quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Grandes Decisões: Resoluções para 2012



Não tenho a menor dúvida: à medida em que a idade avança, o tempo passa mais depressa. Quando eu era criança, as semanas eram eternas. As férias, deliciosamente intermináveis. Ao final de cada dia, parecia que eu ia dormir tendo vivido uma eternidade entre o nascer e o pôr do Sol.

Hoje, não. Chego ao final de dezembro perguntando-me quando foi que terminou janeiro... E, ao mesmo tempo, chego cheio de novos pedidos, esperanças e promessas para um ano que, certamente, será curto demais para tudo o que espero dele.

De qualquer modo, aqui está meu desejo para 2012 (aquele que, acreditam alguns, será o ano do fim do tempos): desejo um ano de grandes decisões. "Decidir" vem do latim decidere, "DE-, “fora”, + CAEDERE, “cortar” 1. Decidir, portanto, é o mesmo que "cortar fora", "romper".

Não, não proponho revoluções de nenhum tipo. Não sugiro que nos retiremos do mundo para recomeçar tudo do zero. Não. Sugiro apenas deixar no passado o que a ele pertence - sem negá-lo, sem dele zombar - para nos focarmos no que está por vir, para que tenhamos, amanhã, um presente e um futuro melhores do que temos hoje.

Sugiro que olhemos mais para o que falta ser feito, do que para o que foi. Sugiro que tenhamos a coragem de olhar para a frente, mais do que para trás. Sim, o que ficou para trás é parte do que nos tornamos e não pode ser renegado - não importa quão bom nem quão ruim seja, nem quanto orgulho ou quanta vergonha dele tenhamos. "'Passado', (...) vem do Latim passare, “passar”, de passus, “passo”. É uma analogia que se fez entre o tempo e uma caminhada." 2. E não dá para dar passos adiante, com os olhos virado para trás.

Decidamos, pois. Decidamos, como pessoas, como sociedade, como país, que vamos andar para frente, e deixar para trás um passado que, bem, já passou.

Sim, somos um país com corruptos há meio milênio. Mas podemos não ser. Sim, somos desorganizados e rudes. Mas podemos não ser. Somos alegres e cortezes, mas acomodados e resignados. Podemos não ser. Não importa o que somos hoje, podemos ser melhores amanhã.

E, do mesmo modo, nossas vitórias de ontem podem não nos manter no topo eternamente. Fomos pentacampeões de futebol. Mas podemos não ser campeões na próxima. Fomos aplaudidos ontem, mas podemos ser vaiados amanhã. Podemos, sim, ser condenados por um único erro, não importa quantos acertos tenham sido feitos antes ou depois dele.

Para 2012, eu torço para que paremos de reclamar do que foi, das culpas de fulano ou de beltrano, das incompetências de Maria ou de João. Torço para decidirmos construir, em vez de reclamar daquilo que destruiram ou deixaram de construir. Torço para que façamos, um pouquinho a cada dia, aquilo que pode ser feito para sermos melhores pais, melhores profissionais, melhores amigos, maridos, cidadãos. E, caramba, como há coisa a se fazer!

Desejo que 2012 seja aquele ano em que finalmente se faça aquela viagem dos sonhos - para que outra viagem dos sonhos possa surgir. Desejo que finalmente encontremos aqueles amigos de infância que há tempos juramos que vamos encontrar na semana-que-vem-que-nunca-chega. Desejo que finalmente se largue aquele emprego que se odeia, para se fazer o que realmente se quer. Ou então, que se ache aquele emprego - qualquer que seja - do qual tanto se precisa para recomeçar.

Desejo que o urgente dê tempo para nos dedicarmos também ao que é apenas importante. Curiosa e tristemente, a família, os amigos, os hobbies, costumam estar na segunda categoria, sem que se saiba bem o porquê.

Desejo que as feridas que por ventura ainda estejam abertas se fechem de uma vez e deixem cicatrizes que, mesmo visíveis, não causem dor. E desejo que aqueles que ainda as têm, em pouco tempo se deem conta de que não há mais ferida alguma.

Desejo que se perdoe o que pode ser perdoado. E o que não pode, desejo que se jogue no baú das memórias empoeiradas, que pouca importância têm quando se olha para trás, e que se perdem com o tempo, no esquecimento.

Desejo que as marcas do tempo no rosto, os cabelos brancos e as gordurinhas que teimam em não sair sejam nossas companheiras, que nos lembram que nada é perfeito, nem eterno. Nem mesmo eu.

Desejo que mais pessoas possam viajar à Disney, a Buenos Aires ou a Paris. Mas também desejo que mais pessoas possam comer pelo menos uma refeição decente todos os dias. Desejo que mais pessoas possam comprar TVs Full-HD de LED e som surround. Mas também desejo que mais pessoas aprendam a ler e a somar.

Desejo que mais pessoas possam entrar no Facebook para encontrar gente querida que se perdeu pelo caminho. Mas também desejo que menos pessoas se percam pelo caminho, e que novas pessoas apareçam nele, sem que seja necessário o Facebook.

