domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pessoas Nubladas




"Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha"
Millôr Fernandes

Nunca entendi muito bem aquelas pessoas cujo humor varia com o tempo e temperatura. Desculpe-me se você é uma delas. Eu sei que são relativamente comuns. Mas eu simplesmente não consigo entendê-las.

Quem nunca ouviu alguém reclamar "desta chuva que me deixa tão triste"? Ou "até que enfim terminou o inverno. Eu não aguentava mais aquela tristeza"? Ou nunca viu os âncoras de telejornal quase reclamando com a aquelas moças bonitinhas que apresentam a previsão do tempo: "Fulana, afinal, quando é que o sol vai voltar?".

É, realmente não entendo. É claro que é normal sentir-se mais confortável em um certo ambiente. Eu, por exemplo, prefiro o friozinho. Me sinto mais disposto, mais alerta, mais vivo. O calor me deixa letárgico, lento e retardado - o que não é muito favorável, considerando-se que vivo em um país tropical...

Mas não me refiro a conforto físico. É óbvio que ninguém gosta de passar frio demais, nem calor demais. Refiro-me a humor. Tem gente que está perfeitamente bem hoje, mas, amanhã, com o dia nublado e garoa caindo de nuvens grávidas, põe-se melancólica, como se a chuva disparasse um gatilho invisível da tristeza.

Aposto que muitas das pessoas que têm esta característica acreditam também em destino. E acreditam em sorte e em azar. E sejam supersticiosas. Vejam só, não estou dizendo que isto é ruim! Não! Acho apenas curioso tentar entender como elas pensam.

Acho que acreditam em destino, sorte e azar, porque veem neles uma explicação razoável para aquilo que acontece em suas vidas. Existe um certo conforto na ideia de destino. Acreditar nele nos exime de responsabilidades pelo que nos aconteça. Afinal, é tudo obra do destino: uma coisa externa, incontrolável, que simplesmente faz as coisas serem como são. Mais ou menos como o tempo e temperatura: as nuvens simplesmente vêm e nublam o céu e a vida. É incontrolável - e não há nada que se possa fazer.

Fico me perguntando como fazem as pessoas que vivem em lugares realmente "hostis" à vida. Outro dia - graças ao meu fascínio por lugares frios e inóspitos - pesquisei sobre uma cidade russa, localizada na Sibéria, chamada Oymyakon - o lugar habitado mais frio da Terra. Durante a noite do sábado de Carnaval de 2013 - enquanto escrevo este texto e tento achar um título para ele - a temperatura lá é de -54 graus Celsius. Já chegou a -70 graus. Dá para imaginar? Quase 90 graus menos do que a média da temperatura anual que temos em uma cidade como São Paulo! São quase 80 graus menos do que o dia mais frio que tivemos no ano passado. Lá, coisas triviais tornam-se inviáveis. Não dá para usar caneta fora de casa: a tinta congela. Aparelhos eletrônicos funcionam de modo errático. O leite é vendido em blocos sólidos, não em estado líquido. E, ainda assim, a menos que a temperatura fique abaixo de -52 graus, as crianças vão à escola normalmente. Se a temperatura se mantiver assim até segunda-feira, as crianças de Oymyakon se parecerão com as brasileiras, durante o feriadão de Carnaval: não irão à escola.

Há o outro extremo: em Al’Aziziyah, na Líbia, a temperatura já chegou a 57,8 graus Celsius, em 1922. Sabe-se lá a quanto chega hoje em dia. No Vale da Morte, nos Estados Unidos, a temperatura durante o dia passa de 50 graus, e cai para abaixo de zero durante a noite. Dá para querer mergulhar no sorvete de dia, e no chocolate quente à noite.

Como será o humor das pessoas nestes locais? Não sei. É claro que esses não são lugares suportáveis por qualquer pessoa - tanto que as populações em locais como estes são muito reduzidas. De qualquer modo, não imagino que o humor delas se deixe afetar pelo tempo e temperatura. Porque elas não podem se dar este luxo. Porque, se bobearem, elas morrem. Não há desculpas. Não dá para ficar no meio da estrada porque a gasolina acabou. Não dá para esquecer de fechar a janela da cozinha. Não dá para deixar para ir fazer compras amanhã, quando o tempo melhorar. Porque ele simplesmente não melhora. Porque, melhorar, para eles, é manter-se ainda muito acima (ou abaixo) do suportável para nós, que vivemos em um país "abençoado por Deus e bonito por natureza".

Certa vez, durante o verão, um Canadense foi à minha empresa e, no intervalo de uma reunião, foi pegar um solzinho do lado de fora. Naquele dia, eu estava incomodado com o calor e a última coisa que me passaria pela cabeça seria ficar fritando ao sol com roupa social. Perguntei a ele:

- Você não quer vir aqui para dentro, onde há ar condicionado?
- Não. Estamos no inverno no hemisfério norte. Volto hoje à noite para o Canadá. Então, acho que vou aproveitar um pouco mais o sol do Brasil.

Eu, como esforçado e dissimulado anfitrião, fiz companhia a ele por alguns minutos. Mas confesso que, folgado, senti alívio quando voltei para a temperatura agradável do ar condicionado, achando graça do meu desconforto com aquele calor que, para o canadense, era exatamente o que ele precisava.

O fato é que viver aqui só aumenta nossa obrigação em não procurar falsas desculpas, falsas explicações, sempre externas a nós mesmos, para problemas que, na verdade, estão do lado de dentro. Quem fica triste porque está chovendo, muito provavelmente já estava com o rosto molhado antes da chuva chegar. Quem fica triste porque está friozinho, talvez precise aquecer o coração antes de aquecer os pés.

E o mesmo vale para aqueles que não gostam do Carnaval, ou não gostam do Natal, ou não gostam dos almoços em família, nem de shopping centers, nem de rock, nem de comédias românticas, nem de televisão, nem de sei-lá-o-quê-mais. Deve haver algo nestas coisas que, bem lá no fundo, talvez lembrem essas pessoas daquilo que elas não são, mas gostariam muito de ser. Ou são, mas preferiam que não o fossem.

Previsão do tempo para amanhã: tempo alegre, para pessoas ensolaradas. Afinal, é Carnaval e feriadão. Só aqueles com problemas de verdade têm desculpas para se sentirem nublados. O resto é mera tempestade em copo d'água.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Baixando" a guarda - Reflexões para 2013

No texto de Ano Novo de 2012, desejei aos meus amigos leitores "Grandes Decisões". Desejei que tivéssemos a atitude de decidir o que precisava ser decidido e fazer o que tinha para ser feito. Sugeri que olhássemos para frente, e não para trás. Talvez tenha sugerido isto tudo devido a um inconsciente "senso de urgência", temendo por um mundo que estaria por acabar - muito embora não acreditasse que de fato aconteceria. Como, de fato, não aconteceu. Estamos aqui, vivinhos e respirando, pensando em como vamos continuar, já que, bem, não acabou.

Este ano, meu desejo não invalida o do ano passado. Mas, confesso, é um desejo mais trivial, mais mundano. Em 2013, desejo que a gente "baixe a guarda". "Baixe", assim mesmo, escrito do jeito errado. Desejo que  a gente filtre menos, experimente mais, proteja-se menos daquilo que não conhece e que é automaticamente questionável e desinteressante. Desejo que busquemos menos a perfeição.

Isso não quer dizer que devamos aceitar qualquer coisa! Não, não! De modo algum! Não proponho que nos tornemos daquelas pessoas para as quais tudo está sempre bom, aceitável ou tolerável. Não proponho que aceitemos o medíocre, fácil ou basal. Nah! Não proponho uma resignação coletiva, que nos faça aceitar automaticamente o que é simplesmente inaceitável. Não é isso! Buscar a perfeição é louvável. O problema está em não aceitar aquilo que ainda não é perfeito - também conhecido como "praticamente tudo nesta vida".

O que proponho, na verdade, é de fato olharmos de frente para o outro. De frente mesmo, com olhos bem abertos e atentos, com a luz acesa. Não um olhar de lado, desconfiado ou de relance, apenas. Porque, ao olhar para muitas coisas, muitas situações e muitas pessoas, é impossível que pelo menos uma parte delas não nos pareça minimamente interessante. Ou não esteja à nossa suposta altura.

Confesso que tenho uma tendência extrema a ser centralizador, a trabalhar sozinho, a querer tudo exatamente do meu jeito, porque qualquer outro é ruim. Sou campeão em julgar os outros. Já me disseram várias vezes que eu me acho o Dono da Verdade. Eu ponho o dedo em riste e falo sem hesitar: "Isto é uma falácia! Não sou Dono na Verdade! Eu simplesmente tenho certeza de que estou certo quando estou certo!" Humpf!

Mas é verdade, sim. Ao longo da vida, sempre achei que a Verdade fosse um cachorrinho Chihuahua com olhos esbugalhados, que me seguia numa coleira onde quer que eu fosse, latindo corajosamente para quem ousasse desafiar seu ridículo latido pseudo-feroz.

Uma certa dose de timidez, aliada a uma imensa dose de perfeccionismo, me transformaram em um chato profissional e um centralizador permanente. Ainda que isto tenha dado certo em alguns aspectos - não posso reclamar da vida, em absoluto -, em outros, tornaram-me uma pessoa um tanto inacessível e um bocado inflexível.

Nos últimos anos, felizmente, a esposa que é meu exato oposto no quesito "sociabilidade", um par de filhas que me fazem de gato-e-sapato, aulas de dança de salão que me forçam a lidar com o improviso e com minhas inabilidades, e uma atividade profissional que me leva a conviver com outras pessoas para poder levar projetos adiante em equipe, me fizeram melhorar, sim. Me fizeram querer estar com outras pessoas, com situações inesperadas ou com diferenças fundamentais daquilo que reflito no espelho.

E, caramba, que bem isto me fez! Não, não me tornei uma pessoa melhor. Continuo o mesmo ermitão de sempre, mas as pessoas que me tiraram da caverna. Não fui eu, foi a vida que melhorou. Quando passei a reconhecer nas pessoas os inumeráveis talentos que me faltam, quando passei a depender mais delas, e menos de mim mesmo, tornei-me um ermitão mais feliz.

Hoje em dia, vemos muitos educadores falando que a geração atual só pensa em si, só quer saber de ter seus próprios caprichos atendidos, imediatamente. Em uma época em que cada um tem o seu próprio computador, a sua própria TV e os seus fones de ouvido que o isolam do resto do mundo, passamos a ter uma sensação cada vez maior de independência, de auto-suficiência, de "que se dane o resto do mundo", porque, afinal, "eu sou mais eu".

O que eu desejo, para 2013, é que sejamos "sou mais nós". Sim, as multidões muitas vezes são burras e medíocres. Sim, às vezes as pessoas gostam daquilo que odiamos. E, não, não precisamos necessariamente gostar delas, ainda que as aceitemos. Mas, por outro lado, quantas outras podem gostar do mesmo que nós? E quantas outras podem nos ensinar a gostar de coisas que, de outro modo, não teríamos nos permitido sequer conhecer?

Desejo, meu caro amigo leitor, que em 2013 os chihuahuas Donos da Verdade se calem. Desejo que seja um ano em que continuemos e nos afastar do ruim, mas que possamos nos abrir para aceitar que o "apenas bom" muitas vezes já é muito mais do que merecemos. Desejo que busquemos a felicidade no que nos dá prazer e nos causa alegria, mesmo que exija sacrifício, trabalho e disciplina. Desejo que se busque o melhor, mesmo que não seja o perfeito. Porque, afinal, o perfeito habita somente o amanhã.

