terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Com a outra mão



"Quando acordo com o pé esquerdo, sou canhoto. Não existe dia derrotado."
Fabrício Carpinejar, escritor gaúcho

Como em todos os anos desde que comecei a escrever, faço reflexões de final de ano. Esta, é a do ano de 2014.

Antigamente, eu gostava de acreditar que eu era um cara diferente. E a música era a forma de provar isto a mim mesmo. Tolo, eu sei. Mas era assim. Entre os meus 15 e meus 20 e poucos anos, eu gostava de ouvir umas músicas meio incomuns. Passava horas nas lojas de CD "descobrindo" novidades, na época em que nem existia internet e MP3 não queria dizer absolutamente nada.

De uns anos para cá (estou agora com 37), passei a ouvir músicas mais convencionais - talvez porque eu, também, tornei-me mais convencional. Mas, naquela época, gostava de ouvir o que quase ninguém ouvia... Dava-me um certo senso tolo e infantil de singularidade.

O fato é que, no afã de ser pseudo-eclético, conheci muita, muita coisa legal. E, numa dessas andanças em uma loja de CDs, me deparei com uma capa que me chamou atenção, de um álbum intitulado, Fingerdance, de um músico do qual nunca tinha ouvido falar: Billy McLaughlin.

Fingerdance, do álbum homônimo, de 1996

Achei o título interessante. "Dança do Dedos". Fiquei curioso. O texto da capa, dizia:

Close your eyes
Feche os olhos

And you won't believe you're listening to an acoustic guitar
E você não vai acreditar que está ouvindo um violão

Open your eyes
Abra os olhos

And you won't believe how he does it
E você não vai acreditar em como ele o faz.


Achei irresistível! Pedi para ouvir, o vendedor deixou (eles não gostavam muito de abrir capinhas de CD fechadas) e escutei a faixa-título. Foi um daqueles momentos em que você sabe que está experimentando uma coisa especial pela primeira vez. Fiquei absolutamente fascinado com a sonoridade singular, o estilo imprevisível e sofisticado, uma forma que, para mim, com 18 anos, era completamente nova. Comprei o CD imediatamente e ouvi, ininterruptamente, por vários e vários dias. Decorei todas as músicas e sou capaz de cantarolar cada uma delas até hoje, nos mínimos detalhes.

Sempre achei meio assombroso alguém conseguir tocar violão. Toquei um pouco (pouquíssimo) de piano e teclado na adolescência, mas nunca compreendi como é possível alguém conseguir domar um instrumento complexo como o violão: a sincronia dos dedos, a complexidade dos acordes, a destreza. Billy McLaughlin toca praticamente 100% do tempo apenas no braço do violão. Toda a sonoridade das suas músicas sai dali, como se fosse um teclado. É um som diferente, improvável, intrigante e delicado.

Outros gênios já tinham feito isto antes dele, em diferentes gêneros: Hendrix, Jordan, Hedges e outros. Mas foi com ele que ouvi pela primeira vez.

Ele lançou poucos anos depois uns novos CDs, igualmente excelentes. E, depois disso, sumiu. Não ouvi mais falar em Billy McLaughlin. Veio a popularização da internet, ele chegou a ter um site, mas não lançou mais nada. Nem uma música, sequer. Evaporou. Silêncio de muitos anos.

Mas, em 2006, Billy ressurgiu das cinzas, com uma incrível história para contar...

O sumiço teve uma causa. Em 1999 ele começou a "errar" as próprias músicas. Foi aos poucos perdendo a capacidade de tocar. Em 2001, foi finalmente diagnosticado com uma doença neuromuscular incurável, chamada "Distonia Focal". Ela afeta justamente pessoas que fazem movimentos repetitivos, como músicos e atletas, causando contrações involuntárias dos músculos - no caso dele, de dois dedos da mão esquerda. O virtuoso do violão estava completamente impossibilitado de tocar.

Em 2002, sua carreira estava encerrada. De 1988 a 1999, Billy fez mais de 1700 shows. De 1999 a 2006, foram 14. Neste intervalo de tempo, ele perdeu seu o contrato com a gravadora, sua empresa, seu empresário, sua renda. E perdeu também seu casamento e sua casa.

A Distonia Focal roubou-lhe dois dedos. E isto foi o suficiente para roubar-lhe também sua música e sua vida até ali.

Até que ele decidiu fazer o improvável... com a outra mão. Reaprendeu a tocar suas próprias músicas, uma a uma, nota por nota, invertendo a posição do violão, passando a tocá-lo com a mão direita, em vez da esquerda.

