem. Hoje em dia, acredito que o mundo esteja, felizmente, um pouco mais feminino. Elas passaram a demandar de nós mais demonstrações de sentimentos e, sinceramente, acho que muitos de nós estão escutando. Com isso, estamos aos poucos soltando essas travas que nos tornam tão pouco simpáticos. E isso é bom, sem sombra de dúvida.

E por isso, no Dia da Mulher, acredito que devamos agradecer a elas por não desistirem de nós, mesmo sabendo que somos alunos tão nitidamente limitados. E agradecer também pelos seus sorrisos, geralmente muito mais espontâneos, acolhedores e verdadeiros do que os nossos. Porque, sem esses sorrisos, nossa vida seria tão alegre quanto um inexpressivo par de sobrancelhas levantadas.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Subindo a Colina - Reflexões sobre o Tempo, aos 33


Vai ser interessante reler isto daqui a uns anos. Será que eu ainda vou pensar do mesmo modo?

Minha esposa diz ter tido um professor que referia a si próprio como estando, “do lado de lá da colina”, começando a descer a montanha. Envelhecendo, enfim.

A menos que aconteça uma mudança brutal na expectativa de vida nos próximos anos – e que essa mudança me inclua – eu estou, digamos, começando a me aproximar do pico da colina, cerca de 10 anos antes do meio do caminho: estou com 33 anos, já quase 34. Uma idade em que uma parte daqueles sonhos que se tinha na adolescência já se realizou. Outra parte, deixou de ser importante. E uma outra que ainda não se realizou, parece relativamente viável, a menos que uma pessoa desta idade ainda sonhe em se tornar uma pop star, um astro de cinema, uma celebridade no esporte, ou um multi-bilionário apresentando um reality show arrogante. E, claro, há também os novos sonhos, que surgem com o tempo.

O que gosto nos 33 anos? Em segundo lugar, da autonomia. Você pode tomar suas próprias decisões com relativa independência, gastar seu dinheiro como bem entender (ou como suas filhas lhe “peçam” para fazê-lo), desenvolver seus próprios projetos de vida, deslocar-se sem pedir permissão, escrever sem necessariamente ter que se desculpar pelas próprias convicções, ou pela variação delas. Os ossos não doem, a visão funciona, os pelos nas orelhas ainda são administráveis e você não acha mais que precisa transar todos os dias para considerar-se sexualmente ativo.

Mas, em primeiríssimo lugar, o que eu mais gosto é da amizade que se começa a fazer com o Tempo. O bom, velho e confiável amigo Tempo. Pelo menos, foi o que fiz nos últimos anos.

Acredito que a adolescência seja a idade da urgência: a idade em que esperar pelo próximo beijo, pelo próximo aplauso ou pela próxima farra, parece simplesmente insuportável. Mas não foi sempre assim, foi? Acredito que, em tempos anteriores ao século XX, adolescência não existia. Crianças já trabalhavam, aos 14 já estavam casadas e aos 16 já tinham filhos. Filhos, no plural. Mas, com o passar do tempo, isso mudou e os adolescentes surgiram naquela “zona cinzenta” entre a infância e a idade adulta. Para muitos, a principal tarefa passou a ser Demandar. “I want it all! And I want it now”, cantaram a voz de Freddie Mercury e a as cordas da guitarra de Brian May, com as quais é impossível não se identificar.

Na adolescência, a quantidade de sonhos é inversamente proporcional ao tempo que se imagina que vá levar para que se realizem. Pergunte para qualquer garoto de 16 anos, qual carro ele imagina que vá estar dirigindo aos 22. Poucos vão dizer “Uno”. A maioria vai dizer algum carrão, que só vai conseguir comprar depois de vários anos de trabalho e economia. Alguns, mais sem noção, vão provavelmente dizer algum carro que nunca vão chegar a dirigir na vida.

Nos últimos anos, vemos de vez em quando aquelas reportagens que mostram pré-adolescentes de 12-13 anos em baladinhas. “Hoje eu fiquei com 15 meninas!”. Sério mesmo? Caramba, amiguinho, então você é MESMO um carinha muito desinteressante! Porque se fosse realmente interessante, a primeira não teria deixado você escapar!

Como é que se fica com tantas meninas em um espaço de 3 horas? Aliás, você não fica; você passa! O certo seria “Hoje eu passei com 15 meninas!”. Eu não consigo visualizar a cena. O carinha beija uma, sai, vai ao banheiro, no caminho beija outra e, na saída, mais outra? Fazendo isso durante 3 horas, talvez dê para beijar 15. Mas é só. Não dá tempo para mais nada a não ser beijar uma boca sem nome e sem rosto. Não dá tempo, especialmente, para que percebam que o tempero mais marcante da conquista é a expectativa.