Feliz 2013!

domingo, 2 de dezembro de 2012

Não era o Cirque du Soleil


Sabe, eu tive a felicidade de ver alguns espetáculos realmente extraordinários ao longo dos anos. Espetáculos realmente memoráveis, daqueles que, no meio, você para e pensa "Caramba, que privilégio é poder assistir isto!".

Hoje vi um espetáculo com um propósito muito diferente dessas super-produções. Nele, estava a minha filha menor, atualmente com 9 anos. Era um espetáculo de circo, com alunos de 8 a 14 anos, na escola onde estuda - e onde eu também estudei.

Durante uma hora e meia, vimos um enorme grupo de crianças - umas 100, talvez - fazendo as coisas mais básicas que se pode fazer em um circo: malabarismo, equilibrismo, acrobacias, cambalhotas, contorcionismo. Básicas, sim, mas incrivelmente encantadoras. Não havia nenhum super-homem, dando 5 saltos mortais em uma corda bamba, nem malabarismos com fogo, nem trapézios sem rede a dezenas de metros de altura. Não. Eram crianças mostrando, em um espetáculo cuidadosamente pensado para que elas pudessem brilhar, aquilo que aprenderam a fazer no curso de circo.

Recentemente participei de uma das aulas, que foi aberta aos pais. Pobre de mim - e dos outros pais e mães que participaram. As tais coisas "básicas", para nós, meros adultos, eram muitas vezes impossíveis. Andar numa perna de pau? Só se fosse para dar um passo e cair. Subir no trapézio? Só apoiando-me na perna da professora, que tem quase metade da minha idade e do meu peso. Dar cambalhota? Só afrouxando o cinto da calça...

No espetáculo de hoje elas não eram o Cirque du Soleil, mas me fizeram sorrir ininterruptamente por uma hora e meia. Me encantou ver as crianças fazendo aquelas coisas inimagináveis para nós, adultos. Mesmo as mais simples. Algumas, real e assustadoramente difíceis. Elas me fizeram torcer para que cada malabarismo desse certo, para que cada salto fosse mais alto, para que cada aplauso se fizesse ouvir. Torci e vibrei com todas elas. Me diverti como... bem... como criança.

O Cirque du Soleil é encantador, sem sombra de dúvida. Ele nos mostra até onde o talento, a disciplina, a excelência, podem chegar. Nele, aplaudimos o que há de melhor, o que não se vê em qualquer outro lugar. Nele, admiramos quem chegou no limite.

Mas, hoje, aquelas crianças mostraram a "outra ponta" desse fio: o negócio delas não era "ser o melhor", não era fazer o impossível, nem mostrar um talento excepcional em cada uma das apresentações. O negócio delas era mostrar que o possível, que é extraído também com dedicação, com esforço, com auto-confiança, persistência e coragem, é também incrivelmente desafiador e deliciosamente divertido. Vi, sinceramente, que todas delas - mesmo as mais nervosas - se divertiram e pareciam genuinamente orgulhosas do que ali apresentavam. Mal sabem elas que talvez estivessem nos ensinando mais ainda do elas que próprias tinham aprendido.

Que privilégio dessas crianças passar por essas experiências! Que privilégio para os pais assistir a isto de camarote! Que auto-confiança terão elas no futuro, sabendo do que são capazes e sabendo que "se eu tentar de novo, vou conseguir"! Que legal ver minha filha fazendo algo que eu, no auge da minha vida adulta, não sou capaz de fazer. Se é mesmo verdade que os filhos são sempre melhores do que os pais, hoje vi isto com todas as cores (e eram várias, imagine) e tons.

Em um mundo tão guiado pela competitividade, em que os segundos lugares são apenas tão importantes quanto os últimos, em que o novo é imediatamente descartado pelo novíssimo, em que o legal é esquecível porque só vale o que é extraordinário, adorei ver as crianças se divertindo ao desafiarem os seus próprios limites, e não lutando para ultrapassar limites que alguém lhes impôs, porque ficou-se definido que abaixo daquilo seria inaceitável.

Todos nós já ouvimos alguém dizer (ou talvez tenhamos dito, nós mesmos): "Caramba, eu não sou bom em nada! Não sou bom aluno, não sei cantar, não sei tocar um instrumento, não falo línguas, não danço bem, não sou bom em esportes, ninguém quer me namorar." Mas aí o tempo passa, e a vida e as experiências que ela promove inevitavelmente nos levam a percorrer certos caminhos que nos permitem descobrir talentos que nem sabíamos que tínhamos. Sei lá... Você pode ser bom no cubo mágico. Ou você pode saber fazer mágica. Ou pode saber contar piadas. Ou sabe tudo sobre cinema. Você se torna bom em algumas coisas e descobre que há pessoas que o valorizam por isto, mesmo que não pareça muito útil à primeira vista, mesmo que não façamos do talento nossa profissão. Talvez aí esteja um dos segredos para ser feliz: extrair prazer daquilo que os talentos proporcionam, independente de sua "utilidade" imediata. E olha que simples! Para que se possa descobrí-los, basta experimentar.

Minha filha, e todas aquelas crianças, estavam fazendo hoje exatamente isso: experimentando, permitindo-se descobrir aquilo de que gostam mais, aquilo no que têm mais facilidade ou mais dificuldade. Quais são, enfim, seus talentos; aquilo no que são boas, ou não. E, se não são, vão descobrir em que coisas querem investir, para que possam melhorar. Aquelas crianças estão, não tenho dúvidas, se preparando para serem adultos que se conheçam bem, mas que sejam humildes o suficiente para se perguntarem "o que posso aprender hoje?".

Que brincadeira deliciosamente séria esta, a do circo. Não, não era o Cirque du Soleil. Nele, vemos o fim do caminho, o topo da montanha, o sucesso de quem "chegou lá". Lindo, sem dúvida. Mas, hoje, vi o início da jornada, a base da montanha, o rostinho de pequenas pessoas com uma infinidade de caminhos a percorrer e uma imensidão de talentos por descobrir - no circo ou fora dele. Uma visão tão deslumbrante, sem dúvida, quanto a melhor das atrações do melhor dos espetáculos que já vi, e que, não surpreendentemente, me fez pensar a mesma frase: "Caramba, que privilégio é poder assistir isto!".

sábado, 28 de julho de 2012

Absolutamente Sensacio... O que era mesmo?


Sabe uma profissão que eu não gostaria de ter? Engenheiro de empresas de aparelhos eletrônicos. Não, não tenho nada contra elas, em absoluto! Aliás, como profissional de tecnologia (em uma empresa de softwares), sou usuário de muitos equipamentos que elas desenvolvem.

Mas me assusta aquilo que essas empresas "personificam": a obsolescência  imediata - um retrato fiel de quem nos tornamos nos últimos 20 anos. Não estou falando de "obsolência programada", não. Isto é coisa do passado. Atualmente, é imediata, mesmo. Essas empresas lançam produtos já sabendo que são ultrapassados. Em poucos meses, tiram de linha o que acabaram de lançar, para dar espaço a uma nova geração mais sofisticada, mais brilhante, mais rápida, mais incrível e, paradoxalmente, mais descartável do que nunca - porque a próxima já está na fila, pronta para ser lançada. Não vou entrar na questão econômica envolvida nisto. Quero, na verdade, pensar nas pessoas e o que isto mostra a respeito delas. De nós, na verdade.

Permita-me pintar uma caricatura: o João. Ou John. Ou Juan. Ou Johann. Ou Jean. Ele está passando a noite na fila para comprar, no dia seguinte, aquele novo celular que vai ser lançado, daquela marca que todos admiram. Mas ele sabe que não está lá porque seja consumista, impulsivo ou influenciável. Não, não! Ele está lá porque é especial, criativo, inovador e precisa de um aparelho à altura da sua importância, do seu raciocínio sofisticado, do seu repertório refinado. Ele é bom demais para ter um aparelho qualquer. Ele precisa daquele aparelho. E, daqui a 6 meses, quando sair outro, ele vai jogar aquele fora e adquirir, novamente, um novinho em folha. Afinal, o que ele vai comprar amanhã de manhã (quando a loja abrir, e ele sair exibindo-o como se fosse um troféu, ou uma ode à sua personalidade inovadora), já vai estar velho em 6 meses, não vai?

Sejamos honestos: não, não vai. Assim como a TV LCD que você comprou há 2 anos não está velha e não precisa já ser trocada pela nova LED 3D. Assim como tantos e tantos outros exemplos, aplicáveis a qualquer fabricante e a muitas famílias de classe média em tempos de "nunca antes na história desse país".

Certo, mas o que isto quer, de fato, dizer? Porque tantos agem assim? Não sou psicólogo e não sei o termo exato para isto. Mas eu acho que esta tal "obsolência imediata" é derivada de um traço que se tornou comum à personalidade de muitos atualmente. É aquilo que chamo de "necessidade permanente de excitação máxima". Explico: à medida em que o repertório aumenta, a tendência é nos tornamos mais exigentes. Isto é assim para tudo na vida, certo? Quem tem carro, não gosta de andar de ônibus. Quem viu o Cirque du Soleil, não se impressiona com qualquer malabarista jogando três bolinhas de tênis para o alto. Quem já viu aquele super show daquela super banda, com luzes, telões e sei-lá-o-quê-mais, pode ter dificuldade de apreciar um mero "voz, violão e banquinho". Quem já viu o "Fantasma da Ópera" pode achar enfadonho aquele monólogo com aquele ator desconhecido naquele pequeno teatro de arena. Pois é. Ficamos mais exigentes quanto mais cresce nosso repertório. Hoje, muitas pessoas, com acesso a viagens, informação, cultura, dinheiro, tornaram-se provavelmente mais exigentes com suas experiências do que seus pais foram.

Este repertório cheio de experiências "incríveis" (sem entrar no mérito se de fato o são) cria nas pessoas uma certa "expectativa por ser encantado sempre". O que vem não pode ser inferior ao que foi. Se a viagem que você fizer hoje for igual à das últimas férias, será apenas razoável. Se o show que você vai ver amanhã for parecido com o que viu alguns meses atrás, será apenas legal. Se o livro daquele autor que você gosta não for sensacional, pode ser sinal de que ele está decadente.

Temos a necessidade de ser, a todo tempo, a cada nova experiência, envolvidos por algo inteiramente novo, surpreendente e avassalador. Criamos aversão ao que é apenas legal, bacana, digno, e esperamos que tudo seja sempre extraordinário, sensacional  e estonteante.  Mesmo que seja um mero aparelho de telefone, que agora - ora, vejam só! - tem câmera dos 2 lados! Enfim, precisamos estar permanentemente em clima de paixão, envolvidos por algo que nos tire do chão e nos faça sentir especiais.

Mas há um problema nas paixões: elas ardem muito intensamente. E fogo demais não aquece e acolhe; simplesmente queima e destroi.

A problema não está nas paixões; está em achar que elas precisam ser permanentes ou que a nova paixão necessariamente substitui as anteriores. Permanência e paixão são palavras opostas. Paixões são, por definição, efêmeras.

Fecha-se o círculo, portanto: as pessoas têm necessidade de paixões, mas elas são necessariamente efêmeras. Então, apaixonam-se o tempo todo por coisas novas e descartam as "antigas", mesmo que não o sejam. A "obsolência imediata", portanto, não é forçada pelas empresas que nos empurram os aparelhos "indispensavelmente novos". É, na verdade, apenas reflexo de quem nos tornamos. É apenas um sintoma. Assim como são os casamentos cada vez mais curtos, os troca-troca de empregos cada vez mais frequentes e os blocos cada vez mais curtos nos programas de TV. Da última vez que soube, o padrão era 7 minutos.