Não é tão simples quanto parece... Eu sempre tive facilidade de fazer as coisas com as duas mãos. Não sou um ambidestro verdadeiro - daqueles para os quais é realmente indiferente usar qualquer uma das mãos, já quem ambas têm a mesma desenvoltura. Eu, não. Meu cérebro não foi tão privilegiado. Sou destro, mas com o passar do anos fui me obrigando a fazer coisas com a mão esquerda, de forma que, com o tempo, consegui alguma desenvoltura. Digo que sou apenas um "falso ambidestro".

Mas, quando se toca música profissionalmente, no nível em que ele tocava, a coisa é diferente. Se alguém me exigir que eu escreva tão bem com a mão esquerda quanto faço com a direita, simplesmente não vou conseguir. Uma coisa é escrever de forma que seja legível. Outra coisa é escrever exatamente com a mesma desenvoltura, com a mesma velocidade e com a mesma letra. Não dá; é impossível.

É equivalente a aprender a falar sua própria língua fluentemente, de trás para frente. É como virar o teclado de cabeça para baixo, cruzar as mãos sobre ele e tentar digitar um texto inteiro sem um erro sequer. Não dá. Ou dá?

Bem, ele o fez. Retomou sua carreira em 2006, 5 anos após o diagnóstico. Voltou a compor, voltou a se apresentar. Recuperou a coisa que mais gostava de fazer e para a qual havia tanto se preparado. Recuperou a arte que refletia quem ele era.

Uma história inspiradora, de um gênio cuja teimosia foi tão poderosa quanto o talento, e cujo esforço foi tão grande quanto o sonho de voltar a tocar.

Church Bells, já com as mãos invertidas. 2006

Isso me traz aos desejos para 2015. Para o ano que vem, espero que sejamos um pouco como Billy McLaughlin. Espero não apenas acreditar que é possível fazer "com a outra mão". Acreditar é pouco. Quero ir lá e fazer. Mesmo que demore. Mesmo que dê trabalho e requeira paciência. Mesmo que seja necessário olhar para a própria mão e ensiná-la tudo de novo, insistir, fazê-la conquistar a mesma alegria e a mesma destreza da outra.

Quero reaprender o que sabia, para tocar as músicas que me são importantes, e compor outras músicas que ninguém jamais ouviu. E que eu nem sabia que havia em mim.

Quero fazer com a outra mão, para expor o artista que ainda posso ser, sem negar o que fui. Quero que os silêncios virem música. E que "resignar" seja palavra banida do dicionário.

Quero recompensas e aplausos. Quero inspirar. Quero não ter medo de cair e levantar quantas vezes sejam necessárias. Quero enfrentar o medo e a incerteza. Quero agradecer. Quero conseguir fazer o que eu sei que sei fazer. E também o que nem sei que sei.

Não quero fazer com a outra mão porque me obrigo. Quero porque a outra mão também pode, também consegue. Não para ser melhor, nem diametralmente diferente. Mas possível, viva. Inteira por si.

Porque mesmo não sendo virtuoso, como Billy McLaughlin, sou um puta de um teimoso. E, em sendo, nego-me. E em negando, abro-me.

Em 2015, serei canhoto. Porque tenho um livro para continuar a escrever. E, mesmo que a letra seja diferente do que era, ainda é a minha letra. Me orgulho dela. E minha outra mão, também.

Feliz 2015!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Sem pegada



"Toda perfeição é um defeito"
Voltaire, pensador francês

Faltava-lhe algo. Ela não sabia dizer o que era. Era bem apessoado, até. Falava direitinho, sabia usar acento circunflexo e sabia a diferença entre rímel e blush. Era um homem sensível, cuidadoso, atencioso. Um bom partido, sem dúvida.

Mas faltava-lhe algo. Na verdade, sobrava-lhe esmero. A barba estava sempre feita, as unhas sempre cortadas, o hálito sempre fresco, o desodorante sempre renovado. Faltava-lhe ser mais cru, mais rebelde, menos civilizado. Precisava de alguma coisa que a fizesse acreditar que ele seria capaz de algo impensável, impetuoso; algo que a surpreendesse.

Queria acordar de manhã insegura se ele ainda estaria ali. Queria temer ser traída. Queria ficar enciumada com alguma mensagem de WhatsApp suspeita depois da meia-noite. Queria tentar entrar no banheiro enquanto ele tomasse banho e encontrar a porta trancada.

Mas, não. Ele queria ouvir música baixa depois das 22h, queria lavar a louça depois da janta, queria escovar os dentes antes de beijar pela manhã. Queria usar cotonetes. Johnson.

Um dia, ele dormiu na casa dela e ficou até mais tarde, depois que ela saiu para trabalhar. Quando voltou do trabalho, deparou-se com seu maior medo: ele tinha feito a cama, arrumado perfeitamente os 10 travesseiros, lavado a louça e deixado bilhetinhos apaixonados.