Diga a eles, os adolescentes, que terão que passar alguns anos como trainee em uma empresa, e que quando derem entrada no primeiro e apertado apartamento de 60 metros quadrados, vão ter que pegar mais leve nas baladas ou nas viagens. Diga a eles que, não importa quão talentosos ou geniais sejam (ou acreditem ser), não serão diretores de porcaria nenhuma pelos próximos 20 anos (a menos, claro, que trabalhem em agências de publicidade, em que qualquer recém-formado é diretor disso ou vice-presidente daquilo). Diga a eles, os adolescentes, que, não importa quão bem achem que falem um idioma, já estão atrasados para aprenderem o próximo. Diga que que só poderão confiar nos próprios julgamentos sobre relacionamentos quando entenderem a diferença entre paixão e amor. Diga-lhes isso tudo, e a vida lhes parecerá insuportável. Porque ainda não aprenderam a, simples e elegantemente, esperar. Não fizeram ainda amizade com o Tempo. É compreensível. É um amigo difícil.

Mas é justamente ele, o Tempo, que torna as decisões tão amigas dos travesseiros, não é? Problemas difíceis, desafios importantes, grandes decisões, avaliações complicadas, muitas vezes requerem uma ou muitas noites de sono para que sejam resolvidas com a devida consistência, depois que olhou-se para a mesma coisa sob diferentes ângulos e sentiu-se seu gosto com diferentes humores. Tempo e paciência. Os mesmos que são necessários enquanto joga-se xadrez, ou rega-se o risoto com vinho durante seu preparo, aguardando o arroz soltar devagar o seu amido. É por isso que eu sinceramente não gostaria que o dia tivesse 40 horas, como alguns dizem. Gosto dele com 24, e gosto que os dias passem, do jeito que são.

O mundo é adolescente. Há um senso de urgência desmedido, que cria necessidades que, evidentemente, não deveriam existir, e expectativas que não podem esperar.  Fast foods, carros modelo “ano que vem” que são lançados em março deste ano e “Fale inglês em 3 meses” são exemplos clássicos disso.

Acho, inclusive, que esta é uma das razões pelas quais as pessoas não aprendem direito a falar um idioma: porque isto requer paciência. 30 anos atrás era difícil, caro, inacessível e, talvez, um tanto desnecessário. Hoje, qualquer criança de classe média tem acesso a um curso de inglês mais barato do que aulas de natação. Definitivamente mais barato que um tênis de marca. E por que será então que vemos tantos de 20, 25 anos – criados na classe média, cientes da importância do idioma -  que sabem que “the book is on the table”, mas não sabem que “the table is under the book and it’s made of wood”? Por que não tiveram oportunidade? Não. É porque não tiveram paciência para aprender. Porque aprender dá trabalho. E porque trabalho e paciência são feras difíceis de domar.

Estou escrevendo este texto na sala de embarque do aeroporto de Houston. E, enquanto escrevo sobre o tempo, neste momento em que a paciência é tão necessária quanto difícil, lembrei-me de Amyr Klink, o obstinado navegador do Paratii, suas viagens e seus livros magníficos. Recentemente, tive a honra de assistir a uma palestra sua e perguntei-lhe a respeito disso: paciência e motivação. A gente viaja para a Disney em um voo de apenas 10 horas e chega lá cansado da longa viagem. O Sr. Klink (cara, se isso não é nome de explorador, não sei do que é!) passa não-sei-quantos-meses viajando sozinho no barco para chegar à Antártida, e lá ficar, sozinho, no gelo. Ou fica 100 dias atravessando o Atlântico num barco a remo – coisa que nós, mortais, reclamamos de fazer em 8 horas, cochilando sentados em um avião. Acho que paciente é aquele que tem metas que vão além do “asap” (ou AZÁPI, já “abrasileirado”, na boca de muitos que acham que não têm tempo a perder). Amyr Klink, definitiva e admiravelmente, as tem. E é, nitidamente, amigo do tempo.

Quando me aproximei dos 30, fiquei também amigo do Tempo e das decisões maturadas, da espera e da reflexão. Entendi que para que se aprenda a fazer uma coisa direito – seja falar um idioma, aprender a dançar ou achar o tom certo em um texto, muitas vezes basta dar tempo ao tempo. E continuar tentando...

Talvez eu não vá pensar assim quando estiver realmente do lado de lá da montanha, e o tempo que resta seja menor do que o tempo que já passou. Os pensamentos são sempre moldados às nossas próprias conveniências, não é? E é por isso, inclusive, que me parece tão aceitável mudar de opinião com o tempo. Daqui a uns anos, quem sabe, eu revisite esses pensamentos e veja o que o tempo fez com eles e comigo.