Desejo que finalmente os homens entendam que as mulheres adoram dançar, adoram filmes românticos e adoram que eles cozinhem - mesmo que fique ruim. E desejo que elas finalmente entendam que se eles não respondem a uma pergunta enquanto assistem à TV, não é porque não gostam delas, nem porque não prestam atenção. É só porque são homens, mesmo. Apenas homens.

Desejo que os filhos tenham menos vergonha dos pais e dos avós. E que os pais façam menos esforço para parecerem irmãos dos seus filhos.

Desejo um ano cheio de festas, música e fogos. Mas também cheio de silêncio e olhos fechados.

Desejo que mais gente recicle o lixo, que usemos menos detergente e que liguemos menos o carro para ir só até ali. Mas também desejo que menos energia seja gasta para transportar leite orgânico que vai ser armazenado em um freezer sem porta; ou gasta para construir bonecas descartáveis para crianças que as ganham no Natal e as esquecem antes do Ano Novo. Desejo que crianças sem brinquedo algum possam, magicamente, continuar a acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, graças à boa vontade de quem acha que nem tudo está perdido para elas. Nem para nós.

Desejo que os Maias e que Hollywood estejam errados, e que em 2012 não seja o fim dos tempos. E desejo que os fatalistas de plantão, vivinhos, arrumem uma nova data para o Apocalipse - de preferência uma data próxima, para podermos voltar a nos divertir com um novo engano. E desejo também que mais pessoas acreditem que o mundo, na verdade, não acaba; quem acaba somos nós - assim como as mais de 99% das espécies que viveram até hoje no planeta, e que estão extintas. A maioria delas, independetemente de nós - e do nosso suposto, mas equivocado, poder de alterar o curso da história e da vida.

Não me interessa quando será o fim do mundo. Não me interessa nem um pouco. Me interessa saber que, quando ele chegar, se ainda estivermos aqui, tenhamos feito o melhor que podíamos fazer. Com erros, é verdade, mas também com acertos. Os segundos, espero, em maior número e com maior importância do que os primeiros - em geral, fruto de decidir o que precisa ser decidido, e fazer o que precisa ser feito.

Feliz 2012.

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1. site Origam de Palavra - http://origemdapalavra.com.br/palavras/decisao/
2. site Origem da Palavra - http://origemdapalavra.com.br/palavras/passado/

domingo, 23 de outubro de 2011

Ame-me S.A.

"Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos a olhar por cima dela com o nosso telescópio."

Ludwig Tieck

Viagens são sempre fontes interessantes de inspiração, porque nelas podemos ver coisas que habitualmente não vemos em nosso, digamos, próprio ninho.

Recentemente, em mais uma viagem a trabalho para os EUA, me peguei folheando a revista de bordo da Continental Airlines, e vi anúncios que já haviam chamado minha atenção em outros voos (que continuo achando estranhíssimo escrever sem acento), mas que não vi em nenhum outro local: propaganda de... como definir?... agências de encontros para executivos, que pagam para serem entrevistados e terem seus perfis submetidos aos "matchmakers" profissionais, que agendam, então, encontros com pessoas que sejam perfeitamente adequadas às suas expectativas e (supostas) necessidades.

Havia vários anúncios de diferentes empresas especializadas neste serviço na mesma revista. Mas o que mais me chamou a atenção foi o de uma chamada "It's Just Lunch" ("É Só Um Almoço"), que chegou quase a falar em "Encontro Orientado a Resultados", com termos realmente ligados ao mundo dos negócios: "sucesso", "custo-benefício,  "maximizar", "pró-atividade", etc - referindo-se aos encontros que eles arranjam para quem acredita não ter tempo a perder.

Achei isto tão engraçado, quanto obtuso. Para poder atrair essas pessoas para relacionamentos, precisa-se empregar os únicos termos aos quais elas sabem prestar atenção, fruto de uma vida que se resume a trabalhar e mais nada. Talvez o público-alvo deste tipo de anúncio tenha tornado-se incapaz de pensar em relacionamentos humanos sem recorrer a estes mesmo paradigmas - os únicos que realmente domina.

Mas, além desta constatação um tanto quanto óbvia, acho que há mais um detalhe particularmente preocupante neste tipo de serviço, nas expectativas que ele se propõe a satisfazer e, principalmente, no tipo de público que ele demonstra existir: um batalhão de pessoas afetadas pelo que apelidei de "Síndrome de Eldorado" - o sonho do Príncipe Encantado, da Mulher dos Sonhos, da Terra Encantada. "Eu sei que meu tesouro existe em algum lugar. Então, por favor, ache o mapa e leve-me até lá voando de primeira classe. Acorde-me quando chegarmos".