Não, não ia dar certo. E, ali, decidiu: iria deixá-lo, coitado. Era um bom partido, sim, mas faltava-lhe pegada. Era isso! Faltava-lhe pegada. Faltava-lhe loucura. Faltava-lhe ser um pouco menos perfeitinho.

Ela estava convicta: queria o bom. Apenas o bom. O perfeito, não. Perfeito era demais...

domingo, 9 de novembro de 2014

O Rei do Castelo Móvel


Estava entre os 60 e 70 e tinha desistido de aparar os pelos nas orelhas. Já estava aposentado, mas continuava trabalhando. Achara muito monótona a vida em casa. Não aguentou uma semana sequer.

- Essa porra dessa mulher fala demais! - dizia sobre a esposa. Sempre temperava as frases com um palavrão.

Era um homem franzino, baixo, de pele morena e bigodinho. Apesar de casado há muitos anos, não tinha aquela barriga redonda, característica dos homens que já arrearam a âncora há anos. Mas não fazia atividade física de nenhum tipo. Era magro porque era magro, mesmo. Comia pouco, dormia pouco. Tomava muito café e fumava 2 maços desde os 14 anos. Os dentes amarelos e os dedos longos e finos, encardidos pela nicotina, revelavam o vício, que ele não fazia nenhuma questão de largar.

Era um homem rude. Havia parado de estudar aos 13. Aos 18, tornou-se cobrador de ônibus e nunca mais deixou de sê-lo. Ficou ali, naquele trabalho, por anos e anos. Acordava às 03h30 e antes do sol nascer já estava circulando pela cidade como um sentinela, no seu assento mais alto, com o couro gasto, revelando um pedaço da espuma. Sentava com as pernas abertas, para não apertar as partes.

Nunca tirou carta de motorista. Nunca se interessou por dirigir. A viagem mais longa que fez foi para Sorocaba, para o casamento de um primo. Nunca tinha lido um livro e na TV só assistia a 2 canais.

Seu novo chefe tinha 41 anos - a idade do seu filho mais novo - e tinha feito especialização em alguma universidade barata para entrar e cara para sair. Ao assumir o cargo, fez uma reunião com todos os motoristas e cobradores da empresa, numa segunda-feira, dizendo que queria que todos fizessem um novo treinamento de "orientação para o cliente", para melhorar a "experiência dos usuários durante o translado, encantando-os com a eficiência dos serviços".

- Que porra de cliente? Nós temos passageiros! E que porra de translado? Nós fazemos transporte! E que porra de "encantar"? Eu por acaso tenho cara de fada? - disse aos colegas, com seu tradicional mau humor, depois da reunião.

Foi ao treinamento, no dia e horário marcados. Assim que as luzes se apagaram e começou um vídeo intitulado "Você, gerente de si mesmo", levantou-se e foi fumar. Depois, mijar.

- Mulher urina, homem mija - dizia.

Depois, comeu uma coxinha xexelenta e voltou para a sala. Dormiu alguns minutos e, depois que as luzes se acenderam e alguns consultores palestraram durante uns 20 minutos sobre "Interpretação do Perfil de Cliente", ficou repassando mentalmente a escalação do Palmeiras, de 72 a 78. Ao final, respondeu ao questionário, assinalando "Concordo Plenamente" em todos os itens de avaliação de satisfação, só para não ter que explicar do que não havia gostado.

Não precisava de treinamento nenhum. Tinha sido cobrador a vida toda. Não era sua profissão, era parte de quem era. Não mandava em nada na vida, a não ser no seu ônibus. Em casa, quem decidia o que comer era sua mulher. Até o pijama que iria usar era ela quem deixava em cima da cama. Os filhos decidiam quando iria ao médico. O chefe decidia se trabalharia ou não em um final de semana ou feriado. Até a moça do caixa da padaria mandava nele: tinha decidido que não ia mais vender o estoura peito que ele fumava, e que só venderia a ele um cigarro tipo "light", com menos alcatrão e menos nicotina.

- Cigarro de mulher, essa porra.

Mas, no ônibus, mandava ele. Do seu assento mais alto, falava grosso, para todo mundo ouvir, com sua voz rouca, tipo Adoniram Barbosa:

- Atenção: eu SEI que ainda tem espaço nesse ônibus! E eu não vou deixar essa porra andar enquanto vocês não derem um passo à frente! Então, um passinho à frente, que eu tenho hora para almoçar e fumar meu cigarro "lait"! Alguma dúvida?

Ou, então, nos dias em que tinha enxaqueca:

- Aí, é o seguinte: eu trabalho aqui faz mais de 40 anos e não aguento mais esse barulho dessa maldita dessa cordinha que vocês puxam! Então, NÃO PUXEM. Basta fazer "psiu" e eu aviso o motorista, com 3 batidinhas no vidro, com essa moeda de 1 real. Ele ouve! Então, para aqueles que não entenderam, vou repetir: Não puxa a corda! Faz "Psiu"! Eu NÃO vou olhar para você quando você fazer "Psiu", porque a) eu não preciso; e b) porque você é feio. Se eu bater na janela com a moeda, é porque ouvi o seu "Psiu". Eu sou velho, mas não sou surdo. Alguma dúvida?

