sábado, 21 de maio de 2011

A câimbra dos diferenciados

Há exatamente duas semanas aconteceu-me um episódio, digamos, bizarro. Honestamente, nem dá para dizer foi bizarro - é que como nunca havia acontecido comigo, achei bom adjetivá-lo assim, para efeito dramático. O fato é que acordei aos berros.

- Ai, ai, ai!!!
- O que foi?! - minha esposa acordou sobressaltada, achando que era mais um dos meus pesadelos estúpidos.
- Câââââimbra!!!!
- Onde?!
- Na perna!
- Alonga!
- Alonga como?!
- Alonga a perna!
- Não sei como!
- Assim, caramba! - e lá estava ela, ensinando um marmanjo de 34 anos a alongar a panturrilha, para fazer a câimbra passar. E passou.

Depois de rir do absurdo da situação (nunca tinha sentido câimbra na batata da perna, ué!) e da lembrança de uma panturrilha dolorida durante todo o dia, como se a maldita câimbra quisesse me lembrar de que poderia me visitar de novo a qualquer momento, me peguei pensando sobre a beleza que é ter alguém, um porto seguro, uma pessoa com quem se pode contar. Alguém que te valorize, te acolha, que cuide de você quando tem pesadelos, ou câimbras, que te pegue um sabonete novo no armário, depois que você já entrou no chuveiro, que não ria da sua cara porque você gosta de jujubinha ou porque, no frio, você transa de meias.

Ao longo da vida, algumas pessoas cumprem esses papéis. A mãe, o pai, um irmão, um grande amigo. E, para a maioria das pessoas, também um amor.

Este episódio todo aconteceu exatamente 2 dias depois do Supremo Tribunal Federal ter reconhecido a União Homoafetiva. Interessante, né? Eu nunca tinha ouvido este termo "relação homoafetiva". Já tinha ouvido, claro, "relação homossexual". E confesso que nunca tinha parado para pensar na estreiteza do termo: "duas pessoas do mesmo sexo, que transam".

Ninguém fala isso de um casal hetero, já observou? A relação de um casal hetero é sempre uma "relação amorosa", "relação afetiva", que, claro, envolve o sexo - às vezes como item principal, inclusive. Mas, para os gays, não. Parece que os gays são apenas "seres que trepam. E ainda com pessoas do mesmo sexo, credo!". Como se a vida deles/delas fosse apenas isso.

Achei bonito e honesto o termo "homoafetivo". Foi a primeira vez que vi - justo de um órgão de governo tão sisudo e supostamente conservador - uma definição que vê os gays como mais do que seres meramente sexuais. Que avanço extraordinário! É uma pena que tenha demorado tanto para acontecer, mas deve ser, sem dúvida, comemorado por todos aqueles que acreditam que pessoas são, antes de qualquer outra coisa, pessoas.

É compreensível que haja resistências e controvérsias sobre isso. O que não dá para entender no entanto, é porque até mesmo alguns "diferenciados", que também são vítimas de precoceitos, sejam contra essa posição do STF. Para quem não sabe, "diferenciado" foi um termo que surgiu recentemente, numa carta aberta escrita por algumas - não todas, certamente - pessoas de Higienópolis, em São Paulo, avessa à construção de uma estação de metro em seu nobre bairro. Segundo elas, o metrô atrairia bagunça, tráfego, ônibus. E atrairia, ainda, como eles disseram, "gente diferenciada" - pessoas diferentes daquelas que costumam trafegar no bairro.

Estou até pensando em arrumar em emprego de faxineira por lá. Elas devem ganhar uns 30 mil por mês, né? Isso tudo não é surpreendente, considerando-se o que significa o nome do bairro: "Cidade da Higiene". Entendo porque alguém não queira morar perto do metrô. Mas referir-se às pessoas como "gente diferenciada", é de doer.

Gays, durante muito tempo foram - e continuam sendo - parte deste universo de "pessoas diferenciadas". Mas será que não somos todos? Minha pele me faz branco no IBGE, mas meu nariz, meus lábios e meus dedos grossos não negam meus ascendentes escravos. Os cabelos negros e lisos da minha mãe não negam os índios que devem fazer parte de sua árvore genealógica - e da minha por conseguinte.

Todos no mundo têm algo de diferente e de "estereotipável". Os paulistas são frios, os cariocas são malandros e os bahianos, lentos. Os americanos são fúteis, os franceses são metidos, os alemães, racistas e os suecos, depravados. Os japoneses são sérios, os árabes, rigorosos e os africanos, miseráveis. Os pobres são indesejáveis e os ricos, usurpadores. Os jamaicanos, maconheiros, os argentinos, arrogantes e os mexicanos, submissos. Os gays... bem, os gays são gays. Somos todos, sem exceção, "diferenciados" em algum lugar, em algum contexto.

Acolher e aceitar parecem estar na ordem do dia e isto, sem dúvida, vai nos fazer crescer como sociedade e como pessoas. Mas não precisamos ser hipócritas! As piadas de gays vão continuar, assim como as piadas de portugueses, de loiras, de advogados, de virgens e de velhos. Não há nada de errado nisso. O errado está em, na vida real, fora da piada, não aceitar que todos nós, gays ou heteros, inevitavelmente diferenciados aqui ou ali, precisamos de gente. Precisamos uns dos outros - mesmo para coisas tão tolas quanto resolver uma câimbra na perna.






Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...