Uma agência que detecta precisamente o que você quer - e nós sabemos como os gringos sabem ser metódicos neste tipo de análise - pode definir que você é uma pessoa alegre, que gosta de música e prefere mulheres com cabelos compridos e loiros, pele clara, de 1,65m a 1,70, entre 25-28 anos, com belas curvas, sem vícios, e que pretenda constituir família só depois dos 35 anos. Ok. Nada de errado. Essa é sua mulher dos sonhos. Mas, ao definir um perfil tão específico, podem excluir aquela morena magrinha, mais alta e mais velha que você, um pouco nariguda, que gosta mesmo é de acampar e não dá a mínima para que carro você tem - e que pode te fazer muito mais feliz do que a loira, mesmo sendo "matematicamente" menos compatível.

Será que o tal Eldorado não estaria demasiadamente definido para essas pessoas? Será que a vida amorosa não merece ser só um pouquinho mais, digamos, levada pela própria sorte, em vez de arranjada por alguém? Será que Freddie Mercury estava mesmo certo quando cantou "Can anybody find me somebody to looooooove?".

No fundo, acho que as pessoas que buscam este tipo de serviço procuram a própria imagem no espelho (talvez "Síndrome do Espelho, Espelho Meu" seja um nome melhor do que "Síndrome de Eldorado", não sei). Mas como será que se comportam ao perceberem que este reflexo idêntico de si mesmas talvez não exista, especialmente depois de sofrer as mudanças que o tempo inevitavelmente promove, no rosto e na alma?

A fase da paixão, em uma relação surgida por estes meios, deve ser ótima: uma sucessão de "Nossa, como somos parecidos! É incrível!". A fase da paixão é aquela em que o casal deseja ser uma coisa só; a paixão funde as pessoas. O que você quer, eu quero. Do que você gosta, eu gosto. O que é você, sou eu.

Quando comecei a namorar minha esposa, ela comprou 3 CDs de artistas que estávamos descobrindo juntos: Loreena McKennit, David Lanz e Ottmar Liebert. No dia seguinte, eu fui lá e comprei os mesmos 3 CDs para mim. Eu queria ouvir exatamente o mesmo que ela estivesse ouvindo. Estávamos, ainda, na fase de "ser uma coisa só". Tolo, eu sei. Verdadeiro, mesmo assim.

Mas, depois que a paixão passa - e ela passa - o casal não tem mais necessidade de ser uma entidade única e indivisível. O amor é mais tolerante, mais plural e mais generoso, e permite que as pessoas voltem a ter suas próprias individualidades. Um gosta mais de comédia romântica, o outro, mais de filmes de arte. Um resolve assistir ao jogo no domingo à tarde, o outro vai ler um livro. Um decide que precisa emagrecer uns quilinhos, o outro vai malhar para ganhar massa muscular. Hoje, eu e minha esposa ouvimos músicas bem diferentes. Voltamos a ser 2 pessoas, em vez de uma única "entidade passional".

Como será este processo nestas relações que partem do pressuposto que a compatibilidade é total, perfeita e, por isso, eterna? Como será para eles se depararem com o "Péra aí! Como assim você não é exatamente igual a mim?!". Imagino que seja mais difícil do que para o resto das pessoas, cujas relações nascem de formas mais convencionais, menos meticulosamente planejadas e, supostamente, menos talhadas à perfeição.

Sinceramente, não acredito em destino, em alma-gêmea, nem em "feitos-um-para-o-outro-para-toda-a-eternidade". Mário Quintana certa vez escreveu que "O destino é o acaso atacado de mania de grandeza". Concordo. Acreditar que "o que tiver que ser será" de uma certa forma nos exime de qualquer responsabilidade pelas decisões, pelos acertos e pelos erros da vida e de suas relações. Me parece confortável demais... Acredito, isto sim, em relações em que a decisão de se permanecer junto é renovada, dia após dia, não por "estar escrita para ser assim", nem por ser perfeita, mas por valer a pena, por ser feliz.

Não, Eldorado não existe. O que existem são dias de claro e dias de escuro, dias de fome e de excesso, de risos e de lágrimas, de gritos e de sussuros. Dias alegres e dias tristes. Acredito que é na linha fina e sutil entre estes dias que a felicidade se equilibra.

O homem bonito, sensível, romântico, bem-sucedido, bom amante, bom pai, esportista, que adora dançar e cozinhar, alegre e afetuoso, existe, sim. E também existe a mulher linda, atraente, inteligente, engraçada, sedutora e dedicada. Mas ele tem chulé, e ela ronca - o que não os impede, em absoluto, de serem felizes juntos, mesmo que não tenham precisado de alguém para agendar a entrada de um na vida do outro, pontualmente às 12h15, para um almoço com hora certa para acabar.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ensaio Sobre a Saudade

Para a nossa pequena Schatzi, que nos deixou olhando nos olhos de Deus


Confesso: tomo refrigerante todos os dias. Sou praticamente uma formiga bípede (tá... com alguns quilinhos a mais) e adoro qualquer coisa que seja doce. Mas, pelo menos, tomo refri diet - o que, espero, torne meu pecado mais light. Mas não é comum eu tomar guaraná. Gosto, gosto bastante. Mas, às vezes, simplesmente me esqueço dele, e fico meses sem tomar.