Ou, quando via um malandrão querendo se aproximar demais de uma moça:

- Um aviso aos passageiros! Eu gosto de mulher e sei que muitos aqui também gostam. Mas não é por causa disso que vamos por aí desrespeitando as moças. Temos, neste ônibus, neste momento, um vagabundo que está querendo se aproveitar para tirar casquinha das moças. Neste ônibus, não! Quem quer tirar casquinha, vai cutucar ferida. Ou desce do ônibus e pega o próximo. Mas, no meu ônibus, ninguém tira casquinha de moça! Alguma dúvida?

Naquele ônibus, mandava o Tião. Ali, ele era o rei. Ninguém duvidava.

Naquela tarde, horas depois do treinamento, estava sentindo uma dormência no braço esquerdo e uma ardência no peito, que ele tinha certeza que era azia por causa da coxinha xexelenta que comera naquela manhã.

Era infarto. Morreu, no caminho de casa. Tinha renovado o desodorante, antes de sair.

Morreu dentro do ônibus, sem o uniforme de cobrador, sentado, quieto e anônimo, como outros passageiros. O cobrador não o conhecia. Era um rapaz de 18 anos, que tinha acabado de entrar na empresa e não percebeu que ele não estava dormindo. Só se deu conta no ponto final, quando ele não desceu.

Nunca mais se ouvir falar de outro rei de um castelo móvel. Morria naquela tarde Tião, o cobrador-rei, que nunca mandou em nada que não fosse o seu próprio reino sem súditos. Morreu feliz, convicto do próprio poder. Em paz e em movimento, nômade como seu reino. E disso, ninguém duvidava.

Helder Conde

Inclusive


Sábado à noite. O leve cheiro de carpete gasto o lembrava de que precisava comprar um daqueles cheirinhos de ambiente para dar um ar pessoal ao local, com paredes cor de nada.

Não tinha programa nenhum. Tomou banho, decidindo o que iria fazer, enquanto via a espuma branca do shampoo escorrer pelo ralo. Desodorante. Pente. Cueca, calças, meias, camisa. Sem perfume. Preguiça.

Iria sair, talvez. Cinema? Nah! Poderia fazer qualquer coisa. Para que se fechar sozinho, ainda que rodeado de gente, em uma sala escura, com um balde de pipoca na mão? Não. Faria algo mais interessante, claro.

Quase pegou o carro e saiu dirigindo. Poderia facilmente dirigir por horas, centenas de quilômetros, para algum lugar onde houvesse perfume, brisa fresca e sorrisos.

Poderia ligar para uns amigos, poderia ir dançar, poderia ir ao teatro, que adorava. Poderia tentar escrever algo que prestasse. Poderia jantar em algum lugar novo. Poderia ver pornografia na internet.

Mas, não. Foi ao Carrefour, comprar sabonete e desodorante. E observou as pessoas, com respeito. Notou que os olhos de quem faz supermercado num sábado à noite têm um que de resignação e paz. Olhos de tanto faz.
  
Comprou também Ferrero Rocher, para quando a boca ficasse amarga, depois que as luzes se apagassem. E bolacha recheada de doce de leite. Porque a dieta iria começar só na segunda-feira, como em todas as outras.

Fez o que tinha que fazer e voltou. Notebook no colo. Norah Jones. Mãos sobre o teclado. Tela em branco. Tela em branco. Tela em branco. Ar condicionado fraquinho, travesseiro macio e lençol cheiroso. Tela ainda em branco e olhos pesados. Mão no abajur.

Há momentos em que se pode fazer qualquer coisa. Qualquer uma. Tem-se todas as opções à disposição. Inclusive, a de estar só. Click!

Com meus botões



"Um homem sozinho está sempre em má companhia."
Paul Valéry, filósofo francês


Aconteceu. Fui vestir a camisa e vi: faltava um maldito de um botão. E acho que ele fez de propósito. "Nunca tinha pensado nisso, né, mané? Então, vai! Me costura nessa camisa, que eu quero ver!". Os outros botões pareciam rir: carinhas redondas, com seus pares de olhos tirando sarro de mim, gargalhando, junto com suas respectivas casas, da minha incompetência em cuidar de mim mesmo.

Desgraçados. Não sei como se costura um botão! Fui pacientemente ensinado e juro que prestei atenção. Mas nunca usei o que aprendi... e esqueci. Passa-se a linha de trás para frente ou de frente para trás? Quanto de linha devo usar para que não fique solto, nem apertado demais? A linha precisa ser da cor exata da camisa, ou pode ser só aproximada?