Na verdade, levamos isto a níveis estratosféricos. Não tenho certeza, mas acho que foi o filósofo e escritor Mário Sérgio Cortella que observou que, de posse do controle remoto e das TVs por assinatura com 100 canais, somos capazes de zapear dando a cada um dos canais não mais de 2 segundos para nos conquistar. Depois de passar por todos e não parar em nada, enchemos a boca para dizer: "Caramba, não tem nada de bom passando nessa TV!". Quer ver outro fenômeno? Faça a experiência: ligue uma hora dessas na MTV e assista a um videoclipe qualquer ou veja qualquer comercial de TV, em qualquer canal. Note que na maioria deles, os takes não duram mais de 1 ou 2 segundos. Se passarem disto, tornam-se lentos demais para o seu público-alvo. Observe! 2 Segundos apenas. Mais do que isso, ninguém aguenta.

Mentira. Eu aguento. Você também - caso contrário não estaria lendo um texto deste tamanho, na internet. O que eu acho, realmente, é que o caminho - e talvez amadurecer seja o único possível - seja perceber que há muitas paixões ou emoções que vêm daquilo que é absolutamente singelo, trivial, antigo ou comum. Podemos, sim, nos apaixonar por aquilo que simplesmente é, sem necessariamente ter algo a provar ou um compromisso por impressionar.

Às vezes, você quer, sim, ir no Cirque du Soleil. E quer ver o último filme em tela IMAX 3D com som surround 7.1. Mas, quem já ouviu "Comptine d'un Autre Été", de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", sabe como uma música tão simples pode ser absolutamente encantadora. Quem já acariciou os cabelos de um filho ao adormecer, depois de um dia de brincadeiras, sabe quão sublime este momento é. Quem esteve em frente a uma paisagem completamente longe de qualquer civilização, sabe que a lembrança de alguns poucos minutos pode durar a vida toda. Às vezes, um simples banho numa cachoeira fria pode ser tão revigorante quanto a melhor das massagem naquele spa sofisticadíssimo. O monólogo do ator desconhecido no teatro de arena pode, sim, ser excepcional, mesmo que simples. E mesmo quem já sentiu o aroma do mais encantador dos perfumes, pode sorrir ao sentir o cheiro de naftalina, que faz lembrar a casa da avó ou aquela casa de praia que frequentou na infância.

É, o problema não está nas paixões, nem nos aparelhos, nem nas recompensas. Sou amplamente a favor de recompensas. O problema está em achar que estas recompensas - e as paixões que as buscam - precisam ser necessariamente sublimes, grandiosas, novas ou exclusivas. Não precisam.

Enquanto o João John Juan Johann Jean não entender isto, vai continuar procurando - provavelmente sem encontrar - paixões em telas pequenas e pretas, onde armazena "sua vida" em contatos, arquivos e fotos instantâneas de lugares e pessoas - talvez mais de 50% delas de si próprio: "Eu e a praia". "Eu e minha cerveja". "Eu meus músculos após a malhação". E vai continuar passando a noite em filas para comprar novos apetrechos que mostram que ele é, na verdade, exatamente aquilo que esforça-se tanto em negar ser.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Para se achar ou se perder


Mais de cinco meses se passaram, desde meu último post neste blog. E eu que imaginei que conseguiria mantê-lo com conteúdos pelo menos mensais. Ingenuidade a minha... Mas a verdade é que a razão pela qual eu não escrevi, não foi falta de tempo. Não só.

Quem faz um blog, escreve cartas abertas, publica, é, na verdade, meio convencido. Acredita piamente que tem algo a dizer ao mundo que é absolutamente indispensável, que precisa ser dito, que é tão grande e tão interessante que não cabe dentro de si e que merece ser revelado. Pretensioso, eu sei. E, sim, me senti deste modo cada vez que publiquei aqui.

Mas, este ano, não. Abstive-me de escrever, porque acreditei durante vários meses que meus (poucos, mas fieis) leitores mereciam algo mais do que eu poderia oferecer. Não sei exatamente o porquê, mas foi assim que me senti.

Na verdade, acho que sei: porque não estou em condições de julgar nada, nem ninguém. Ao escrever algo, inevitavelmente estou julgando: uma pessoa, uma situação, um esteriótipo ou qualquer outra coisa externa a mim, que me gera uma opinião incômoda feito um fio de cabelo na boca ou um grão de areia nos olhos, que precisa sair a qualquer custo.

Hoje, não. Não estou em posição de achar explicações que justifiquem isto ou aquilo. Posso, sim, observar, tentar entender. Mas a julgar, não me sinto autorizado, meus amigos. E eu não queria escrever enquanto houvesse qualquer tipo de julgamento em minhas palavras.

Curiosamente, em janeiro deste ano, tive a honra de fazer uma viagem que me mostrou exatamente isto: que os motivos das pessoas, de modo geral, não são passíveis de julgamento. As ações, sim. Mas não os motivos. Estive na Patagônia.

Não sei bem dizer o porquê, mas desde minha adolescência eu era fascinado por conhecer "o fim do mundo". Na verdade, tudo que está "no limite" me fascina: histórias sobre escaladas no Everest, a vida no deserto, peixes abissais, a vida dos esquimós, as expedições à Antártida. Ainda na puberdade, quando ouvi falar em Ushuaia - La Tierra del Fuego - me peguei fantasiando sobre este lugar distante, inóspito e, para mim, completamente desconhecido. Sabia que, se um dia tivesse a oportunidade, visitaria. Que sorte a minha!

Tren del Fin del Mundo - Ushuaia
É claro que minha visão de pessoas aglomeradas em volta de uma fogueira, lutando por um pouco de calor para sobreviver, não combina com a vida da belíssima e charmosa Ushuaia de hoje. Mas foi especialmente gostosa a sensação de estar na última cidade do mundo: no limite do continente, sabendo que não havia nenhuma outra cidade que estivesse mais ao sul do ponto onde me encontrava com minha família. Dali pra baixo, só um vilarejo (em território Chileno) e a Antártida, que ainda sonho em conhecer um dia.

Mas, mais fascinante do que Ushuaia, é El Calafate: a cidade dos Glaciares (calma eu já vou dizer o que isso tudo tem a ver com "não julgar"). Glaciares são imensas formações de gelo, que permanecem desde a última glaciação, há muitos milhares de anos, e que descem as montanhas formando imensas paredes de gelo. Não, não é avalanche, nem é neve. É gelo. Uma montanha de gelo em um lento mas contínuo movimento: e como se estivéssemos na Antártida, imagino. Não dá pra descrever sem ser piegas nem pequeno. Então, não vou nem tentar fazê-lo.

Glaciar Perito Moreno - El Calafate
Na língua do glaciar. Achou as pessoas nesta foto?

O fato é que, ao andar perto dos glaciares, e ver a região incrivelmente inóspita onde estão, me peguei pensando - julgando, na verdade - nos motivos que levaram os primeiros habitantes até ali, quando não havia luz elétrica, roupas térmicas, aquecedores de qualquer tipo. Julguei-os durante muitos dias, tentando achar explicações, sem sucesso.

O que fez uma família vinda da Inglaterra, com duas crianças pequenas, se instalar à beira de uma imensa lagoa, aos pés de um Glaciar, para criar ovelhas, a 2 dias de barco de qualquer civilização? Por que submeter-se a tanta privação? Do que será que fugiam, que precisassem de tamanho isolamento?

E ampliei meus julgamentos para outras pessoas: por que diabos os índios de Ushuaia, que ali viveram durante milênios, não migraram para o norte, atrás de um pouco mais de calor? Porque chegaram tão ao sul, se ao norte encontravam condições supostamente mais favoráveis? Por que se mantiveram por milênios em precárias tendas, pelados, brigando incessantemente contra o frio cortante e perene? E por que os nossos pobres brasileiros ficam passando fome no sertão em vez de tentarem se mudar para um lugar que tenha pelo menos alguma água? E por que os esquimós, no extremo oposto do continente, não vêm um pouco mais para o sul, onde é mais quente? E por que um engenheiro formado na Poli larga tudo para abrir uma lanchonete à beira do mar em uma pequena praia no litoral fluminense? E por que as pessoas que vivem em locais onde há terremotos simplesmente não se mudam de lá? E por que um rapazinho de Governador Valadares, nas Minas Gerais, sonha tanto em ser lavador de pratos em qualquer cidade nos Estados Unidos?

Sempre minhas perguntas estavam relacionadas a "fugir" ou não de algo. Todas elas poderiam ser resumidas em uma só: por que as pessas fogem - ou não fogem - da situação em que atualmente se encontram?

E, ao me fazer estas perguntas, julgar torna-se inevitável. Porque "fugir" de um lugar para outro, ou manter-se nele apesar dos pesares, implica necessariamente em definir certo e errado, melhor e pior, ímpeto ou inércia, desejo ou resignação. Seguindo este caminho, de tentar achar os porquês, minhas perguntas seguiam sem resposta.

Saimos de El Calafate, pegamos um carro e dirigimos por quase 6 horas por uma reta interminável, seca e vazia, até entrar no Chile. Exaustos, chegamos ao Parque Nacional Torres del Paine. Dias antes, houvera ali um imenso incêndio, que destruiu grande parte da vegetação do local. Fomos os primeiros turistas a visitar o parque após sua reabertura. Ali vi algumas das paisagens mais memoráveis que trago na memória, no contraste da vida que já não é, nas cinzas do incêndio, com a vida que teima em continuar a ser, nas várias áreas não atingidas pelas chamas, cuja beleza e intensidade das cores desafia qualquer descrição.

Torres del Paine

Mesmo muito confortavelmente instalados em um hotel, nunca tinha me sentido tão isolado de tudo e de todos. Sem celular, sem posto de combustível e a mais de 250 Km de qualquer cidade. O silêncio era cortado somente pelo incansável vento patagônico, e a escuridão, pela luminosidade fraca de um sol que caprichosamente relutava em se apagar, mesmo depois das 23h30. Dormimos aquela noite ouvindo o vento, que parecia querer levantar as paredes. E, de novo a pergunta: por que alguém viveria ali, em condições tão difíceis?

A resposta para todas aquelas perguntas me veio naquela noite (ou foi minha esposa que me deu a resposta mastigada, e eu estou achando que foi ideia minha?), juntamente com a imagem dos índios, da tal família Inglesa à beira do lago, dos esquimós, do Sherpas aos pés do Everest, no pobre nordestino e sua sandalinha de dedo: as pessoas vivem ali - e em qualquer outro lugar - porque querem ser felizes. Simples assim.

Não precisa haver nenhum outro porquê a não ser este, precisa? Ser feliz. Até pode haver outros motivos... Mas todos tornam-se inválidos sem que este esteja como pano de fundo. Estavam ali minhas respostas. Os índios não iam para o norte, atrás de calor, porque eram felizes cobrindo-se com gordura de foca para se proteger do frio. Os esquimós não vêm para o sul porque são felizes em seus iglus. E os brasileiros que ficam no sertão, são felizes porque ali abunda mais esperança do que água. Nem todos estão buscando, cavando, procurando, decifrando, caminhando. Nem todo mundo está. Alguns simplesmente são.

E os que saem? Bem, o fazem pelo mesmo motivo: porque acreditam que podem ser mais felizes em outro lugar. No fundo, acredito que este é o verdadeiro objetivo - seja para sair, seja para ficar. Cada um com seus motivos: alguns para se achar, outros para que não se percam. Mas todos, sem exceção, porque desejam ardorosamente ser felizes.