Escrevo este texto no início de um voo (é tão estranho escrever "voo" sem acento, né?) entre Nova Iorque ("Iorque" também é estranho) e Los Angeles, numa linda manhã de sábado, no recém-iniciado outono no hemisfério norte. E, aqui, numa companhia aérea americana, em que qualquer coisa sólida é servida por uma aeromoça apenas razoavelmente cortês, mediante pagamento com cartão de crédito, resolvi apenas beber alguma coisa. E me deu vontade de beber o quê? Guaraná. É claro que não há. Tomei, então, suco de maçã, que, ironicamente, percebo agora ter a mesma cor.

Já tive este desejo outras vezes, especialmente quando retorno de viagens internacionais. Passo meses sem tomar guaraná na minha terra, mas fico uma semana entre os gringos, e volto sedento. E, depois de saciado, passo meses de novo sem tomar.

Isso me faz pensar sobre o marido que trabalha em outro estado, e só vê a família aos finais de semana. Ele passa a semana fora, mas está com a cabeça em casa, na mulher e nos filhos. Aí, sexta à noite, ele chega finalmente em casa. Mata a saudade por 30 minutos durante o jantar, e como sobremesa, vai passar 1 hora no Facebook, ou jogando vídeo-game, ou lendo um livro - sem a mulher e sem os filhos, nos quais pensou a semana toda.

Ou, ainda, imagino a adolescente que foi passar o feriadão com os amigos e volta com saudades da mãe. Mas, no momento em que pisa no "Bem Vindo" desbotado, escrito no tapetinho que fica na porta de entrada de casa, se lembra de como acha sua mãe brega e como ela pega no seu pé por pequenas coisas. E não diz a ela o que pensou no sábado à noite, logo antes de adormecer: "Estou com saudades da minha mãe".

Por que será que essas coisas acontecem? Por que será que as urgências da saudade se dissolvem quando voltamos a ter ao alcance das mãos aquilo que a desperta? Acho que é porque a saudade pressupõe ausência. Em geral, não se sente saudades daquilo que se tem. Ninguém sente fome de barriga cheia. Ninguém boceja depois que já adormeceu. Sente-se saudades daquilo que não há - ou uma saudade antecipada daquilo que não haverá em breve.

É por isto que eu valorizo os momentos de ausência. Não, não quero estar longe das pessoas e coisas que gosto. Mas, quando a ausência delas é inevitável - aqui no avião, por exemplo - aproveito para pensar no quão importante são. Esta é a parte fácil. O difícil é, no dia-a-dia, de volta à rotina, mostrar a elas com todas as letras e cores, o valor que têm - e ouvir delas o porquê de sentirem saudades de mim, também.

Há situações, no entanto, em que "mostrar e ver" as saudades, são coisas impossíveis de se fazer. Este é o maior de todos os meus medos, e uma ideia com a qual lido terrivelmente mal: o medo da saudade final; a saudade definitiva; a saudade daquilo que não volta nunca mais; a morte (dos outros, não a minha). Sou completamente despreparado e covarde para isto. Porque a saudade, não se pode evitar. Você pode evitar a raiva, a alegria, o tesão, o medo (ou suas causas), o prazer. Mas não conseguirá fugir da saudade daquilo que ama.

Vi meu avô Conde pela última vez nas Festas de 1998. Ele tinha Alzheimer, e certamente já não sabia quem eu era. Mas me abraçou, longamente, enquanto eu chorava aquela tal saudade antecipada - porque sabia que não voltaria a passar um Natal com ele, morando eu tão longe. Ele veio a falecer alguns anos depois. Até hoje, sonho com ele de vez em quando e acordo sempre chorando, não mais a saudade antecipada, mas agora a palpável saudade insolúvel.

Mas há também um outro tipo de saudade: a que acontece na presença. Aquela que a mulher sente do marido de quando ele pesava 15 quilos menos, jantava com a TV desligada e voltava para casa trazendo flores, na noite de uma quarta-feira chuvosa. Ou a saudade que ele sente da época em que ela o desejava incondicionalmente, a qualquer hora, e não só entre as 23h45 e 23h57 dos dias pares de lua minguante, em meses de 31 dias de anos bissextos, com temperatura entre 22 e 26 graus, em condições ideais de pressão e temperatura. Continuam juntos, se veem, mas um sente falta da pessoa que o outro um dia foi. Cruel, real e, talvez, um tanto egoísta... Porque é fácil apontar no outro o que ele já não é mais, sem perceber em si próprio o que também há tempos não existe.

É... mas, no fundo, embora esteja presente a pessoa, neste caso a saudade continua sendo daquilo que ela deixou de ser. Aqui também há ausência. Me contradigo, portanto: esse negócio de "saudade na presença", acho que não existe, não. Saudade é mesmo na ausência, ou na antecipação dela.