Porque se tiver que ser exata, eu estou ferrado! Quantas linhas vou precisar comprar para combinar com cada camisa que tenho? Aliás, onde é que se compra linha? No Carrefour não deve ser... Não me lembro de ter visto, jamais. Deve ser numa loja de.... como é que chama aquela loja com coisas de costura? Armarinhos? Como vou comprar uma coisa se não sei nem o tipo de loja que a vende?

Também não vou levar para a costureira! Não! Eu tenho vergonha nessa cara! Sou um homem adulto, inteligente, moderno. Preciso conseguir resolver um problema simples como este! E não, não venha me sugerir para ver um tutorial no YouTube! Tenho quase 40 anos, não 14! Tenho barba branca, já!

Confesso: me dá medo do fracasso, ao imaginar esses meus dedos grossos e duros, tentando desempenhar esta tarefa que vi outras mulheres, de dedos precisos e delicados, fazerem com desenvoltura e facilidade. Imagina o meu biquinho, tendo que lamber a linha para enfiar no buraquinho da agulha!

É, mas vou ter que fazer, mesmo. Não vai ter jeito. Tenho que enfrentar este fantasma. Tenho que ser homem o suficiente para costurar um botão numa camisa. Sou um macho! Sou macho com pedigree! É! Vou me tornar um mestre da linha e agulha. Vou costurar botões, vou cerzir. E não vai ser só isso! Vou aprender a fazer tricô e crochê! E também descobrir um shampoo que não deixe meu cabelo feito uma palha! E vou comprar minhas próprias cuecas e meias! E providenciar um cheirinho bom para o ambiente! E vou aprender a fazer bolo de chocolate - daqueles com cobertura cremosa, bem melecada! E de cenoura! E pudim! E vou decidir quando trocar a roupa de cama e quanto de Comfort colocar na máquina! E vou lavar a roupa separada por cor! E vou aprender a tomar chá! Vou fazer a porra toda, feito homem que sou.

Mas isso, só amanhã. Agora já está tarde. Vou tomar meu leitinho, colocar meu pijaminha e mimir. Pelo menos, esse pijaminha não tem botão. Ele não me julga. Não ri de mim. Meu pijaminha me aceita assim, do jeito que sou: ignorante e acomodado, sim. Mas, macho. Muito macho!

Helder Conde

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Beijo na Mão

Ilustração de Roswie Goof

Beijar as pessoas é coisa corriqueira. Felizmente. Às vezes é um só beijinho no rosto, uma "bochechada" - em que os rostos se encostam, mas os lábios só estalam -, daquelas que se dá em colegas ou conhecidos. Ou pode ser beijo de amigo, daquele em que os lábios encontram o rosto do outro. Ou pode ser beijo na boca. Para os mais jovens, talvez uma sucessão de bocas sem nome, em ficadas efêmeras e irrelevantes. Para os enamorados, uma janela para dentro do outro. Para o casal já estável, talvez uma frasezinha sem palavras: "Tenha um bom dia, amor".

Lembro-me, na pré-adolescência, quando comecei a cumprimentar as meninas com um beijinho no rosto, que eu fazia com aparente naturalidade, mas sempre com especial ansiedade.

Lembro-me dos primeiros beijos na boca desengonçados e cheios de técnica ensaiada e pueril.

Lembro-me dos beijos de corpo todo, sem técnica nenhuma, e cheios de pele, mãos e verdade.

Lembre-me dos beijos em pai, mãe e irmão.

Lembro-me de beijinhos em bochechas e barriguinhas e testinhas e pezinhos e cabelinhos de crianças que me fizeram acreditar que, ufa, eu devo valer alguma coisa nesta vida.

Beijar é parte do cotidiano. Não sabemos dizer quantos beijos damos ao longo de um só dia. Mas há um beijo que é singular. Este, talvez se possa saber quantos foram, ao longo de toda uma vida. É um beijo que se pode dar em homem, em mulher, em criança, em idoso. E, apesar de tão universal, é o mais raro; o diamante dos beijos: o beijo na mão.

Não estou me referindo ao beijo de galanteio, que hoje pareceria anacrônico e tolo. Nem estou falando de "A sua benção, padre". Não. Falo do beijo que se dá na mão de alguém, por devoção. É aquele beijo que se dá como o melhor dos agradecimentos, porque qualquer palavra seria rasa demais. É uma gratidão que transborda e precisa virar pele. É um "Que sorte que você existe!".

Beijar a mão de alguém é beijar sua alma. É adorar sua imprescindibilidade. É torcer para que a vida lhe seja tão generosa quanto foi conosco, por termos aquela pessoa a quem beijar.