E isto vale para quase qualquer coisa na vida, não? Sair ou manter-se no emprego, fazer um curso de teatro ou aprender um novo idioma, fazer dieta ou entupir-se de carne na churrascaria, sair para dançar ou ficar em casa para dormir: tudo, para que se tente ser feliz. Resposta única e simples, para perguntas desnecessariamente complicadas e tolas, as minhas.

Escrevo este texto meses depois de ter me dado conta disto tudo, digitando em um notebook, no colo, em um saguão de Aeroporto muito, muito longe de casa, no Canadá. E certo de que, não importa quantas vezes nem para onde eu viaje, há poucas coisas que me causem tanta felicidade quanto voltar para casa. E ninguém tem o direito de julgar isto - não importa quão longe a casa fique.

Não se iludam: meus próximos textos voltarão a ter julgamentos, sim. Crônicas são julgamentos obtusos derramados em palavras rasas. E, confesso: adoro fazê-los. Mas, nestes primeiros 5 meses do ano, longe por completo das palavras escritas, achei que a distância - materializada na tal viagem à Patagônia, que não ia virar texto, mas virou - era algo do qual eu realmente precisava, e que meus leitores realmente mereciam. Perdoem-me se, ainda sim, fiz algum julgamento sem perceber.

Próxima viagem: não sei. Mas, com certeza, para algum lugar em que espero ser feliz. Igualzinho a você. Igualzinho a todo mundo.

Na Patagônia, as crianças voam. E os adultos, também.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Grandes Decisões: Resoluções para 2012



Não tenho a menor dúvida: à medida em que a idade avança, o tempo passa mais depressa. Quando eu era criança, as semanas eram eternas. As férias, deliciosamente intermináveis. Ao final de cada dia, parecia que eu ia dormir tendo vivido uma eternidade entre o nascer e o pôr do Sol.

Hoje, não. Chego ao final de dezembro perguntando-me quando foi que terminou janeiro... E, ao mesmo tempo, chego cheio de novos pedidos, esperanças e promessas para um ano que, certamente, será curto demais para tudo o que espero dele.

De qualquer modo, aqui está meu desejo para 2012 (aquele que, acreditam alguns, será o ano do fim do tempos): desejo um ano de grandes decisões. "Decidir" vem do latim decidere, "DE-, “fora”, + CAEDERE, “cortar” 1. Decidir, portanto, é o mesmo que "cortar fora", "romper".

Não, não proponho revoluções de nenhum tipo. Não sugiro que nos retiremos do mundo para recomeçar tudo do zero. Não. Sugiro apenas deixar no passado o que a ele pertence - sem negá-lo, sem dele zombar - para nos focarmos no que está por vir, para que tenhamos, amanhã, um presente e um futuro melhores do que temos hoje.

Sugiro que olhemos mais para o que falta ser feito, do que para o que foi. Sugiro que tenhamos a coragem de olhar para a frente, mais do que para trás. Sim, o que ficou para trás é parte do que nos tornamos e não pode ser renegado - não importa quão bom nem quão ruim seja, nem quanto orgulho ou quanta vergonha dele tenhamos. "'Passado', (...) vem do Latim passare, “passar”, de passus, “passo”. É uma analogia que se fez entre o tempo e uma caminhada." 2. E não dá para dar passos adiante, com os olhos virado para trás.

Decidamos, pois. Decidamos, como pessoas, como sociedade, como país, que vamos andar para frente, e deixar para trás um passado que, bem, já passou.

Sim, somos um país com corruptos há meio milênio. Mas podemos não ser. Sim, somos desorganizados e rudes. Mas podemos não ser. Somos alegres e cortezes, mas acomodados e resignados. Podemos não ser. Não importa o que somos hoje, podemos ser melhores amanhã.

E, do mesmo modo, nossas vitórias de ontem podem não nos manter no topo eternamente. Fomos pentacampeões de futebol. Mas podemos não ser campeões na próxima. Fomos aplaudidos ontem, mas podemos ser vaiados amanhã. Podemos, sim, ser condenados por um único erro, não importa quantos acertos tenham sido feitos antes ou depois dele.

Para 2012, eu torço para que paremos de reclamar do que foi, das culpas de fulano ou de beltrano, das incompetências de Maria ou de João. Torço para decidirmos construir, em vez de reclamar daquilo que destruiram ou deixaram de construir. Torço para que façamos, um pouquinho a cada dia, aquilo que pode ser feito para sermos melhores pais, melhores profissionais, melhores amigos, maridos, cidadãos. E, caramba, como há coisa a se fazer!

Desejo que 2012 seja aquele ano em que finalmente se faça aquela viagem dos sonhos - para que outra viagem dos sonhos possa surgir. Desejo que finalmente encontremos aqueles amigos de infância que há tempos juramos que vamos encontrar na semana-que-vem-que-nunca-chega. Desejo que finalmente se largue aquele emprego que se odeia, para se fazer o que realmente se quer. Ou então, que se ache aquele emprego - qualquer que seja - do qual tanto se precisa para recomeçar.

Desejo que o urgente dê tempo para nos dedicarmos também ao que é apenas importante. Curiosa e tristemente, a família, os amigos, os hobbies, costumam estar na segunda categoria, sem que se saiba bem o porquê.

Desejo que as feridas que por ventura ainda estejam abertas se fechem de uma vez e deixem cicatrizes que, mesmo visíveis, não causem dor. E desejo que aqueles que ainda as têm, em pouco tempo se deem conta de que não há mais ferida alguma.

Desejo que se perdoe o que pode ser perdoado. E o que não pode, desejo que se jogue no baú das memórias empoeiradas, que pouca importância têm quando se olha para trás, e que se perdem com o tempo, no esquecimento.

Desejo que as marcas do tempo no rosto, os cabelos brancos e as gordurinhas que teimam em não sair sejam nossas companheiras, que nos lembram que nada é perfeito, nem eterno. Nem mesmo eu.

Desejo que mais pessoas possam viajar à Disney, a Buenos Aires ou a Paris. Mas também desejo que mais pessoas possam comer pelo menos uma refeição decente todos os dias. Desejo que mais pessoas possam comprar TVs Full-HD de LED e som surround. Mas também desejo que mais pessoas aprendam a ler e a somar.

Desejo que mais pessoas possam entrar no Facebook para encontrar gente querida que se perdeu pelo caminho. Mas também desejo que menos pessoas se percam pelo caminho, e que novas pessoas apareçam nele, sem que seja necessário o Facebook.

Desejo que finalmente os homens entendam que as mulheres adoram dançar, adoram filmes românticos e adoram que eles cozinhem - mesmo que fique ruim. E desejo que elas finalmente entendam que se eles não respondem a uma pergunta enquanto assistem à TV, não é porque não gostam delas, nem porque não prestam atenção. É só porque são homens, mesmo. Apenas homens.

Desejo que os filhos tenham menos vergonha dos pais e dos avós. E que os pais façam menos esforço para parecerem irmãos dos seus filhos.

Desejo um ano cheio de festas, música e fogos. Mas também cheio de silêncio e olhos fechados.

Desejo que mais gente recicle o lixo, que usemos menos detergente e que liguemos menos o carro para ir só até ali. Mas também desejo que menos energia seja gasta para transportar leite orgânico que vai ser armazenado em um freezer sem porta; ou gasta para construir bonecas descartáveis para crianças que as ganham no Natal e as esquecem antes do Ano Novo. Desejo que crianças sem brinquedo algum possam, magicamente, continuar a acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, graças à boa vontade de quem acha que nem tudo está perdido para elas. Nem para nós.

Desejo que os Maias e que Hollywood estejam errados, e que em 2012 não seja o fim dos tempos. E desejo que os fatalistas de plantão, vivinhos, arrumem uma nova data para o Apocalipse - de preferência uma data próxima, para podermos voltar a nos divertir com um novo engano. E desejo também que mais pessoas acreditem que o mundo, na verdade, não acaba; quem acaba somos nós - assim como as mais de 99% das espécies que viveram até hoje no planeta, e que estão extintas. A maioria delas, independetemente de nós - e do nosso suposto, mas equivocado, poder de alterar o curso da história e da vida.

Não me interessa quando será o fim do mundo. Não me interessa nem um pouco. Me interessa saber que, quando ele chegar, se ainda estivermos aqui, tenhamos feito o melhor que podíamos fazer. Com erros, é verdade, mas também com acertos. Os segundos, espero, em maior número e com maior importância do que os primeiros - em geral, fruto de decidir o que precisa ser decidido, e fazer o que precisa ser feito.

Feliz 2012.

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1. site Origam de Palavra - http://origemdapalavra.com.br/palavras/decisao/
2. site Origem da Palavra - http://origemdapalavra.com.br/palavras/passado/

domingo, 23 de outubro de 2011

Ame-me S.A.

"Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos a olhar por cima dela com o nosso telescópio."

Ludwig Tieck

Viagens são sempre fontes interessantes de inspiração, porque nelas podemos ver coisas que habitualmente não vemos em nosso, digamos, próprio ninho.

Recentemente, em mais uma viagem a trabalho para os EUA, me peguei folheando a revista de bordo da Continental Airlines, e vi anúncios que já haviam chamado minha atenção em outros voos (que continuo achando estranhíssimo escrever sem acento), mas que não vi em nenhum outro local: propaganda de... como definir?... agências de encontros para executivos, que pagam para serem entrevistados e terem seus perfis submetidos aos "matchmakers" profissionais, que agendam, então, encontros com pessoas que sejam perfeitamente adequadas às suas expectativas e (supostas) necessidades.

Havia vários anúncios de diferentes empresas especializadas neste serviço na mesma revista. Mas o que mais me chamou a atenção foi o de uma chamada "It's Just Lunch" ("É Só Um Almoço"), que chegou quase a falar em "Encontro Orientado a Resultados", com termos realmente ligados ao mundo dos negócios: "sucesso", "custo-benefício,  "maximizar", "pró-atividade", etc - referindo-se aos encontros que eles arranjam para quem acredita não ter tempo a perder.

Achei isto tão engraçado, quanto obtuso. Para poder atrair essas pessoas para relacionamentos, precisa-se empregar os únicos termos aos quais elas sabem prestar atenção, fruto de uma vida que se resume a trabalhar e mais nada. Talvez o público-alvo deste tipo de anúncio tenha tornado-se incapaz de pensar em relacionamentos humanos sem recorrer a estes mesmo paradigmas - os únicos que realmente domina.

Mas, além desta constatação um tanto quanto óbvia, acho que há mais um detalhe particularmente preocupante neste tipo de serviço, nas expectativas que ele se propõe a satisfazer e, principalmente, no tipo de público que ele demonstra existir: um batalhão de pessoas afetadas pelo que apelidei de "Síndrome de Eldorado" - o sonho do Príncipe Encantado, da Mulher dos Sonhos, da Terra Encantada. "Eu sei que meu tesouro existe em algum lugar. Então, por favor, ache o mapa e leve-me até lá voando de primeira classe. Acorde-me quando chegarmos".

Uma agência que detecta precisamente o que você quer - e nós sabemos como os gringos sabem ser metódicos neste tipo de análise - pode definir que você é uma pessoa alegre, que gosta de música e prefere mulheres com cabelos compridos e loiros, pele clara, de 1,65m a 1,70, entre 25-28 anos, com belas curvas, sem vícios, e que pretenda constituir família só depois dos 35 anos. Ok. Nada de errado. Essa é sua mulher dos sonhos. Mas, ao definir um perfil tão específico, podem excluir aquela morena magrinha, mais alta e mais velha que você, um pouco nariguda, que gosta mesmo é de acampar e não dá a mínima para que carro você tem - e que pode te fazer muito mais feliz do que a loira, mesmo sendo "matematicamente" menos compatível.