É... é realmente impossível tentar evitar as saudades, que tanto temo. Esta é uma luta perdida antes mesmo de começar. A beleza provavelmente está em viver momentos memoráveis - ainda que triviais - com pessoas especiais, que tornem a saudade não apenas inevitável, mas preenchedora do vazio que a motiva. Como uma música que termina, mas continua tocando na alma. Ou, então, que a saudade seja propulsora de um movimento que a satisfaça, que a cure, se isto for possível. Como um instrumento que ainda se possa tocar, para em seguida renovar as saudades, quando a música voltar a acabar.

Rubem Alves, em seu livro "O Deus que Conheço", diz que "Deus mora no espaço entre as pessoas que se amam". Nunca ouvi uma definição melhor de Deus do que esta. Quem sabe, portanto, sentir saudades de alguém, seja, na verdade, olhar nos olhos de Deus, com a certeza de que a vida teve algum significado maior.

Já cheguei a Los Angeles. E, muito triste e curiosamente, enquanto pensava no encerramento para este texto que fala de saudades, acabei de receber por telefone a notícia de que minha cachorrinha morreu. Schatzi era o seu nome. Quer dizer "tesourinho", "queridinha", em alemão - um nome perfeito para ela. Estava velhinha, mas saudável. Morreu sozinha, dentro de casa, sem que saiba-se dizer o porquê.


A Schaschá, como costumávamos chamá-la (ou Schacão, como eu chamava quando queria sacaneá-la), é o típico exemplo de "amor que eu devia ter demonstrado em vida". Sempre gostei dela, mas descobri-me alérgico aos seus pelos, e mantive dela uma certa distância física. Brincava, cantava músicas e a atazanava, escondendo bolachas nos meus bolsos e pela casa, para que ela as encontrasse... Mas a afaguei muito menos do que ela gostaria e merecia. E agora, na hora da saudade definitiva e insolúvel, é tarde demais. Seu pelo macio, que acariciei longamente há exatamente uma semana, como há muito não fazia, agora ficará só lembrança, acompanhada de uma sensação incômoda de que eu talvez pudesse tê-la feito um pouco mais feliz todos os dias.

Mesmo assim, a Schaschá sempre me adorou. Muito mais do que mereci. E agora, nos deixou aqui, com saudades, olhando nos olhos de Deus. Ela, e imagino que também quase todos os cãezinhos que existiram, mesmo merecendo donos melhores do que fomos capazes de ser, nos amaram nos limites de seus coraçõezinhos. Que belo jeito de se viver: amando incondicionalmente.

Desculpe-me por não estar lá com você, Schaschá. Desculpe-me por ter saído de viagem correndo, sem nem me despedir de você. Desculpe-me por tudo o que eu podia ter feito e não fiz. E obrigado por ter sido tão... tão você, minha amiguinha querida. Você sinceramente não poderia ter sido melhor do que foi. Te encontraremos em sonhos, e é provável que choremos quando isto acontecer. Será sinal de que você permanece viva em nós. A isto, chamamos Saudade.






terça-feira, 20 de setembro de 2011

O que nem precisa ser dito

Gosto mesmo daquilo que é sugerido, que está oculto nas entrelinhas, levemente indecifrável. Admiro os artistas que têm a capacidade de sugerir, mais do que explicar ou detalhar minunciosamente. Gosto daqueles que conseguem propor um tema e, generosamente, permitem que seu interlocutor - seja ele leitor, ouvinte ou espectador - vá além, pense, elabore ou recrie livremente.

Quem nunca se pegou cantarolando o Canon de Pachelbel? Tá, você pode até não lembrar agora... Mas se ouvir - e tenho certeza de que já o fez alguma vez na vida - vai se lembrar. E quantos "improvisos sobre o tema", tão incríveis quanto o original, surgiram depois? De interpretações sóbrias e belas de David Lanz e Rick Wakeman, a surpreendentes, viscerais e vigorosas, gravadas com webcams e divulgadas via YouTube, de Trace Bundy, JerryC e Mattrach.

Não sei dizer se Pachelbel e outros autores deste tipo de obra, que convida à recriação, o fazem de forma intencional, ou se têm consciência de que estão sugerindo, em vez de explicar minunciosamente o que desejam retratar - e que, exatamente por isto, as tornam tão especiais e tão aptas a receberem recriações.

Dá pra escrever um livro inteiro tendo como base só um verso de música: "Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu", de Chico Buarque, ou "Quantas canções que você não cantava, hoje assobia pra sobreviver?", de Oswaldo Montegro. É aquele tipo de música que, quando acaba, você se pega com o olhar perdido, pensando em tudo o que ela disse, mesmo sem ter dito tudo. Ou então, aquela cena de "Central do Brasil" em que Fernanda Montenegro chora em silêncio, enquanto olha pela janela do ônibus para a aridez do sertão e daquelas vidas. Quanta coisa se diz naquela cena, sem uma palavra sequer?

Recentemente fui ao MASP com minha família. Lá ficamos por várias horas, olhando atentamente diversas obras, de grandes artistas. Algumas, com mais de 500 anos, de nomes internacionalmente famosos.