Já não estou mais na sala de espera. Já estou no avião, a caminho do Brasil. E olha só que sorte: não tem ninguém ao meu lado! Bom, né? Assim viajo um pouco mais confortável e posso me “esparramar” em dois assentos. Porque, na classe econômica, uma viagem de avião de 10 horas é longa que doi. No futuro, quem sabe o tempo me coloque na primeira classe... ou então me leve à Antártida com o Amyr.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Minha bunda não ganha salário

No último domingo fui àquele shopping center de decoração e design bonitão aqui em São Paulo, o D&D. Lugar bacana, com móveis tão bonitos quanto caros. Um lugar onde, supostamente, deve-se encontrar pessoas civilizadas. Supostamente...

Procurando uma vaga para estacionar, passei por um carro e fiquei absolutamente indignado com a forma como estava parado. Não resisti. Tirei uma foto e fiz uma coisa que nunca tinha feito antes: deixei um bilhete ao seu dono, no vidro do pára-brisas.

"Você viu como você estacionou este carro?! Nosso país nunca vai ser desenvolvido enquanto houver gente do seu tipo. Lamentável".

Na véspera, eu tinha jantado com minha esposa na praça de alimentação do Shopping Market Place, que também é bem arrumadinho.  Nos chamou atenção a quantidade de pessoas que, quando terminaram de comer, deixaram a mesa "do jeito que ficou": com a bandeja, prato e talheres sujos, lata de refrigerante, guardanapo usado. Não se dignaram a levantar e colocar as coisas no lixo, a inatingíveis 2 metros de distância.

Na verdade, mais do que ficar irritado com essas cenas, eu fico é triste. Não só pela falta de educação dessas atitudes, mas por ver quem são as pessoas que as cometem. Como qualquer brasileiro, sei que nosso povo tem escolaridade baixa e que, quando a preocupação está em levantar às 4h da manhã, para chegar no trabalho às 8h e ganhar R$ 500 por mês (agora, R$ 540! Uau!), não se pode esperar regras de etiqueta ou grandes sofisticações de comportamento. Para estes, o que eu realmente gostaria de ver é uma escola decente e oportunidades reais de trabalho para que crescam e possam, aí sim, se preocupar com mais do que meramente sobreviver. Não vou entrar em questões políticas aqui, mas o fato é que nos últimos 17 anos fizemos bons avanços nesta área. Com muito a percorrer ainda, mas com visíveis avanços.

Entretanto, nestes locais que mencionei - shopping centers em regiões nobres da cidade mais rica do país - foi das pessoas da classe A que vi aqueles comportamentos inaceitáveis. Justo delas. Justo daquelas que, em tempos de Real valorizado, vão fazer compras em Miami, ou tomar café brasileiro a 12 Euros em Paris, ou passar uma semaninha em Cancun, bebendo tequilas e planejando se vão passar o próximo feriadão tomando vinho em Santiago ou em Buenos Aires.

Se você já viajou para um país desenvolvido, ou conheceu alguém que viajou, certamente já se pegou pensando em como "lá" as coisas funcionam, como "lá" é civilizado. "Lá, se você colocar o pé na rua, os carros param na hora, pra você atravessar". Quem nunca ouviu isso? "Lá, se está marcado que o show começa às 21h, ele começa às 21h e não às 21h18".

Voltamos admirados e orgulhosos por conhecer tanta civilidade. Eu sempre volto melancólico também, porque gostaria muito que nosso país também fosse assim. E quem melhor do que aqueles que conhecem também esta realidade em primeira pessoa, que também viajaram e se admiraram com esta civilidade, para praticarem isto aqui? Por que será que tão poucos o fazem? Fico me perguntando: por que é que em tantos de nós o botãozinho de Civilidade só é acionado quando atravessa-se a fronteira? Por que é que, aqui, "grudamos" no carro da frente no semáforo, em vez de deixar mais espaço? Por que é que não damos prioridade ao pedestre em uma esquina, mesmo ele já estando com o pé no asfalto? E por que é que, nas raras vezes em que o deixamos passar, ele atravessa correndo, como se estivesse nos atrapalhando? Por que é que paramos em fila dupla, na hora de pegar as crianças na escola? Afinal, é só um minutinho... não vai atrapalhar ninguém, não é?

E os outros aspectos, menos ligados às questões práticas de trânsito, e mais ligadas à questões éticas? "Você não paga meia entrada no cinema?! Todo mundo tem carteirinha de estudante, mané!".

Desculpem-me, mas eu não. Não tenho carteirinha de estudante, porque não sou estudante. Não me lembro quando foi minha última multa por excesso de velocidade. Não quero inventar uma dor imaginária para me aposentar daqui a uns 3 ou 4 anos. Mas confesso que, muitas vezes, não dou prioridade ao pedestre. Às vezes, por falta de hábito; às vezes, porque o carro de trás está tão colado, que vai me bater se eu parar de repente.