Será que o tal Eldorado não estaria demasiadamente definido para essas pessoas? Será que a vida amorosa não merece ser só um pouquinho mais, digamos, levada pela própria sorte, em vez de arranjada por alguém? Será que Freddie Mercury estava mesmo certo quando cantou "Can anybody find me somebody to looooooove?".

No fundo, acho que as pessoas que buscam este tipo de serviço procuram a própria imagem no espelho (talvez "Síndrome do Espelho, Espelho Meu" seja um nome melhor do que "Síndrome de Eldorado", não sei). Mas como será que se comportam ao perceberem que este reflexo idêntico de si mesmas talvez não exista, especialmente depois de sofrer as mudanças que o tempo inevitavelmente promove, no rosto e na alma?

A fase da paixão, em uma relação surgida por estes meios, deve ser ótima: uma sucessão de "Nossa, como somos parecidos! É incrível!". A fase da paixão é aquela em que o casal deseja ser uma coisa só; a paixão funde as pessoas. O que você quer, eu quero. Do que você gosta, eu gosto. O que é você, sou eu.

Quando comecei a namorar minha esposa, ela comprou 3 CDs de artistas que estávamos descobrindo juntos: Loreena McKennit, David Lanz e Ottmar Liebert. No dia seguinte, eu fui lá e comprei os mesmos 3 CDs para mim. Eu queria ouvir exatamente o mesmo que ela estivesse ouvindo. Estávamos, ainda, na fase de "ser uma coisa só". Tolo, eu sei. Verdadeiro, mesmo assim.

Mas, depois que a paixão passa - e ela passa - o casal não tem mais necessidade de ser uma entidade única e indivisível. O amor é mais tolerante, mais plural e mais generoso, e permite que as pessoas voltem a ter suas próprias individualidades. Um gosta mais de comédia romântica, o outro, mais de filmes de arte. Um resolve assistir ao jogo no domingo à tarde, o outro vai ler um livro. Um decide que precisa emagrecer uns quilinhos, o outro vai malhar para ganhar massa muscular. Hoje, eu e minha esposa ouvimos músicas bem diferentes. Voltamos a ser 2 pessoas, em vez de uma única "entidade passional".

Como será este processo nestas relações que partem do pressuposto que a compatibilidade é total, perfeita e, por isso, eterna? Como será para eles se depararem com o "Péra aí! Como assim você não é exatamente igual a mim?!". Imagino que seja mais difícil do que para o resto das pessoas, cujas relações nascem de formas mais convencionais, menos meticulosamente planejadas e, supostamente, menos talhadas à perfeição.

Sinceramente, não acredito em destino, em alma-gêmea, nem em "feitos-um-para-o-outro-para-toda-a-eternidade". Mário Quintana certa vez escreveu que "O destino é o acaso atacado de mania de grandeza". Concordo. Acreditar que "o que tiver que ser será" de uma certa forma nos exime de qualquer responsabilidade pelas decisões, pelos acertos e pelos erros da vida e de suas relações. Me parece confortável demais... Acredito, isto sim, em relações em que a decisão de se permanecer junto é renovada, dia após dia, não por "estar escrita para ser assim", nem por ser perfeita, mas por valer a pena, por ser feliz.

Não, Eldorado não existe. O que existem são dias de claro e dias de escuro, dias de fome e de excesso, de risos e de lágrimas, de gritos e de sussuros. Dias alegres e dias tristes. Acredito que é na linha fina e sutil entre estes dias que a felicidade se equilibra.

O homem bonito, sensível, romântico, bem-sucedido, bom amante, bom pai, esportista, que adora dançar e cozinhar, alegre e afetuoso, existe, sim. E também existe a mulher linda, atraente, inteligente, engraçada, sedutora e dedicada. Mas ele tem chulé, e ela ronca - o que não os impede, em absoluto, de serem felizes juntos, mesmo que não tenham precisado de alguém para agendar a entrada de um na vida do outro, pontualmente às 12h15, para um almoço com hora certa para acabar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ensaio Sobre a Saudade

Para a nossa pequena Schatzi, que nos deixou olhando nos olhos de Deus


Confesso: tomo refrigerante todos os dias. Sou praticamente uma formiga bípede (tá... com alguns quilinhos a mais) e adoro qualquer coisa que seja doce. Mas, pelo menos, tomo refri diet - o que, espero, torne meu pecado mais light. Mas não é comum eu tomar guaraná. Gosto, gosto bastante. Mas, às vezes, simplesmente me esqueço dele, e fico meses sem tomar.

Escrevo este texto no início de um voo (é tão estranho escrever "voo" sem acento, né?) entre Nova Iorque ("Iorque" também é estranho) e Los Angeles, numa linda manhã de sábado, no recém-iniciado outono no hemisfério norte. E, aqui, numa companhia aérea americana, em que qualquer coisa sólida é servida por uma aeromoça apenas razoavelmente cortês, mediante pagamento com cartão de crédito, resolvi apenas beber alguma coisa. E me deu vontade de beber o quê? Guaraná. É claro que não há. Tomei, então, suco de maçã, que, ironicamente, percebo agora ter a mesma cor.

Já tive este desejo outras vezes, especialmente quando retorno de viagens internacionais. Passo meses sem tomar guaraná na minha terra, mas fico uma semana entre os gringos, e volto sedento. E, depois de saciado, passo meses de novo sem tomar.

Isso me faz pensar sobre o marido que trabalha em outro estado, e só vê a família aos finais de semana. Ele passa a semana fora, mas está com a cabeça em casa, na mulher e nos filhos. Aí, sexta à noite, ele chega finalmente em casa. Mata a saudade por 30 minutos durante o jantar, e como sobremesa, vai passar 1 hora no Facebook, ou jogando vídeo-game, ou lendo um livro - sem a mulher e sem os filhos, nos quais pensou a semana toda.

Ou, ainda, imagino a adolescente que foi passar o feriadão com os amigos e volta com saudades da mãe. Mas, no momento em que pisa no "Bem Vindo" desbotado, escrito no tapetinho que fica na porta de entrada de casa, se lembra de como acha sua mãe brega e como ela pega no seu pé por pequenas coisas. E não diz a ela o que pensou no sábado à noite, logo antes de adormecer: "Estou com saudades da minha mãe".

Por que será que essas coisas acontecem? Por que será que as urgências da saudade se dissolvem quando voltamos a ter ao alcance das mãos aquilo que a desperta? Acho que é porque a saudade pressupõe ausência. Em geral, não se sente saudades daquilo que se tem. Ninguém sente fome de barriga cheia. Ninguém boceja depois que já adormeceu. Sente-se saudades daquilo que não há - ou uma saudade antecipada daquilo que não haverá em breve.

É por isto que eu valorizo os momentos de ausência. Não, não quero estar longe das pessoas e coisas que gosto. Mas, quando a ausência delas é inevitável - aqui no avião, por exemplo - aproveito para pensar no quão importante são. Esta é a parte fácil. O difícil é, no dia-a-dia, de volta à rotina, mostrar a elas com todas as letras e cores, o valor que têm - e ouvir delas o porquê de sentirem saudades de mim, também.

Há situações, no entanto, em que "mostrar e ver" as saudades, são coisas impossíveis de se fazer. Este é o maior de todos os meus medos, e uma ideia com a qual lido terrivelmente mal: o medo da saudade final; a saudade definitiva; a saudade daquilo que não volta nunca mais; a morte (dos outros, não a minha). Sou completamente despreparado e covarde para isto. Porque a saudade, não se pode evitar. Você pode evitar a raiva, a alegria, o tesão, o medo (ou suas causas), o prazer. Mas não conseguirá fugir da saudade daquilo que ama.

Vi meu avô Conde pela última vez nas Festas de 1998. Ele tinha Alzheimer, e certamente já não sabia quem eu era. Mas me abraçou, longamente, enquanto eu chorava aquela tal saudade antecipada - porque sabia que não voltaria a passar um Natal com ele, morando eu tão longe. Ele veio a falecer alguns anos depois. Até hoje, sonho com ele de vez em quando e acordo sempre chorando, não mais a saudade antecipada, mas agora a palpável saudade insolúvel.

Mas há também um outro tipo de saudade: a que acontece na presença. Aquela que a mulher sente do marido de quando ele pesava 15 quilos menos, jantava com a TV desligada e voltava para casa trazendo flores, na noite de uma quarta-feira chuvosa. Ou a saudade que ele sente da época em que ela o desejava incondicionalmente, a qualquer hora, e não só entre as 23h45 e 23h57 dos dias pares de lua minguante, em meses de 31 dias de anos bissextos, com temperatura entre 22 e 26 graus, em condições ideais de pressão e temperatura. Continuam juntos, se veem, mas um sente falta da pessoa que o outro um dia foi. Cruel, real e, talvez, um tanto egoísta... Porque é fácil apontar no outro o que ele já não é mais, sem perceber em si próprio o que também há tempos não existe.

É... mas, no fundo, embora esteja presente a pessoa, neste caso a saudade continua sendo daquilo que ela deixou de ser. Aqui também há ausência. Me contradigo, portanto: esse negócio de "saudade na presença", acho que não existe, não. Saudade é mesmo na ausência, ou na antecipação dela.

É... é realmente impossível tentar evitar as saudades, que tanto temo. Esta é uma luta perdida antes mesmo de começar. A beleza provavelmente está em viver momentos memoráveis - ainda que triviais - com pessoas especiais, que tornem a saudade não apenas inevitável, mas preenchedora do vazio que a motiva. Como uma música que termina, mas continua tocando na alma. Ou, então, que a saudade seja propulsora de um movimento que a satisfaça, que a cure, se isto for possível. Como um instrumento que ainda se possa tocar, para em seguida renovar as saudades, quando a música voltar a acabar.

Rubem Alves, em seu livro "O Deus que Conheço", diz que "Deus mora no espaço entre as pessoas que se amam". Nunca ouvi uma definição melhor de Deus do que esta. Quem sabe, portanto, sentir saudades de alguém, seja, na verdade, olhar nos olhos de Deus, com a certeza de que a vida teve algum significado maior.

Já cheguei a Los Angeles. E, muito triste e curiosamente, enquanto pensava no encerramento para este texto que fala de saudades, acabei de receber por telefone a notícia de que minha cachorrinha morreu. Schatzi era o seu nome. Quer dizer "tesourinho", "queridinha", em alemão - um nome perfeito para ela. Estava velhinha, mas saudável. Morreu sozinha, dentro de casa, sem que saiba-se dizer o porquê.


A Schaschá, como costumávamos chamá-la (ou Schacão, como eu chamava quando queria sacaneá-la), é o típico exemplo de "amor que eu devia ter demonstrado em vida". Sempre gostei dela, mas descobri-me alérgico aos seus pelos, e mantive dela uma certa distância física. Brincava, cantava músicas e a atazanava, escondendo bolachas nos meus bolsos e pela casa, para que ela as encontrasse... Mas a afaguei muito menos do que ela gostaria e merecia. E agora, na hora da saudade definitiva e insolúvel, é tarde demais. Seu pelo macio, que acariciei longamente há exatamente uma semana, como há muito não fazia, agora ficará só lembrança, acompanhada de uma sensação incômoda de que eu talvez pudesse tê-la feito um pouco mais feliz todos os dias.