Mas foi uma delas, justamente de um artista do qual nunca tinha ouvido falar, Gregório Gruber, que mais me chamou a atenção naquele dia. Ao contrário das mais famosas, que mostravam retratos meticulosamente feitos à perfeição, esta mostra uma cena simples, em que não se enxerga os rostos dos retratados. Um visual quase voyeurista de um casal na cama, em silêncio, à luz da manhã.

Que título você daria a esta imagem?
Obra de Gregório Gruber, 1977


Antes de ver o nome da obra, fiquei me perguntando qual título eu teria dado a ela. Sondei minha esposa e descobri que ela teria dado um título totalmente diferente do meu. E provavelmente outras 100 pessoas teriam dado outros 100 nomes, exatamente porque aquela imagem não descreve nada nos mínimos detalhes; apenas mostra um fragmento de tempo, que convida quem o vê a imaginar o antes e o depois, se assim desejar.


Me peguei também pensando que outras cenas poderiam ter este efeito. Talvez os olhos opacos e alegres de um idoso que ri atrasado de uma piada? Ou uma bela moça olhando-se no espelho pela primeira vez após cortar os longos cabelos, deixando o colo à mostra, talvez por não ter nada a esconder - ou não querer que acreditem que tem? Ou então um jovem rapaz com o cenho franzido, lendo um livro sentado sozinho à mesa de um restaurante vazio? Ou o rosto travesso de uma criança lambendo os dedos gordinhos lambuzados de chocolate, roubado da cobertura de um bolo ainda quente?

Acho particularmente perceptível esta sensação quando escuto certos instrumentos musicais. Poucas coisas são mais singelas e ao mesmo tempo tão preenchidas de significado quanto uma nota grave e longa em um cello, ou o som de uma gaita de fole, que parece carregar milênios de história em cada sopro, ou o introspectivo e indecifrável som do duduk, uma espécie de flauta de origem armênia, que não se escuta normalmente em rádios com músicas tão sutis quanto o bate-estacas de um prédio em construção no sábado pela manhã. Nah! A eloquência, meus amigos, está nas nuances, no que não é completa e facilmente decifrável.

Apesar de apreciar o poder da sugestão e das sutilezas, nunca fui bom nisto, devo confessar. E, para falar a verdade, há uma área em que faço questão de evitá-la por completo: no compo profissional. No trabalho, sim, sou direto. Sim, sou explicativo. Podem dizer que falo ou explico demais; mas não podem me acusar de não ter trocado as informações de que preciso, ou que sei que os outros precisam.

Recentemente participei de um evento, no Rio de Janeiro, em que o palestrante era um gringo, o presidente mundial universal mega power blaster de uma grande multinacional. Todos estressados, para que tudo saísse bem. Ok, é de se compreender. Desde a véspera, perguntavam-se: "Ele vai ter algum PowerPoint?". Esta informação era importante, para saberem se seria necessário providenciar tela, projetor, notebook, controle remoto e blá, blá, blá. "Não sabemos. Então, vamos trabalhar como se tivesse. Amanhã, quando ele chegar, teremos a confirmação". Tá certo.

Como ele chegou e não entregou nenhum pen drive a ninguém, deduziu-se: "Não haverá PowerPoint". Desmonta-se tudo, faltando 5 minutos para começar o evento. Ele sobe ao palco. "Bom dia a todos. Hoje vou falar com vocês sobre blá, blá, blá. Vamos ver o PowerPoint agora?". Enviou-se, então, um e-mail para a assistente do cara, a meio mundo e 4 fusos horários de distância, para pedir o tal PowerPoint, que possivelmente estava com ele o tempo todo.

Como eu não tinha nada a ver com a história, nem me estressei. Apenas ri. Não seria mais fácil alguém da equipe dele chegar e simplesmente perguntar "Amigão, você vai ou não usar um PowerPoint?". Será que ele se incomodaria tanto assim de responder a uma pergunta tão incrivelmente simples? Por quê tanto medo de se comunicar?

Adoro sutilezas. Adoro. Mas, como adultos, precisamos saber quando utilizá-las e apreciá-las e quando evitá-las por completo. Elas são bem vindas quando se ouve um cello de olhos fechados, quando se quer deixar algo nas entrelinhas para que alguém capte e sorria em silêncio, ou quando uma mulher opta por um decote muito discreto, sugerindo sem escancarar. Mas há situações - e o patético episódio com o presidente super hiper mega no Rio de Janeiro foi um claro exemplo disso - em que não há espaços para sutilezas, nem dúvidas de qualquer tipo.

Saber quando e como se utilizar destas sutilizas é o que torna certas pessoas mais ou menos interessantes. Ou mais ou menos estúpidas - em horário comercial ou fora dele.

Em tempo: o título original da imagem de Gregório Gruber é "O Casal". Simples assim. Talvez exatamente para que seu olhar fique livre o suficiente para criar sobre ela um título completamente diferente do meu.




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Meus Ipês Amarelos - para os Palhaços Graças a Deus


"Há memórias que moram na cabeça, muito úteis. 
Essas memórias não doem, são informações que levamos no bolso, ferramentas.
 Mas há outras memórias que moram no coração, são parte da gente."  
   