Não quero, em absoluto, dar aula de ética a ninguém. Até porque também tenho deslizes éticos dos quais não me orgulho nem um pouco. Mas acho, sinceramente, que aquelas que têm acesso a modelos de civilidade que realmente funcionam, seja fora do país, seja dentro de si mesmas ou em suas famílias, devem assumir o compromisso extra de tentar fazer disso uma constante. Dar exemplo, mesmo. Pouco a pouco, um dia de cada vez.

Eu devolvo troco quando vem a mais. Peço desculpas quando dou um encontrão em alguém. Pergunto "Tudo bem?" para a moça da cabine onde paga-se o estacionamento no shopping center, e espero ouvir a resposta. Olho garçom nos olhos e agradeço quando ele vem retirar os pratos na mesa. Paro na vaga e olho para ver se o carro ficou mesmo bem estacionado. Se não ficou, arrumo. Não faço barulho depois das 22h e brigo com minhas filhas quando elas andam correndo pelo apartamento feito dinossauros - seja a hora que for. Na minha casa, o papel higiênico da empregada é igual ao meu. Porque, afinal, minha bunda não ganha salário.

Recentemente, eu estive em um evento com a elite dos médicos brasileiros em uma determinada especialidade, que não vem ao caso mencionar agora. Havia uns 15 brasileiros e 3 gringos. Fiquei envergonhado com a postura de alguns brasileiros: faziam perguntas para os gringos e, enquanto estes respondiam, a pessoa que havia feito a pergunta se virava para conversar com o colega ao lado. Mas não era um "Ah, que interessante", não. Era conversa, mesmo, com princípio, meio e fim. O gringo ficava com expressão de "Este cara não está nem ouvindo minha resposta". Vergonhoso. Aquele episódio reforçou minha percepção de que, paradoxal, mas não surpreendentemente, a educação de um indivíduo não é necessariamente proporcional ao seu grau de instrução.

Aliás, basta olhar: os folgados, em geral, são os ricos. Quem fala alto, ri alto, para em fila dupla e acha que o universo gravita em torno de si, normalmente tem renda mensal de 5 dígitos, e um ego do tamanho do sol.

Sinceramente, tenho orgulho da nossa gente, da nossa alegria, criatividade e capacidade de acolher. Isso faz de nós um povo muito especial e é, sem dúvida, a grande razão pela qual o Brasil é tão apaixonante. Mas, quem sabe até 2014 ou 2016, quando acontecerem aqui a Copa e as Olimpíadas, tenhamos os gringos saindo daqui dizendo que somos, sim, alegres, criativos, acolhedores, mas também sérios e civilizados. Se isso acontecer, esses eventos tão singulares terão cumprido seu papel em nosso país. E se não acontecer, que pelo menos tenhamos começado até lá.

Talvez o dono do tal carro mal estacionado, tenha cometido um mero deslize, uma simples distração. Não posso julgar uma pessoa que nem conheço por uma simples atitude isoladamente - embora meu bilhete tenha tido este tom. Só espero que ele tenha se envergonhado. A própria vergonha, aquela que você sente quando ninguém vê, a vergonha de si próprio, é um dos mais persuasivos e transformadores sentimentos que alguém pode ter. E, quem sabe na próxima, ele não apenas arrume o carro, como também deixe um bilhete para alguém - talvez um distraído, ou talvez mais um que precise se lembrar que educação e bons modos não devem requerer esforço; devem ser tão presentes em nós, que sejam, na verdade, traços permanentes de personalidade.

É assim, e só assim, que poderemos causar a transformação ética da qual nosso país tão desesperadamente precisa, e que alguns de nós, gosto de acreditar, tão intensamente mereçam.



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Narciso sem Perfume

Esta semana está acontecendo em São Paulo a tal da Campus Party. Confesso que nunca estive lá, apesar de ser uma pessoa que trabalha com tecnologia há tantos tempo - 18 anos, para ser exato. Não tenho absolutamente nada contra quem vai a este evento. De modo algum! Aliás, deve ser um cenário bem curioso, em que cabeças jovens e cheias de ideias borbulhantes, discutem uma porção de coisas fervilhantes, para um mundo cada vez mais efervescente. Sério: deve ser um evento bem curioso, independentemente dos adjetivos imbecis que eu ou a mídia o atribuam.

Mas o que me motivou a escrever, na verdade, não foi a Campus Party em si, nem as ideias que perambulam por lá. Foi, na verdade, a fala que aparece em todas as coberturas da mídia sobre o evento: "Aqui todos estão conectados 24 horas por dia" - o que não é, em absoluto, distante da verdade.