Beijar a mão é fazer-se oferenda, quando todas as outras formas de agradecer seriam tolas; quando a dádiva é tão grande, que só cabe agradecer com o próprio corpo; quando só se pode agradecer com aquilo que se é, e não com o que se pode dizer ou dar.

Beijar a mão é acolher-se no ninho, enquanto se explode de gratidão.

Beijar a mão é ajoelhar-se com os lábios.

Helder Conde

domingo, 19 de outubro de 2014

Mesa para um


- O senhor prefere sentar-se no bar?

- Pode ser, sim.

Senta-se, mas o balcão é meio alto.

- Com licença? Acho que prefiro uma mesa. Posso?

- Claro, pode ser nessa aqui, senhor.

É a primeira vez que come ali. Para chegar, dirigiu meio sem rumo, tentando pensar um local onde nunca tivesse ido. Estava com fome e sentiu que estava merecendo comer carne. Lembrou-se dali e da indicação feita pelo amigo do irmão do primo do colega. Chega sozinho e, com um "Bom dia!" especialmente caprichado, emenda, estranhando a própria voz: "Mesa para um, por favor".

Lugar novo, script velho: carne mal-passada, sal, fritas, cogumelos, Coca Zero, refil, refil, refil, cheesecake. Calculadora com os 10% extras. Visa. "Crédito, por favor". "CPF na nota?". "Sim. Ou melhor, não".

Mesmos cardápios, rostos parecidos com os de sempre, preços similares. Um almoço como qualquer outro, travestido de novidade insossa.

Na mesa à esquerda, moças bonitas e jovens, mas sem brilho, falam de algo desinteressante. Na outra, adolescentes silenciosos acompanhando suas famílias, fogem, estáticos, sentados em suas cadeiras, com os rostos imberbes iluminados pelos celulares idênticos.

Ele faz o mesmo, para preencher o silêncio: lê Carpinejar, olha o Facebook, curte algumas coisas das quais terá se esquecido antes de digitar a senha do cartão. Relê mensagens antigas no Whatsapp.

Olha no relógio: ainda são 14h30! O que fará pelo resto da tarde? Ouvir John Mayer? Escrever, talvez. Não. Vai colocar os fones de ouvido e correr. É, vai correr... Embora, correr, não seja bem a palavra. Vai andar e, a cada 15 minutos, andar mais rápido um pouquinho. Suar. Ficar cansado e colocar os bofes para fora, para em seguida tomar um bom e merecido banho.

E vai, então, aguardar pelo jantar. Talvez vá merecer um temaki? "Salmão completo". "Cream cheese e cebolinha?". "Sim, por favor". "CPF na nota, senhor?". "Sim. Ou melhor, não".

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Silêncio


Cada um dos dedos pesa uma tonelada. Mal têm forças para encontrar as teclas, em geral tão fáceis.

Os cadarços, que fiquem desamarrados, mesmo.

As costas, que fiquem curvadas, e os ombros, caídos. Vaidade, não há.

A barba, fica por fazer. Porque olhar-se no espelho dá muito trabalho. Ou muito medo.

Os olhos, ásperos, enxergam pela fresta que a duras penas se mantém, ao final de longas e penosas piscadas que imploram por não abrir.

A boca, seca, não fala. A voz rouca, primitiva, quase inaudível, grunhe apenas o indispensável.

A respiração às vezes se esquece de ser. E, aqui e ali, encomenda um longo suspiro ou bocejos de corpo inteiro, em busca de um ar que parece faltar. Ou que, teimoso, falta, de fato.

O ruído dos pés se arrastando pelo chão, reforça um cansaço, que, impiedoso, acorrenta os sentidos e as ideias, deixando lugar apenas para o absolutamente essencial.

E tudo o que se quer é um pouco, só um pouquinho de silêncio. Um silêncio horizontal. Silêncio com cheiro de travesseiro limpo e temperatura de abraço.

Silêncio do corpo, para descansar um pouco. Só um pouco. Só um pouco...

sábado, 20 de setembro de 2014

Bokeh


Era uma menina com um olhar diferente das demais. Uma criança, ainda. Mas olhava a vida com formas, matizes e enfoques diferentes de todos à sua volta. Era especial. Tudo para ela era poesia, tudo era encantamento. Nada passava desapercebido aos seus olhinhos ávidos e interessados.

Mas não era apenas o olhar. Era um talento para transformar o que olhava, em alguma outra coisa. Ela eternizava o que via e sentia, de uma forma só dela, única: fazia um desenho, uma pintura, elaborava um poema sem esforço, saía rodopiando uma dança só sua, ou cantarolava uma música espontânea, nascida de algum lugar perto do peito.