Rubem Alves  

    
É absolutamente verdade que as histórias dependem do olho do seu narrador. Isto vale aqui, especialmente considerando que ele as viveu em primeira pessoa. Perdoem-me aqueles que viveram estas mesmas histórias e têm delas visões diferentes. E perdoem-me também se os anos apagaram alguns dos detalhes importantes ou tornaram mais vistosos alguns que talvez tenham sido apenas embelezados pela moldura da saudade. Mas é exatamente assim que um garoto, já crescido, vê 3 dos melhores anos que viveu.

Na primavera de exatos 20 anos atrás, com os Ipês Amarelos em plena floração, um garoto magro de voz engraçada estreou em sua primeira peça teatral no Grupo de Teatro Palhaços Graças a Deus. Este texto homenageia um pouco desta história e de seus personagens, que tanto o marcaram. E, humildemente, fala sobre o orgulho de fazer parte dela...



O ano é 1988 e o garoto acaba de chegar à 5a. série. Sempre foi meio lerdo pela manhã, mas daqui em diante não há mais jeito: não poderá mais estudar à tarde. É inevitável ter que estudar justamente no período do dia em que seu cérebro é tão ágil quanto uma ameba em coma.

No segundo dia de aula, uma professora de cabelos curtos e loiros entra na sala e escreve na lousa seu nome e sobrenome, com mais consoantes consecutivas do que ele está acostumado a ver. Ela diz qual será a matéria que irá ministrar: Arte Dramática. "Que raios é Arte Dramática?!".

Passam-se alguns dias, e o garoto sobe ao palco pela primeira vez. Não sente nada de especial. Na verdade, sente-se meio estranho, porque a atividade consiste em, bem, consiste em não fazer nada. Apenas ficar lá, em pé, raspando levemente as pontas dos dedos umas nas outras, para acalmar, para manter-se "à vontade", enquanto se é observado pelos colegas de classe. Enquanto isso, deve transferir periodicamente o peso de uma perna para outra, para uma e para outra. Um "não fazer nada" bastante desconfortável para um garoto prestes a fazer 11 anos, sob os olhares dos colegas de classe, na mesma situação.

Na aula seguinte, triangulação de palco: imaginar o palco como um barco, e dispor os elementos (pessoas inclusas na categoria) de forma a equilibrá-los em cena, para que o barco não afunde. Tarefa de casa: desenhar alguns exemplo de triangulação usando 3, 4, 5, 6 elementos.

Ele a faz às pressas, em uma folha de caderno. Arranca-a e entrega à professora, mas é repreendido: ela não acha adequada uma tarefa feita em uma folha arrancada, cheia daquelas rebarbas na borda do papel. Ele, com toda a extraordinária bagagem intelectual de um menino de 11 anos, já tem o veredito: "Este curso será estranho".

1990. Dois anos se passam e, com eles, muitas aulas de Artes Dramáticas. Ele nunca detestara as aulas até ali, mas também nunca morrera de amores. Com o passar do tempo, e depois de assistir às peças feitas pelos "grandes" do colegial, subir ao palco havia se tornado, digamos, curioso. Apenas curioso.

Particularmente curiosa é também sua voz. Na verdade, curioso é o descompasso entre seu corpo de adolescente, magro e desajeitado, e sua voz, já de um homem adulto. Os colegas brincam, sem maldade, imitando-o. E ele gosta daquela atenção.

A professora de Arte Dramática é agora também sua professora de Português. Exigente e desafiadora como é, passa a demandar da 7a. série muitas coisas com as quais não estão acostumados. E, com o passar dos meses, o garoto, agora com 13 anos, descobre ter certa facilidade para escrever. Os desafios impostos pela professora, em vez de afastá-los, começa a aproximá-los.

O quebra-cabeças começa a fazer sentido: as palavras, que ele está aprendendo a moldar a seu próprio estilo, viram peças úteis no curso de Arte Dramática. E, quando se apercebe disto, ele passa a se interessar também pelas não-palavras, pelas expressões, as posturas e as ações, e o que elas representam, sem serem ditas.

A peça do final de ano, montada com todos os alunos da 7a série, é sua última "obrigação" com o teatro, já que no ano seguinte não há mais o curso de Arte Dramática. Durante a peça, ele participa de uma cena, durante poucos segundos, no papel de um padre, à frente de uma procissão, em absoluto silêncio. Uma música fúnebre os acompanha, enquanto a procissão simplesmente atravessa o palco, de uma coxia à outra. Alguns colegas ficam na coxia "de chegada" fazendo palhaçadas, para que se desconcentrem e riam. Ele não ri. E, ali, orgulhoso pelo simples fato de ter conseguido não rir, percebe que quer continuar a fazer teatro por mais algum tempo. O curioso curso de Arte Dramática definitivamente virou prazer, e o garoto quer mais. Quer muito.