Eu sou de uma geração que cresceu sem a internet. Quando a internet começou a surgir para nós, mortais, em 1995, eu já me preparava para minha tão sonhada carteira de motorista, que me permitiria dirigir aquele Corcel branco 1975, que algum desgraçado veio a me roubar, 3 dias depois que comecei a dirigir. Mas isso não vem ao caso, evidentemente...

O fato é que que cresci sem a internet, escrevendo a lápis em um caderno de papel, e não com os dedos, digitando em uma tela de vidro com teclas virtuais. Na década de 80, não havia celular, nem TV a cabo, nem internet. Ouvir um filme em inglês só era possível na aula de inglês, porque nem tecla SAP existia. Aliás, as teclas ainda estavam começando a aparecer, porque a maioria das TVs ainda não tinha controle remoto, e funcionava com botões (cujo "CLÉCT" ainda sou capaz de ouvir - porque botão você não clica; você aperta). A inflação cavalgava a pornográficos 700% ao ano e eu, saindo da infância, não entendia o porquê das fitas de Atari (embora, tecnicamente, não fossem exatamente fitas) custarem tão caro. Ouvir música requeria vitrola, agulha e caixas de som, e não downloads, iPods e fones de ouvido. Tive catapora, caxumba, sarampo e sei-lá-mais-o-quê, porque não havia vacinas para essas doenças que nenhuma criança de classe média hoje em dia pega mais.

Minha filha mais nova, com 7 anos, uma vez me perguntou:

- Pai, quando você era criança, existia internet?
- Não existia, filha.
- E energia elétrica?


Quase pude ouvir seus neurônios formulando a pergunta seguinte, que, para o bem da minha auto-estima, nunca chegou a sair: "E você ficou com muito, muito medo quando encontrou pela primeira vez um T-Rex?"

O fato é que ela, a irmã e a grande maioria dos "campuseiros" que aparecem nas previsíveis coberturas jornalistas desta semana, estão crescendo com todos esses recursos tecnológicos à mão. Negar que esses avanços todos são extraordinários, seria uma grande bobagem. Lembro-me que, anos atrás, apareciam  notícias sobre patéticas passeatas contra a globalização e a internet. Isso é tão idiota como alguém dizer que é contra a penicilina ou os carros flex. Avanços são avanços e são, sem dúvida, bem vindos. A conveniência de um celular, a capilaridade da internet e a portabilidade de um smartphone são recursos valiosos e que, entre outras coisas, permitem de fato que estejamos todos conectados 24x7x365.

Até alguns anos atrás, usava-se a internet como ferramenta - como quem consulta um dicionário, usa um martelo ou uma máquina de lavar. O computador tinha, no início, uma função bem definida, normalmente ligada a trabalho, estudo. Se não se estava trabalhando ou estudando, não se estava conectado. Se o marceneiro não dorme com o serrote, por que deveríamos dormir com o computador?

Só que, para a geração mais nova, estar conectado, usar um computador, não é usar uma ferramenta, como era para mim alguns anos atrás. Para eles, estar conectado é tão fisiológico como respirar. O que te mantém conectado, o seu smartphone, anda grudado ao seu corpo, no bolso da frente da sua calça. Simples assim. Estar conectado é simplesmente mais um fato da vida.

E é inegável que todos nós, que já nos rendemos aos Facebooks, Orkuts, Twitters ou meras leituras de blogs durante um fim de semana nublado (por favor, não me diga que você está lendo isto em um dia de sol), já estamos no mesmo barco. Porque é possível, é fácil e é barato.

Mas estas não são as razões verdadeiras. Não, não. A razão principal, é simples e tola: estamos conectados 24 horas por dia porque precisamos desesperadamente acreditar que somos importantes.

É insuportável a ideia de que o mundo pode viver um segundo que seja, sem a nossa presença. Todos nós conhecemos - ou, pior, talvez sejamos - uma daquelas pessoas que no meio do banho, saem ensaboadas para atender o celular. Ou uma daquelas que não conseguem estar em um cinema e não atender a uma ligação durante meras 2 horas "- Ah, mas eu tenho que atender! É urgente!".

Urgente? Quantas coisas na vida são verdadeiramente urgentes? Que razão tão urgente leva você a responder um e-mail de trabalho no sábado, às 23h48, quando você poderia perfeitamente fazê-lo na segunda-feira seguinte? E que motivo tão incrivelmente premente te faz levar o smartphone para o banheiro no meio da madrugada, para ver se alguém finalmente colocou algum comentário sobre aquela sua frase genial no Facebook, de 2 dias atrás?