Mesmo assim, a Schaschá sempre me adorou. Muito mais do que mereci. E agora, nos deixou aqui, com saudades, olhando nos olhos de Deus. Ela, e imagino que também quase todos os cãezinhos que existiram, mesmo merecendo donos melhores do que fomos capazes de ser, nos amaram nos limites de seus coraçõezinhos. Que belo jeito de se viver: amando incondicionalmente.

Desculpe-me por não estar lá com você, Schaschá. Desculpe-me por ter saído de viagem correndo, sem nem me despedir de você. Desculpe-me por tudo o que eu podia ter feito e não fiz. E obrigado por ter sido tão... tão você, minha amiguinha querida. Você sinceramente não poderia ter sido melhor do que foi. Te encontraremos em sonhos, e é provável que choremos quando isto acontecer. Será sinal de que você permanece viva em nós. A isto, chamamos Saudade.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

O que nem precisa ser dito

Gosto mesmo daquilo que é sugerido, que está oculto nas entrelinhas, levemente indecifrável. Admiro os artistas que têm a capacidade de sugerir, mais do que explicar ou detalhar minunciosamente. Gosto daqueles que conseguem propor um tema e, generosamente, permitem que seu interlocutor - seja ele leitor, ouvinte ou espectador - vá além, pense, elabore ou recrie livremente.

Quem nunca se pegou cantarolando o Canon de Pachelbel? Tá, você pode até não lembrar agora... Mas se ouvir - e tenho certeza de que já o fez alguma vez na vida - vai se lembrar. E quantos "improvisos sobre o tema", tão incríveis quanto o original, surgiram depois? De interpretações sóbrias e belas de David Lanz e Rick Wakeman, a surpreendentes, viscerais e vigorosas, gravadas com webcams e divulgadas via YouTube, de Trace Bundy, JerryC e Mattrach.

Não sei dizer se Pachelbel e outros autores deste tipo de obra, que convida à recriação, o fazem de forma intencional, ou se têm consciência de que estão sugerindo, em vez de explicar minunciosamente o que desejam retratar - e que, exatamente por isto, as tornam tão especiais e tão aptas a receberem recriações.

Dá pra escrever um livro inteiro tendo como base só um verso de música: "Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu", de Chico Buarque, ou "Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver?", de Oswaldo Montegro. É aquele tipo de música que, quando acaba, você se pega com o olhar perdido, pensando em tudo o que ela disse, mesmo sem ter dito tudo. Ou então, aquela cena de "Central do Brasil" em que Fernanda Montenegro chora em silêncio, enquanto olha pela janela do ônibus para a aridez do sertão e daquelas vidas. Quanta coisa se diz naquela cena, sem uma palavra sequer?

Recentemente fui ao MASP com minha família. Lá ficamos por várias horas, olhando atentamente diversas obras, de grandes artistas. Algumas, com mais de 500 anos, de nomes internacionalmente famosos.

Mas foi uma delas, justamente de um artista do qual nunca tinha ouvido falar, Gregório Gruber, que mais me chamou a atenção naquele dia. Ao contrário das mais famosas, que mostravam retratos meticulosamente feitos à perfeição, esta mostra uma cena simples, em que não se enxerga os rostos dos retratados. Um visual quase voyeurista de um casal na cama, em silêncio, à luz da manhã.

Que título você daria a esta imagem?
Obra de Gregório Gruber, 1977


Antes de ver o nome da obra, fiquei me perguntando qual título eu teria dado a ela. Sondei minha esposa e descobri que ela teria dado um título totalmente diferente do meu. E provavelmente outras 100 pessoas teriam dado outros 100 nomes, exatamente porque aquela imagem não descreve nada nos mínimos detalhes; apenas mostra um fragmento de tempo, que convida quem o vê a imaginar o antes e o depois, se assim desejar.


Me peguei também pensando que outras cenas poderiam ter este efeito. Talvez os olhos opacos e alegres de um idoso que ri atrasado de uma piada? Ou uma bela moça olhando-se no espelho pela primeira vez após cortar os longos cabelos, deixando o colo à mostra, talvez por não ter nada a esconder - ou não querer que acreditem que tem? Ou então um jovem rapaz com o cenho franzido, lendo um livro sentado sozinho à mesa de um restaurante vazio? Ou o rosto travesso de uma criança lambendo os dedos gordinhos lambuzados de chocolate, roubado da cobertura de um bolo ainda quente?

Acho particularmente perceptível esta sensação quando escuto certos instrumentos musicais. Poucas coisas são mais singelas e ao mesmo tempo tão preenchidas de significado quanto uma nota grave e longa em um cello, ou o som de uma gaita de fole, que parece carregar milênios de história em cada sopro, ou o introspectivo e indecifrável som do duduk, uma espécie de flauta de origem armênia, que não se escuta normalmente em rádios com músicas tão sutis quanto o bate-estacas de um prédio em construção no sábado pela manhã. Nah! A eloquência, meus amigos, está nas nuances, no que não é completa e facilmente decifrável.

Apesar de apreciar o poder da sugestão e das sutilezas, nunca fui bom nisto, devo confessar. E, para falar a verdade, há uma área em que faço questão de evitá-la por completo: no compo profissional. No trabalho, sim, sou direto. Sim, sou explicativo. Podem dizer que falo ou explico demais; mas não podem me acusar de não ter trocado as informações de que preciso, ou que sei que os outros precisam.

Recentemente participei de um evento, no Rio de Janeiro, em que o palestrante era um gringo, o presidente mundial universal mega power blaster de uma grande multinacional. Todos estressados, para que tudo saísse bem. Ok, é de se compreender. Desde a véspera, perguntavam-se: "Ele vai ter algum PowerPoint?". Esta informação era importante, para saberem se seria necessário providenciar tela, projetor, notebook, controle remoto e blá, blá, blá. "Não sabemos. Então, vamos trabalhar como se tivesse. Amanhã, quando ele chegar, teremos a confirmação". Tá certo.

Como ele chegou e não entregou nenhum pen drive a ninguém, deduziu-se: "Não haverá PowerPoint". Desmonta-se tudo, faltando 5 minutos para começar o evento. Ele sobe ao palco. "Bom dia a todos. Hoje vou falar com vocês sobre blá, blá, blá. Vamos ver o PowerPoint agora?". Enviou-se, então, um e-mail para a assistente do cara, a meio mundo e 4 fusos horários de distância, para pedir o tal PowerPoint, que possivelmente estava com ele o tempo todo.

Como eu não tinha nada a ver com a história, nem me estressei. Apenas ri. Não seria mais fácil alguém da equipe dele chegar e simplesmente perguntar "Amigão, você vai ou não usar um PowerPoint?". Será que ele se incomodaria tanto assim de responder a uma pergunta tão incrivelmente simples? Por quê tanto medo de se comunicar?

Adoro sutilezas. Adoro. Mas, como adultos, precisamos saber quando utilizá-las e apreciá-las e quando evitá-las por completo. Elas são bem vindas quando se ouve um cello de olhos fechados, quando se quer deixar algo nas entrelinhas para que alguém capte e sorria em silêncio, ou quando uma mulher opta por um decote muito discreto, sugerindo sem escancarar. Mas há situações - e o patético episódio com o presidente super hiper mega no Rio de Janeiro foi um claro exemplo disso - em que não há espaços para sutilezas, nem dúvidas de qualquer tipo.

Saber quando e como se utilizar destas sutilizas é o que torna certas pessoas mais ou menos interessantes. Ou mais ou menos estúpidas - em horário comercial ou fora dele.

Em tempo: o título original da imagem de Gregório Gruber é "O Casal". Simples assim. Talvez exatamente para que seu olhar fique livre o suficiente para criar sobre ela um título completamente diferente do meu.




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Meus Ipês Amarelos - para os Palhaços Graças a Deus


"Há memórias que moram na cabeça, muito úteis. 
Essas memórias não doem, são informações que levamos no bolso, ferramentas.
 Mas há outras memórias que moram no coração, são parte da gente."  
   
Rubem Alves  

    
É absolutamente verdade que as histórias dependem do olho do seu narrador. Isto vale aqui, especialmente considerando que ele as viveu em primeira pessoa. Perdoem-me aqueles que viveram estas mesmas histórias e têm delas visões diferentes. E perdoem-me também se os anos apagaram alguns dos detalhes importantes ou tornaram mais vistosos alguns que talvez tenham sido apenas embelezados pela moldura da saudade. Mas é exatamente assim que um garoto, já crescido, vê 3 dos melhores anos que viveu.

Na primavera de exatos 20 anos atrás, com os Ipês Amarelos em plena floração, um garoto magro de voz engraçada estreou em sua primeira peça teatral no Grupo de Teatro Palhaços Graças a Deus. Este texto homenageia um pouco desta história e de seus personagens, que tanto o marcaram. E, humildemente, fala sobre o orgulho de fazer parte dela...



O ano é 1988 e o garoto acaba de chegar à 5a. série. Sempre foi meio lerdo pela manhã, mas daqui em diante não há mais jeito: não poderá mais estudar à tarde. É inevitável ter que estudar justamente no período do dia em que seu cérebro é tão ágil quanto uma ameba em coma.

No segundo dia de aula, uma professora de cabelos curtos e loiros entra na sala e escreve na lousa seu nome e sobrenome, com mais consoantes consecutivas do que ele está acostumado a ver. Ela diz qual será a matéria que irá ministrar: Arte Dramática. "Que raios é Arte Dramática?!".

Passam-se alguns dias, e o garoto sobe ao palco pela primeira vez. Não sente nada de especial. Na verdade, sente-se meio estranho, porque a atividade consiste em, bem, consiste em não fazer nada. Apenas ficar lá, em pé, raspando levemente as pontas dos dedos umas nas outras, para acalmar, para manter-se "à vontade", enquanto se é observado pelos colegas de classe. Enquanto isso, deve transferir periodicamente o peso de uma perna para outra, para uma e para outra. Um "não fazer nada" bastante desconfortável para um garoto prestes a fazer 11 anos, sob os olhares dos colegas de classe, na mesma situação.

Na aula seguinte, triangulação de palco: imaginar o palco como um barco, e dispor os elementos (pessoas inclusas na categoria) de forma a equilibrá-los em cena, para que o barco não afunde. Tarefa de casa: desenhar alguns exemplo de triangulação usando 3, 4, 5, 6 elementos.

Ele a faz às pressas, em uma folha de caderno. Arranca-a e entrega à professora, mas é repreendido: ela não acha adequada uma tarefa feita em uma folha arrancada, cheia daquelas rebarbas na borda do papel. Ele, com toda a extraordinária bagagem intelectual de um menino de 11 anos, já tem o veredito: "Este curso será estranho".

1990. Dois anos se passam e, com eles, muitas aulas de Artes Dramáticas. Ele nunca detestara as aulas até ali, mas também nunca morrera de amores. Com o passar do tempo, e depois de assistir às peças feitas pelos "grandes" do colegial, subir ao palco havia se tornado, digamos, curioso. Apenas curioso.

Particularmente curiosa é também sua voz. Na verdade, curioso é o descompasso entre seu corpo de adolescente, magro e desajeitado, e sua voz, já de um homem adulto. Os colegas brincam, sem maldade, imitando-o. E ele gosta daquela atenção.