Dormia bem, dormia pesado - talvez para compensar o excesso de atenção que dispensava a tudo na sua vidinha de criança. Mas, na manhã de um sábado frio e ar seco, ela acabou acordando mais cedo do que de hábito. Por algum motivo, os passarinhos naquele dia cantavam mais alto. Ou os seus ouvidos é que estavam mais felizes. O fato é que o canto deles a despertou antes do sol nascer, e não conseguiu mais adormecer.

Nem tentou ficar na caminha. Levantou-se e foi, com os pezinhos descalços até a sala e ficou lá, sentadinha à janela, esperando os primeiros raios do sol. Já tinha visto fotos mas, aos 6 anos, nunca tinha presenciado um amanhecer.

Não demorou muito e começaram a aparecer os primeiros raios de sol. E ela ficou simplesmente encantada. Nunca tinha visto nada tão lindo. Emocionada, pela primeira vez na vida chorou por um motivo que não sabia explicar. Chorou só para si, sem expectadores. E, com o passar dos minutos, e as cores mudando no céu, não conseguiu mais se conter: precisava compartilhar sua alegria, e foi acordar o pai:

- Papai, papai! - sussurrou com aquela delicadeza que sempre tinha, para não assustá-lo, enquanto afagava seus cabelos.
- O que foi, meu amor?
- Vem ver, papai! Vem ver! - já puxando-o para fora da cama.
- O que aconteceu, filha?
- Olha na janela! O sol está vermelho!
- É, meu amor. É porque o dia está nascendo.
- Não, papai! É que o sol passou batom para beijar a gente!

O pai, sorriu, encantado com mais uma das suas ideias criativas e surpreendentes.

- É, sim, filhota. Passou um batom bem bonito, igual ao seu.
- E sabe o que isso quer dizer, papai?
- Não sei. O quer dizer?
- Quer dizer que o sol é mulher!

Daquele dia em diante, a pequenina apaixonou-se pela luz. E, no aniversário seguinte, pediu - e ganhou - uma máquina fotográfica. Simples, mas só sua.

Tirava foto de tudo. Fotografava coisas comuns: o cachorrinho, as árvores, os pais, o irmãozinho, os brinquedos. Mas passava horas, também, caçando as pequenas coisas para fotografar: joaninhas, gotas d'água, a própria mãozinha escrevendo, os primeiros pelos brancos da barba do pai, enquanto cochilava. Queria sugar o mundo nos mínimos detalhes, com a lente sedenta da sua câmera nova.

Passaram-se alguns anos e a menina, já mocinha, apaixonou-se por um garoto na escola, um pouco mais jovem do que ela. E, intensa como era, foi uma paixão daquelas, arrebatadora, vigorosa, colorida. Mas doce, sem doer. Só o lado bom de estar apaixonada.

- O perfume dele, mamãe, tem cheiro de estrela!

A mãe nunca entendeu bem o que era cheiro de estrela. Mas a menina sabia muito bem.

- Mãe, tenho saudade do abraço dele...
- É, filha? Que lindo! E quanto tempo faz que vocês não se abraçam?
- Nunca nos abraçamos, mãe.

Ficaram, sim, amigos, mas o menino era muito tímido. Também gostava dela, do seu sorriso fácil e dos olhos mais ávidos que já tinha visto, mas não tinha a menor coragem de dizer isso a ela com todas as letras.

Certo dia, escondida do pai, pegou a máquina fotográfica dele - uma daqueles grandes, com a lente cheia de ajustes - e levou para a escola. Queria fazer uma foto especial do garoto. Mas não era para colocar no porta-retrato, nem no fundo de tela do celular.

- Pra colocar embaixo do meu travesseiro, ué! - respondeu à amiga, quando perguntada o porquê de querer tanto uma foto dele.

Ela pediu para ele, mas sua timidez o impediu de aceitar de tirar a foto. Ela insistiu, mas ele não quis. Não tinha jeito. Era só um garoto assustado diante de uma menina cheia de ideias e vontades. E foi se afastando, envergonhado, caminhando de costas para ela, fugindo da foto e contrariando seu coração, que queria tanto ficar.

Ela não teve dúvidas: deu o máximo de zoom na lente - adorava aquela câmera do pai - e esperou por alguns segundos. Quando o visor mostrava só a cabeça dele, ainda de costas, ela não se conteve e gritou:

- Eu gosto de você!

Ele parou, imediatamente. A respiração, suspensa. E, de repente, em um segundo, uma calma tomou conta dele. O vento virou brisa. Sorriu, respirou fundo, virou-se e olhou bem para lente, como se olhasse para os olhos dela.

E ela fez a foto: só o rosto dele, sorrindo, no enquadramento bem fechado. O fundo, completamente desfocado, mostrava um mundo que, àquela altura, não importava mais. Ela havia capturado a imagem que queria. Exatamente a imagem que queria.