Nada disso é urgente, convenhamos. Urgente, sim, é nossa necessidade de sermos importantes. Estarmos conectados 24 horas nos dá uma deliciosa sensação de sermos indispensáveis ao mundo. Somos, enfim, o mito modernizado de Narciso. Adoramos o reflexo sutil do nosso próprio rosto no monitor e esperamos, ansiosamente, que alguém do lado de lá também o veja e nos acene com um sorriso. Estarmos conectados o tempo todo nos mostra como somos solitários, mesmo em um mundo em que todos se mostram tão ávidos por algum contato - seja a hora que for.

Pergunto-me que consequências podem decorrer disso tudo no longo prazo. Que tipos de relações seremos capazes - ou não - de estabelecer? Que tipo de comunicação - ou ausência dela - teremos com nossos amigos? E conseguiremos reconhecer na rua seus rostos, que só vemos nas fotinhos? Seremos capazes de viajar e aproveitar a beleza da nova paisagem lá fora, ou vamos ficar trancados no quarto do hotel, esperando o mundo dizer o quanto sente a nossa ausência - e nos lamentando por não vê-lo fazer isso?

Anos atrás, quando eu escrevia a lápis em uma folha branca papel, havia muitas pessoas que saberiam reconhecer meu texto pela minha caligrafia. Eu gosto de acreditar que a caligrafia revela alguma coisa especial sobre nós; algo que as palavras, por mais habilidosas e cuidadosamente lapidadas que sejam, não conseguem revelar. A caligrafia é quase como um perfume.

Pergunto-me quantas saberiam reconhecer minha grafia hoje. E espero, sinceramente, que nunca nos esqueçamos da beleza de uma frase a lápis em uma frágil folha de papel.

Definitivamente, não há nada de errado com a Campus Party, nem com estar conectado 24 horas por dia. Assim como não há nada de errado em respirar. Mas quem só respira, na verdade, vegeta.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Rebolation Ma non Troppo

Semana passada eu estava hospedado em um hotel no interior de São Paulo com minha família. A  comida era especialmente boa: variada, de excelente qualidade, perfeita para fazer qualquer um engordar uns 2 quilinhos, queixando-se, na maior cara de pau, que "aqui só se come!"

Em um dos almoços, passei por uma mesa e vi uma criança comendo só spaghetti. Sem molho, sem nada. Spaghetti e vento. Vento sem sal, imagino. Até pensei que poderia ser uma daquelas crianças com algum problema de saúde, com alguma restrição dietética séria, mas bastou olhar para o prato dos pais, para ver que não era. Eles comiam quase a mesma coisa.

Minha esposa, vindo para a mesa, me disse que tinha presenciado, naquele mesmo momento, uma outra cena, com uma outra família: a criança estava interessada em ver o que havia para comer entre as saladas, massas, carnes, e sei-lá-o-quê com seus molhos deliciosos, mas a mãe ia abrindo os rechauds (é assim que se escreve "rechauds"?) e dizia, sem nem mencionar o nome do prato, "Ah, disso aqui você não vai gostar, filha". Provar? Nem pensar, né? Talvez ela acredite que "cabeça fechada" é um problema hereditário. Trata-se, certamente, de uma daquelas pessoas que, por princípio, não gostam de nada que não conheçam.

- Pão?
- Adoro!
- Batata frita?
- Lógico!
- Coca-Cola?
- No almoço e na janta!
- Queijo brie?
- Bleargh!
- Fofa, você já comeu queijo brie?
- Er, não. Não vou gostar...
- Amiguinha, todo mundo que prova gosta de... Olha, não vou nem falar nada. Tem um pedacinho aqui, ó. Prova!
- Não.
- Prooooova!
- Não quero!
- Prova, cacete!
- Tá bom, eu provo. - pausa de 3 segundos. Olhos levemente cerrados e cantos da boca tortos para baixo - Mas dá pra tirar essa casca branca?
- Casca?!

Certa vez, juro que é verdade, eu estava em uma viagem a trabalho para os EUA, com um grupo enorme de brasileiros. Umas 400 pessoas. Na hora do almoço, a surpresa: arroz, feijão e bife. Tudo bem que os americanos não têm a culinária mais interessante do mundo, mas, sério mesmo que precisamos atravessar um hemisfério para comer arroz, feijão e bife? Curiosamente, um dos temas daquela reunião era inovação, diversidade, fazer diferente. Ma non troppo, né? Todos reclamaram: "os americanos não sabem fazer feijão!". Verdade. Que tal se tentássemos comer o que eles sabem fazer?

Não sei onde foi que li*, e adorei, que hoje em dia vemos famílias inteiras que, aos domingos, acumulando a fome do café da manhã que não tomaram por levantarem da cama às 11h30, vão felizes e saltitantes ao shopping center, pra comer, adivinha, comida caseira.