A professora de Arte Dramática é agora também sua professora de Português. Exigente e desafiadora como é, passa a demandar da 7a. série muitas coisas com as quais não estão acostumados. E, com o passar dos meses, o garoto, agora com 13 anos, descobre ter certa facilidade para escrever. Os desafios impostos pela professora, em vez de afastá-los, começa a aproximá-los.

O quebra-cabeças começa a fazer sentido: as palavras, que ele está aprendendo a moldar a seu próprio estilo, viram peças úteis no curso de Arte Dramática. E, quando se apercebe disto, ele passa a se interessar também pelas não-palavras, pelas expressões, as posturas e as ações, e o que elas representam, sem serem ditas.

A peça do final de ano, montada com todos os alunos da 7a série, é sua última "obrigação" com o teatro, já que no ano seguinte não há mais o curso de Arte Dramática. Durante a peça, ele participa de uma cena, durante poucos segundos, no papel de um padre, à frente de uma procissão, em absoluto silêncio. Uma música fúnebre os acompanha, enquanto a procissão simplesmente atravessa o palco, de uma coxia à outra. Alguns colegas ficam na coxia "de chegada" fazendo palhaçadas, para que se desconcentrem e riam. Ele não ri. E, ali, orgulhoso pelo simples fato de ter conseguido não rir, percebe que quer continuar a fazer teatro por mais algum tempo. O curioso curso de Arte Dramática definitivamente virou prazer, e o garoto quer mais. Quer muito.

1991. O garoto, já na 8a série e prestes a fazer 14 anos, entra, finalmente, no Palhaços Graças a Deus.

Dia do batismo. É o dia em que se deixa de ser simplesmente um calouro, para virar um Palhaço, para sempre. Pelo menos, é o que dizem os veteranos, com ar solene (que o garoto viria a reproduzir no anos seguintes, exatamente como os que o antecederam).

Batismo de 1992. Clique na imagem para ampliar.
 
São muitos minutos de uma deliciosa ansiedade, enquanto tem o seu rosto maquiado, vendo a maquiagem dos outros, mas sem ver a sua própria. E que sussurros e risadinhas são aqueles dos veteranos? O que será que estão tramando? Como será que escolheram os nomes de palhaço para cada pessoa? E, caramba, que nome será que vai receber?

Ele não espera muito, porque é o primeiro a ser batizado. As palhaças Fantasia e Coxia o chamam ao palco e ele pode finalmente ver sua maquiagem no espelho: uma partitura estilizada. Seu nome de Palhaço: Pavarotti. Um reconhecimento "oficial" àquela curiosa voz de adulto no corpo de garoto. E que orgulho! Uma sensação extraordinária que, ele sabe, não irá se repetir de novo. Ele é, oficialmente, um Palhaço a partir de agora. O que ele não sabe, ainda, é que se lembrará disso todos os dias dali em diante, pelos 20 anos seguintes.

Neste ano de 1991, é a primeira vez que o grupo divide-se em dois, para fazer duas montagens distintas: o infanto-juvenil "Cavalinho Azul", e o adulto "Filme Triste", numa clara demonstração de feeling apurado das diretoras, que antecipam a tendência de "revival" dos anos 60, que só iria se manifestar alguns meses depois, em todo o Brasil. O garoto faz parte da montagem de "Filme Triste": um grupo de rapazes e moças dos anos 60 e suas preocupações inocentes com estudos, namoro, paqueras, curtições, e ao mesmo tempo, uma inexplicável e inapropriada alienação quanto à turbulência política do país naquele momento.

O garoto sempre foi um rapaz bastante reservado. Não exatamente tímido, mas reservado. Nunca foi o centro das atenções, nem buscou ser. Não é feio, nem bonito. É simplesmente normal. Mas, para "Filme Triste", ele recebe o papel de Mário Jorge, o namorador da peça. Nada a ver com seu jeito reservado... mas como não adorar aquela situação e aquela badalação toda? Seu apelido nos ensaios vira MJ (caprichosamente pronunciado em inglês: "ÉM-DJEI"). Ele adora!

Que fascinante o processo de montagem de uma peça teatral! A criação das cenas, os textos, os personagens e as personalidades que vão se moldando, a agitação e o senso de realização...

Especial é também o momento da chegada do figurino e da caracterização: os vestidos coloridos e alegres para as meninas, suas maquiagens com olho de gatinha, as calças justas de tergal dos meninos e as gravatinhas azuis, que eram parte do uniforme escolar na época representada pela peça. Tudo pronto para a estreia! A expectativa e a energia são indescritíveis e palpáveis como um presente embrulhado, que ainda não se pode abrir.

Elenco de "Filme Triste", 1991. Clique na imagem para ampliar.


Entre os meninos, surge (ou talvez já viesse de anos anteriores) o grito "THUNDER-THUNDER-THUNDERCASTS - UOOOOOUU!": uma brincadeira com o desenho animado da infância deles, e que dá àquele grupo de rapazes a sensação de união, de pertencerem a algo único e especial - o que é particularmente forte naquela peça, em que os garotos atuam quase o tempo todo juntos.

Finalmente, a estreia, a concentração e o delicioso nervosismo, perceptível nos olhos arregalados, nos sorrisos ansiosos e nas mãos geladas que se apertam com força, minutos antes do espetáculo. É uma sensação mágica e poderosa de pertencer a um grupo de pessoas que estão ali, de corpo e alma, e que não trocariam aquela experiência por nada no mundo.

Na estreia, o tal garoto esquece-se de uma cena, em que estariam só o seu personagem, Mário Jorge, e a Madalena, interpretada pela bela palhaça Dama da Noite, com sua voz tão peculiar. Mas ele simplesmente se esquece de entrar em cena e ela fica lá vários segundos, esperando-o chegar. No final das contas, chamado às pressas pelos colegas, ele entra e a cena acontece. Ele se desculpa com ela depois e promete a si mesmo que não iria mais deixar aquilo acontecer, perfeccionista como é.

Curiosamente, o garoto guarda o manuscrito daquela cena, com a letra inconfundível da diretora que escrevia com uma Mont Blanc bico de pena preta, que não emprestava a absolutamente ninguém. Encontrá-lo, 20 anos depois, numa caixa de recordações apelidada de "Slices of Life" ("Pedacinhos de Vida"), foi um dos fatores que o motivaram a narrar o presente texto.

Cena de "Filme Triste" (1991), na caligrafia da palhaça Fantasia. Clique na imagem para ampliar

Mas, voltemos a 1991. Foram muitas apresentações, inclusive no TUCA, e até adaptações-relâmpago para uma versão "teatro de arena", realizada em uma escola pública. Um total de quase 20 apresentações, em cujos talentos e esforços de seus amigos Palhaços o encantam: as cenas de baile, as cenas de beijo que despertavam pontinhas de inveja nos garotos (Sulceneide, Sulceneide!!!) e um impecável e emocionante monólogo de encerramento da palhaça Rubrica Perneira, cujos expressivos e diretos olhos azuis choravam com a verdade das grandes atrizes, seguido por "Carcará", na voz de Maria Bethânia.

São muitos aplausos, muitos sorrisos e uma sensação de alegria diferente de tudo o que já sentiu.

Embora no dia-a-dia o garoto seja (ou acredite ser) o mesmo, está inegavelmente fascinado com os aplausos. Recebe cartinhas de "admiradoras", brincadeiras e namora uma de suas "paqueras", na peça: a palhaça Cambalhota, um ano mais velha que ele. As cartas de Anita, sua personagem, para Mario Jorge, escritas e assinadas como se fossem de 1962, faziam parte do texto original da peça, mas nunca chegaram ao palco na montagem final do Palhaços. Ainda assim, tornaram-se lembranças incríveis do processo de criação da peça - e do vínculo que se esboçava, além dela. O garoto reservado, caramba, agora namora uma menina do colegial, cara!!!!


O garoto não cabe em si. E é devidamente alertado por algumas pessoas próximas, como a palhaça Fofucha, em uma carta pessoal, que está lá, também na caixinha, guardada: "não misture as bolas, não se encante demais consigo mesmo. O excesso de auto-confiança poderá decepcioná-lo, no futuro". Isto vem, sim, a fazer sentido para ele, alguns anos depois. Ele nunca teve a chance de agradecê-la pelos conselhos e pela verdade neles contida, mas lembrou-se muito deles em sua vida adulta.

Mas, por enquanto, não. O sucesso da peça e o sentimento de ter sido visto - ainda que muito mais pelo papel que recebeu, do que exatamente pela sua performance - o enchem de alegria, assim como o orgulho decorrente de uma nítida sensação de um vínculo especial, de respeito, admiração e carinho mútuos, com algumas das pessoas que mais influenciariam sua vida.

Termina o ano de 1991 e começa o igualmente fascinante ano de 1992. É neste ano (veio a saber o garoto só em 2010) que surge o grito de "SEXO" das meninas, para "competir" com o "THUNDERCATS", dos meninos. Soa bobinho, assim, por escrito, mas é engraçadíssimo. Especialmente quando se tem 15 anos...

A diretora acredita que o grupo, entrando no seu 12o. ano de existência, está pronto para um clássico: "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. A peça é montada inteiramente com músicas de Chico Buarque.

Montar "Romeu e Julieta" revela-se um desafio em um grupo de teatro-escola, amador, com 20 e poucas pessoas, em que a existência de protagonistas é uma tema delicado e potencialmente espinhoso.

A solução encontrada é criativa e nobre, com vários Romeus e várias Julietas. Seriam diferentes "romances proibidos": um (espetacular) casal de idosos, um belo e muito elegantemente conduzido casal formado por um aluno e uma professora, e o "original", com os filhos das famílias Capuleto e Montecchio. Na verdade, após a publicação deste texto, o palhaço Pluft, que entrara no grupo naquele ano de 1992, lembrou este autor que havia ainda um quarto casal, com um Romeu tímido (o próprio Pluft) e uma Julieta extrovertida. A memória infelizmente não lhes permitiu resgatar quem era exatamente aquela Julieta.

Pavarotti tem a felicidade de ser escolhido Romeu Montecchio. Como Julieta, é escolhida a palhaça Colombina. Só que, sem que saibam exatamente o porquê, o casal no início dos ensaios mostra não ter grande afinidade. Nunca brigaram, nunca discutiram... mas existe entre eles uma certa distância tola e inexplicável - talvez por serem mais parecidos um com o outro do que estão dispostos a admitir - e não muito interessante para um par que deve ser romântico e parecer apaixonado.

Em um desses ensaios, na clássica cena do balcão, realizada nos recém-instalados praticáveis nas laterais do teatro, Julieta falava ao vento sobre sua paixão secreta por Romeu, enquanto ele ouvia às escondidas, para em seguida declarar-se a ela também. No final da cena, o casal se abraça apaixonadamente. Ou, melhor dizendo, deveria se abraçar apaixonadamente. Mas a distância entre os atores é tão visível quanto engraçada. A diretora, divertindo-se com a situação os "ensina" a abraçar:

- Abracem direito, com o corpo todo! Não é só passar os braços! Encostem-se! Assim, ó!

E apertava os dois.

- Abracem-se de verdade! Vocês estão apaixonados, caramba! Vocês não precisam se amar fora daqui, não. Mas devem nos convencer no palco! Devem ser capazes de olhar apaixonadamente para um prego, se precisar!

Sobe ao palco e olha apaixonadamente para um prego na parede.

- Agora, tratem de se apaixonar!

Demora, mas o abraço sai. E, depois da estreia, já na temporada de apresentações, durante a cena do balcão, diversas vezes o garoto se pega admirando a naturalidade com que sua parceira atua e a beleza viva e delicada que imprime à personagem - embora nunca tenha tido a chance de dizer isto a ela, com todas as letras.