E ele, sereno, sussurrou, sabendo que ela ainda o olhava através lente:

- Eu também gosto de você.

Aquela foi a melhor foto que lhe tiraram na vida. Ela enviou para ele, por e-mail. O pai dele era fotógrafo e ficou maravilhado com a foto tirada pela garota. Achou lindo o filho, capturado naquela espontaneidade, rodeado por aquele fundo suave, esmaecido pelo fascínio do olhar daquela menina. A luz do início da manhã oferecia uma luz difusa, com sombras suaves. Uma foto singular. Belíssima.

Ele explicou ao filho o termo usado em fotografia para se referir àquele efeito desfocado, difuso, que havia naquela foto: Bokeh.

E, daquele dia em diante, ela ganhou do menino um apelido, pelo qual só ele a chamava. Um apelido que ela adorava. Um apelido nascido do retrato dele, mas que era, na verdade, um retrato dela própria. Porque a atenção que ela dava ao que lhe era importante era tão grande e tão intensa, que fazia todo o resto desaparecer, desfocar-se. O apelido perfeito: Menina Bokeh, a menina que fotografava a felicidade.

sábado, 13 de setembro de 2014

O menino

Não sabia dizer ao certo o que era, nele, que a fascinava tanto.

Sabia que não era o jeito orgulhoso de falar, nem as mãos. Sabia que não era o pomo de Adão, saliente, nem a voz rouca. Também não eram a baixa estatura, nem os lábios carnudos. E sabia também que não era a inteligência, apenas mediana, nem a facilidade em assoviar. Nem a brancura da pele. Nem o escuro dos cabelos. Nem as sobrancelhas bem desenhadas. Nem o jeito singular de apoiar a rosto nas mãos. Nem a panturrilha musculosa e os ombros largos. Nem o beijo mais molhado do que estava habituada.

Ela sabia tudo o que não era, mas não sabia dizer o quê, afinal, era a causa do seu fascínio. Não era um homem misterioso, não era especialmente atraente, não era especialmente nada. Mas era tudo.

E, durante anos, ela nutriu aquele interesse. Fascínio, na verdade. Tudo o que vinha dele a encantava, era motivo de adoração.

Durante algum tempo, pôde tê-lo. Mas, apesar de todos os carinhos e mimos e afagos, ele não ficou. Simplesmente não estava pronto. Ou, como todo homem, talvez nunca viesse a estar, porque nunca deixaria de ser apenas um menino.

E ele se foi. Partiu para, talvez, tentar descobrir em si mesmo o que havia para se gostar. E ela sentiu saudades, muitas saudades. Durante muito tempo.

Mas, com os anos, ela seguiu adiante. Nunca o esqueceu, apenas o superou. Deixou de doer porque simplesmente deixou de lembrar. Virou página no meio do livro. Não rasgada, não molhada, não embolorada. Apenas acolhida, no meio de outros livros, no meio de outras estantes, em bibliotecas que já não costumava visitar.

Um certo dia, muitos anos depois - décadas, talvez - o avistou. Estavam no metrô - ele já no vagão, quando ela entrou. Ele lia um livro, cujo título ela não conseguia destinguir à distância. Lia atentamente, como costumava fazer. Estava, claro, mais envelhecido. As feições maduras, os cabelos já levemente grisalhos, um pouco mais gordo. As olheiras, um pouco mais escuras.

Eram só duas estações até ela descer. Não iria abordá-lo. Ficou ali, olhando-o à distância, folheando na memória as páginas que a levavam a ele e aos sentimentos que um dia a habitaram. Sem dor, sem tristeza. Só contemplação serena.

O metrô começou a desacelerar. Ela desceria na próxima parada.

- Estação... Luz. - disse o alto falante.

Isto o distraiu por um instante e ele levantou os olhos do livro. O metrô já estava praticamente parado. Cruzou o olhar com o dela imediatamente, com se já a soubesse ali. Detiveram-se naquele olhar e, passados apenas três segundos, já tendo localizado as páginas em que viviam, nos livros de suas vidas, sorriram ao mesmo tempo: um sorriso levíssimo, quase imperceptível.

E ela desceu do vagão.

A porta se fechou. Ela ficou parada por alguns instantes na plataforma e virou-se, para olhá-lo novamente. Ele continuava lá, fitando-a com o mesmo sorriso quase imperceptível. Não se moveram. Não acenaram. Não fizeram menção em fazer um gesto de "Me liga". Nada. Só o sorriso quase não-sorriso, enquanto o metrô começava a acelerar e ele ia embora, uma vez mais.

Finalmente, com a respiração ainda suspensa, e com o vento causado pelo deslocamento dos vagões soprando em seus cabelos, descobriu o que tanto a havia fascinado naquele homem: a verdade no jeito carinhoso de olhar. Olhar de menino.



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