Confesso que eu era assim, quando criança. Poderia tranquilamente ser membro titular da Academia dos Chatos de Galochas Mirins. Não gostava de nada. Não concordava com nada. Um certo dia, já mais crescidinho do que seria de se esperar, comecei a me dar conta de que eu não era o cara mais incrível, mais inteligente e mais sapiente da história do planeta. E aí, sim, começou uma fase de grandes e saborosas descobertas. A fase em que se percebe que a riqueza está por trás da diversidade - a única chance que temos de achar respostas que, evidentemente, não estão em nós. Foi a percepção desta diversidade que me tornou tão pequeno, e o mundo, tão vasto e interessante.

Aprendi a gostar de sushi e de steak tartar - essencialmente um monte de carne crua com uma porção de condimentos impensáveis para os não-iniciados. E também filmes em que se chora, sem sofrer. E livros sobre grandes aventuras ou simplesmente sobre velhinhos sentados em uma sala lembrando do passado. Aprendi que estar na Times Square me torna mais cidadão do mundo, tanto quanto visitar o Ver-O-Peso, na capital paraense, me torna mais brasileiro. Aprendi que nem todos precisam concordar comigo o tempo todo - por mais errados que estejam sempre que insistam em discordar de um oráculo do saber...

Aceitar a diversidade é hipocrisia, porque o aceite tem uma certa carga de julgamento. "Eu não concordo, mas aceito". Aceitar é quase tolerar. O que realmente transforma é se permitir, verdadeiramente, apreciar a diversidade e a beleza daquilo que não reflete minha própria imagem e não dá necessariamente as respostas que já eu conheço às perguntas que insisto em fazer. Tão maior será esta diversidade se, em vez de tentar achar sempre as mesmas respostas, eu me aprimore em fazer novas perguntas.

Certa vez, na escola das minhas filhas - que é a mesma em que estudei - me perguntaram, em uma reunião de pais, o que eu esperava que minhas filhas aprendessem. Eu disse que esperava que se tornassem pessoas plurais, porque isso faria delas pessoas curiosas. Essa curiosidade, imagino, é que as vai levar por caminhos realmente interessantes, que gerem frutos. Se elas se derem conta disso - aprenderem a aprender - sei que serão curiosas, e aprendizes de alguma coisa, pelo resto da vida.

Há uma armadilha, porém: deslumbrar-se com o próprio repertório. Ver de tudo, comer de tudo, conhecer muitos lugares e, deslumbrado com as próprias referências, tentadoramente suficientes, tornar-se blasé e arrogante. Todo este repertório, privilégio de poucos, passa a ser um espelho que reflete uma imagem distorcida e aumentada de si próprio, em vez de uma janela cada vez mais aberta por onde se contempla a grandeza do que ainda está lá fora, esperando para ser descoberto aos poucos.

Naquele mesmo hotel em que presenciei a aventureira família que come macarrão com vento, me peguei cantarolando e batucando com os dedos, em volta da piscina, as músicas sertanejas e os axés que saiam das caixas de som. E vi que ali, em férias, sob o sol, soaram diferentes do que em outros momentos. Fiquei rindo das minhas próprias ideias, preguiçosas e frouxas como a calça de um velho com suspensórios. Fiquei me perguntando qual seria a temperatura do núcleo de um meteoro da paixão. Fiquei imaginando uma multidão suada, gritando que quer mais é beijar na boca, ou uma mulher enchendo-a para gritar que o fulano é um safado, cachorro, sem-vergonha. E confesso que me diverti.

Até mesmo durante o Rebolation... Tá, não precisamos exagerar. Durante o Rebolation pensei: "Isso é uma porcaria do cacete!". Porque apreciar a diversidade, é uma coisa. Gostar de qualquer lixo, é outra bem diferente...

Diversidade, sim. Troppo. Ma non tutti.

* Em tempo, a história da família que sai de casa aos domingos para comer comida caseira, eu ouvi na divertida e muito perspicaz palestra "Não Nascemos Prontos", do sempre ótimo Mário Sérgio Cortella.
Veja em http://www.youtube.com/watch?v=89BMhivvRFE

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Os pássaros não têm iPod

Em dezembro de 2010 assisti, de novo, a "O Nome da Rosa", baseado na obra de Umberto Eco. Fiquei com vontade de ler o livro e achei que o faria durante minhas férias - que acabam amanhã. Neste período, li quatro grandes livros e me apaixonei por todos eles. Mas, Umberto Eco, não li. Felizmente não sou daquelas pessoas que leem exclusivamente durante as férias, besuntadas de protetor solar em volta da piscina, de preferência livros bem grossos e vistosos, acreditando que todos estão admirando minha erudição sazonal. Eu, não. Adoro ler nas férias, mas também em qualquer outra época, e sei que poderei ler o livro tranquila e anonimamente ao longo do ano, quando desejar.