Como de hábito ao final dos espetáculos, os atores, no proscênio, conversam com a plateia sobre a peça, sobre o que acharam, do que gostaram, ou não gostaram, o que têm a perguntar. Em uma dessas ocasiões, uma jovem senhora, sorrindo, pede a palavra:

- Posso fazer só uma pergutinha?
Faz alguns segundos de silêncio, mantém o sorriso, e diz:
- Posso levar o Romeu e a Julieta para casa?

O teatro todo a acompanha no sorriso e solta um sonoro "Oooooooh" (de "Ó, que fofo!"). Pavarotti e Colombina se olham e, sem que precisem dizer nada, sabem que aquilo tudo funcionou. A aproximação entre os dois nunca viria a acontecer fora dos palcos. Mas existia, sim, uma química curiosa e inegável, que parecia funcionar em cena e que, muito provavelmente, fosse motivo de orgulho e satisfação para ela tanto quanto era para ele.

O garoto lamenta nunca ter podido assistir à cena do enterro de Julieta, nem mesmo em ensaios - pois sempre estave na coxia, esperando para entrar na cena da qual participaria, logo em seguida. Mas ele lembra-se de ouvir pessoas queridas mencionando que aquela era uma das cenas mais lindas que o grupo já havia apresentado em sua história. Recorda-se apenas da luminosidade bruxuleante das tochas, que sentia na coxia, e do réquien solene e alto... mas isto é tudo. O resto desta cena, para ele, só existe em imaginação, porque nunca a pode ver por completo, assim como Julieta, que nela sempre esteve de olhos fechados.

1993, Anarquistas Graças a Deus. Em oposição ao ano anterior, nesta peça há uma grande família, em dose dupla: o casal de pais, a pajem, os vários filhos, em 2 grupos distintos, que atuam alterando-se entre as cenas. Ambos os grupos, infantil e adulto, montam a mesma peça, e o sortudo garoto tem a honra de poder participar de ambas as montagens, que trazem muitos personagens e muitos novos talentos - certamente alguns dos maiores da história do grupo, em todas as épocas.

A sensação do garoto, agora com 16 anos, é diferente do que fora até ali; uma felicidade intensa, só que mais serena. Como uma paixão que vira amor. A ansiedade sobre o processo de elaboração da peça é menor, talvez por já conhecê-lo dos anos anteriores e por saber que o processo como um todo, e não simplesmente o seu fim, é o que torna tudo tão incrivelmente extraordinário.

Além do mais, sabendo que é o seu último ano no grupo, pensar sobre o fim é exatamente a última coisa que ele deseja fazer...

Os figurinos são - como dizer? - cor de chá. São sépia; cor de fotografia tirada no início do século XX - exatamente a época retratada pela peça.

O garoto interpreta Ernesto, o pai da família Gattai, desta vez alterando a voz, para torná-la um tanto rouca e parecer de um homem de mais idade, com seu sotaque ítalo-brasileiro de meia tigela, mas desempenhado da maneira mais sincera que lhe foi possível fazer.

"Anarquistas Graças a Deus" é uma peça sóbria, mas com várias situações cômicas - talvez mais pelos atores que a interpretaram do que pelo tom do texto. E o garoto lembra-se bem de algumas dessas passagens, apreciadas à época pelo gosto antecipado da saudade iminente que, ele sabia, viria a sentir quando a temporada acabasse.

Em uma cena, em que ele faz o seu próprio genro (?! - coisas de Fantasia...), ele curiosamente é de novo par da mesma palhaça que fez Julieta no ano anterior. Ele a pede em casamento aos sogros, interpretados pela impagável e hilária palhaça Fanikito e um acolhedor e naturalíssimo Chicabon. É simplesmente impossível fazer a cena sem rir, sem se desconcentrar. Depois de algumas vezes, o garoto simplesmente desiste de tentar. O casal de sogros rouba a cena de tal forma, que ele sabe que pode rir sem medo: não existe a menor chance de alguém estar prestando atenção nele. E, mesmo que estejam, veriam o mesmo que em todas as outras pessoas, no palco ou fora dele: risadas.

Há também uma outra passagem curiosa. Passam-se alguns dias da estreia da peça e o garoto está envolvido com a palhaça Xantili (assim mesmo, com X e I no final). Mas, oficialmente, ainda não estão namorando.

Em uma das cenas, Xantili faz uma rica e severa mulher, que inspeciona alguns candidatos para o emprego de motorista. O garoto, Pavarotti, é um deles, e lembra-se que ela dizia mais ou menos assim:

- Eu sou uma mulher fina! E meu motorista deve ter aparência impecável! Deve andar arrumado, perfumado e barbeado!

Os homens, perfilados, ouvem em silêncio.

- E devem ter a mãos e as unhas perfeitamente limpas para trabalhar no meu carro! Limpíssimas, ouviram bem? Deixem-me ver suas mãos!

Os homens mostram as mãos e ela inspeciona, esbravejando e resmungando. Olha primeiro as unhas, em seguida as palmas, de cada um.

Chega a vez do garoto e ela vê suas unhas. Ao virar suas mãos, lê a mensagem secretamente escrita em suas palmas: "Quer namorar comigo?". Ela arregala os olhos, cora-se como uma criança envergonhada, esboça um sorriso contido e continua a cena, sem hesitar. Na coxia, Xantili e Pavarotti tornam-se, oficialmente, namorados.

Mesmo sabendo que a plateia não perceberia, talvez não tenha sido muito adequado misturar as bolas, colocando no meio da peça uma coisa tão pessoal, que poderia ter desconstruído a cena... Mas aquele foi definitivamente o pedido de namoro mais original que já fizera. E ele nunca duvidou, a qualquer tempo, que a imagem do sorriso contido da Xantili compensou em muito os riscos de ter estragado a cena.

A temporada está chegando ao fim. Pavarotti desfruta pela última vez de uma das cenas mais simples da peça. Ele, em um dos praticáveis, sentado com um cobertor sobre as pernas. No outro lado, a palhaça Té Kinfim - talentosíssima! - no papel de Angelina, faz o mesmo. O casal, na cama (da qual a plateia, entre os dois, faz parte), conversa sobre a contratação de uma pajem para as filhas. A cena termina em blecaute e, em todos eles, desde o início da temporada, o garoto pensa em como aquela cena tão simples era tão deliciosa de fazer: a naturalidade do texto e a liberdade de dizê-lo de diferentes modos, as expressões precisas de sua parceira, a segurança da direção em resolver uma cena simples com apenas dois banquinhos, duas pessoas sentadas e um blecaute.

Mas, no último espetáculo, aquele blecaute doi. Cada segundo, doi. Cada fala, tem gosto de despedida. E, ao final, ao som da voz rouca de Raul Seixas em "Tente Outra Vez", Pavarotti chora um choro verdadeiro e desavergonhado. Um choro espedaçado. Um choro intenso, que mistura orgulho pelo que realizou e uma dor inconsolável pelo que sabe que não virá mais. Chora uma saudade que ainda nem veio. Uma saudade dos outros e de si próprio. Acaba ali a jornada de Pavarotti no Palhaços Graças a Deus.

Com o passar do tempo, o azedo da saudade rasgada dá lugar ao sabor doce das lembranças ternas. Ele desiste de pensar no que perdeu e no que deixou de ter, para ficar só com aquilo que ganhou e que ninguém lhe pode tirar: recordações de uma das melhores épocas de sua vida, em que suas semanas gravitavam em torno dos dias em que o grupo de teatro se reunia.

Não houve dia sequer, desde que saiu do grupo, em que não se sentiu Palhaço. Ser Palhaço, e ter vivido as coisas que viveu, deixou no garoto, já crescido, marcas que foram impressas em sua personalidade, em sua forma de ver as pessoas, o mundo e a vida. Para melhor ou para pior, ciente dos seus novos talentos e também dos seus novos defeitos, sua vida foi profundamente influenciada pelo que viveu ali.

Talvez alguns Palhaços não se lembrem de detalhes, ou talvez nem sequer lembrem dos seus nomes de batismo. Mas isto também não é importante. Porque estes Palhaços também viveram coisas naquele grupo que certamente não viveram nem viverão em nenhum outro lugar - mesmo que talvez nem se lembrem mais delas.

As pessoas que hoje fazem parte do grupo certamente não sabem nada a respeito do Palhaço Pavarotti ou de suas lembranças, que, no fundo, talvez não tenham importância alguma, a não ser para ele próprio. O que o orgulha, o que é de fato importante, é saber que gerações e gerações de Palhaços carregam em suas vidas as lições que ali aprendem e ensinam, muitas vezes sem querer, nem perceber. Este é seu maior orgulho nesta jornada: saber que faz parte de uma história que deixa um legado tão importante na vida de tantas e tantas pessoas que, mesmo de épocas tão diferentes (afinal, são mais de 30 anos de história), mesmo que completamente desconhecidas uma das outras, carregam semelhanças e valores que são tão belos quanto atemporais e que os une de uma forma inexplicável.

A primavera é a época da floração dos Ipês. E, especialmente quando florescem os amarelos, é sinal de que está próxima a estreia da montagem daquele ano. Faz 20 anos que o garoto sorri todas as vezes em que vê um Ipê Amarelo florido. E, especialmente nesta época, mesmo com a distância física que às vezes o tempo acaba impondo, lembra com imenso carinho de muitos palhaços que dividiram com ele o palco, os aplausos e que foram, ao mesmo tempo, espectadores e atores importantes da sua vida: Coxia, Pôr-do-Sol, Fuligem, Bastidor, Fofucha, Arrelia, Sereno Orvalho, Alvorada, Cambalhota, Colibri, Amanhecer, Aquarela, Xantili, Tcham Tcham Tcham Tcham, 123 Sinais, Bereré, Colombina, Tim Pim Pim, Batatinha Quando Nasce Espalha a Rama Pelo Chão, Chicabon, Raspa de Tacho, Joystick, Té Kinfim, Pingo, Pluft, Papoula, Ciclorama, Butterfly, Fanfarra, Fanikito, Dama da Noite, Brigadeiro, Peteca, Rubrica Perneira e, a mãe de todos, Fantasia, além de todos aqueles cujos nomes o tempo apagou de sua memória, mas não do legado dos Palhaços Graças a Deus.

Amyr Klink, em um dos seus extraordinários livros, em um trecho que fala das saudades que sente enquanto está em suas viagens solitárias, diz que "Trazia próximos, como nunca, pessoas queridas e amigos, e a provisória distância que nos separava era apenas física. Uma distância real e emocionante, que sabia muito bem como percorrer. Uma distância fácil de resolver. (...) E foi, só - por esses breves instantes que dura um inverno -, que descobri como fazer o tempo correr para tornar próximos todos os lugares, e certas pessoas, por quem se morre de saudades".

Ao escrever este texto, o garoto fez o tempo correr e percorreu distâncias enormes, sem sair do lugar. Sentiu inúmeras vezes o coração acelerado e as pernas inquietas, como se uma parte do seu corpo revivesse as lembranças e sensações que resgatou. Sonhou com o que escreveu, dormindo e acordado. Mas, acima de tudo, humildemente, homenageou em pensamento aquelas tantas pessoas, por quem nunca deixou de morrer de saudades e que tão generosamente dividiram dias tão especiais com ele.

Que os Ipês amarelos continuem a florescer. E que as lembranças da época que simbolizam, continuem deixando marcas indeléveis na vida de pessoas absolutamente inesquecíveis.


     Pavarotti  
 Agosto de 2011   
  





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