Mesmo assim, não ter lido Umberto Eco me levou a pensar nas várias coisas que gostaríamos de fazer - nas férias ou não - e que, por qualquer motivo, acabamos não fazendo, sem nem nos darmos conta.

Sempre fui, desde muito cedo, um cara que trabalha muito. Quem me conhece de perto sabe que muito é MUITO. Entre as diversas e complexas razões por trás disso, está um fato muito simples: horror ao mediano. E não falo, em absoluto, sobre dinheiro. Falo sobre desafios e conquistas. Não gosto do que é meramente razoável, aceitável, decente. Gosto do intenso, do sublime e inesquecível. Se precisou de um monte de esforço para ser conquistado, tanto melhor e mais gostoso seu sabor.

Mas nestas férias, me peguei pensando que este sabor e esta satisfação podem vir de coisas absolutamente triviais - tão triviais que nos esquecemos delas, talvez por não requerem qualquer esforço.

Passei um tempão com as minhas filhas, minha esposa e também sozinho, fazendo algo que eu preciso fazer mais: nada. É incrível como nesses momentos em que não se faz nada, a cabeça borbulha de ideias: uma simples frase, uma crônica, uma disposição diferente para fazer outras coisas, quando não se esteja fazendo, bem, nada.

Na viagem que fiz na última semana de férias, resolvi - como faço todos os anos - que iria fazer exercícios este ano. Choveu à beça e tive que fazer a primeira caminhada na esteira da sala de ginástica do hotel, com meu MP3 no ouvido.

No dia seguinte choveu de novo. Mas, no fim da tarde, a chuva já havia passado e resolvi caminhar, olha só, fora da esteira! Como no dia anterior, coloquei meus fones de ouvido e saí andando às margens do lago. Passados 5 minutos, olhei para o MP3: "Saco! A bateria vai acabar!" e, nisto, me dei conta do absurdo da situação: eu estava em um lugar lindo, ao ar livre, rodeado de pássaros, sons, cheiros, mas hermético, cego e surdo como alguém que caminha obstinadamente em direção a lugar nenhum, numa moderníssima esteira de academia. Desliguei o iPod e percebi o que havia perdido naqueles 5 minutos. E, a partir daí, uma variedade de sensações se apresentaram a quem não está habituado a elas: novas cores, o cheiro do mato, o ruído despretensioso dos passos sobre as pedrinhas na terra molhada e os sorrisos espontâneos ao ver pássaros coloridos muito, muito próximos. Aquela caminhada tornara-se, em segundos, uma experiência sinestésica tão simples e tão agradável que um cidadão urbano é incompetente para entendê-la de cara.

Caminhei sozinho durante mais de uma hora, ouvindo apenas os pássaros, meus próprios passos e meus próprios pensamentos. Teve, é verdade, um avião que caprichosamente resolveu passar por ali para me lembrar de quão barulhentos somos. Mas foi só. Durante o resto do tempo daquela caminhada, sozinho, mas profundamente preenchido, tive mil ideias. Ideias despretensiosas, simples e honestas como o suspiro de um bebê quando adormece. E me dei conta de quão produtivo era aquele momento.

Provavelmente Domenico de Masi tem razão quando fala sobre o ócio criativo. Quando nos afastamos da rotina, e simplesmente permitimos à nossa cabeça vazia (auxiliada ou não pelos pés) tomar caminhos diferentes dos habituais, é fascinante a quantidade de novas ideias que aparecem. E podem ser tantas, que não caibam em nós e precisem ser registradas de algum modo - talvez em um blog cujo nome tenha sido criado pela esposa do autor, que, não surpreendentemente, não foi capaz de achar um título às suas próprias ideias.

Sempre que desejo algo a alguém (numa mensagem de aniversário ou de fim de ano, por exemplo), falo em Trabalho, Desafios e Conquistas. Gosto de fazer isso e continuarei fazendo, porque acredito na nobreza destes valores. Mas, de hoje em diante, vou também desejar Descanso. Porque, no fim das contas, por mais paradoxal que soe, este tal de descanso é muito produtivo. E, caramba, faz um bem danado à alma.

No final da caminhada, me peguei pensando "Quantos quilômetros será que andei?". Imediatamente, ri da estupidez daquela aritmética, que delata tão escancaradamente meus vícios urbanos. Porque afinal, naquela caminhada, fui bem mais longe do que a distância que minhas pernas percorreram. E isso não foi grandioso, nem intenso, nem incrivelmente desafiador. Foi apenas deliciosamente simples e sublime.

Este ano vou ler Umberto Eco. E talvez também Domenico de Masi.





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