1991. O garoto, já na 8a série e prestes a fazer 14 anos, entra, finalmente, no Palhaços Graças a Deus.

Dia do batismo. É o dia em que se deixa de ser simplesmente um calouro, para virar um Palhaço, para sempre. Pelo menos, é o que dizem os veteranos, com ar solene (que o garoto viria a reproduzir no anos seguintes, exatamente como os que o antecederam).

Batismo de 1992. Clique na imagem para ampliar.
 
São muitos minutos de uma deliciosa ansiedade, enquanto tem o seu rosto maquiado, vendo a maquiagem dos outros, mas sem ver a sua própria. E que sussurros e risadinhas são aqueles dos veteranos? O que será que estão tramando? Como será que escolheram os nomes de palhaço para cada pessoa? E, caramba, que nome será que vai receber?

Ele não espera muito, porque é o primeiro a ser batizado. As palhaças Fantasia e Coxia o chamam ao palco e ele pode finalmente ver sua maquiagem no espelho: uma partitura estilizada. Seu nome de Palhaço: Pavarotti. Um reconhecimento "oficial" àquela curiosa voz de adulto no corpo de garoto. E que orgulho! Uma sensação extraordinária que, ele sabe, não irá se repetir de novo. Ele é, oficialmente, um Palhaço a partir de agora. O que ele não sabe, ainda, é que se lembrará disso todos os dias dali em diante, pelos 20 anos seguintes.

Neste ano de 1991, é a primeira vez que o grupo divide-se em dois, para fazer duas montagens distintas: o infanto-juvenil "Cavalinho Azul", e o adulto "Filme Triste", numa clara demonstração de feeling apurado das diretoras, que antecipam a tendência de "revival" dos anos 60, que só iria se manifestar alguns meses depois, em todo o Brasil. O garoto faz parte da montagem de "Filme Triste": um grupo de rapazes e moças dos anos 60 e suas preocupações inocentes com estudos, namoro, paqueras, curtições, e ao mesmo tempo, uma inexplicável e inapropriada alienação quanto à turbulência política do país naquele momento.

O garoto sempre foi um rapaz bastante reservado. Não exatamente tímido, mas reservado. Nunca foi o centro das atenções, nem buscou ser. Não é feio, nem bonito. É simplesmente normal. Mas, para "Filme Triste", ele recebe o papel de Mário Jorge, o namorador da peça. Nada a ver com seu jeito reservado... mas como não adorar aquela situação e aquela badalação toda? Seu apelido nos ensaios vira MJ (caprichosamente pronunciado em inglês: "ÉM-DJEI"). Ele adora!

Que fascinante o processo de montagem de uma peça teatral! A criação das cenas, os textos, os personagens e as personalidades que vão se moldando, a agitação e o senso de realização...

Especial é também o momento da chegada do figurino e da caracterização: os vestidos coloridos e alegres para as meninas, suas maquiagens com olho de gatinha, as calças justas de tergal dos meninos e as gravatinhas azuis, que eram parte do uniforme escolar na época representada pela peça. Tudo pronto para a estreia! A expectativa e a energia são indescritíveis e palpáveis como um presente embrulhado, que ainda não se pode abrir.

Elenco de "Filme Triste", 1991. Clique na imagem para ampliar.


Entre os meninos, surge (ou talvez já viesse de anos anteriores) o grito "THUNDER-THUNDER-THUNDERCASTS - UOOOOOUU!": uma brincadeira com o desenho animado da infância deles, e que dá àquele grupo de rapazes a sensação de união, de pertencerem a algo único e especial - o que é particularmente forte naquela peça, em que os garotos atuam quase o tempo todo juntos.

Finalmente, a estreia, a concentração e o delicioso nervosismo, perceptível nos olhos arregalados, nos sorrisos ansiosos e nas mãos geladas que se apertam com força, minutos antes do espetáculo. É uma sensação mágica e poderosa de pertencer a um grupo de pessoas que estão ali, de corpo e alma, e que não trocariam aquela experiência por nada no mundo.

Na estreia, o tal garoto esquece-se de uma cena, em que estariam só o seu personagem, Mário Jorge, e a Madalena, interpretada pela bela palhaça Dama da Noite, com sua voz tão peculiar. Mas ele simplesmente se esquece de entrar em cena e ela fica lá vários segundos, esperando-o chegar. No final das contas, chamado às pressas pelos colegas, ele entra e a cena acontece. Ele se desculpa com ela depois e promete a si mesmo que não iria mais deixar aquilo acontecer, perfeccionista como é.

Curiosamente, o garoto guarda o manuscrito daquela cena, com a letra inconfundível da diretora que escrevia com uma Mont Blanc bico de pena preta, que não emprestava a absolutamente ninguém. Encontrá-lo, 20 anos depois, numa caixa de recordações apelidada de "Slices of Life" ("Pedacinhos de Vida"), foi um dos fatores que o motivaram a narrar o presente texto.

Cena de "Filme Triste" (1991), na caligrafia da palhaça Fantasia. Clique na imagem para ampliar

Mas, voltemos a 1991. Foram muitas apresentações, inclusive no TUCA, e até adaptações-relâmpago para uma versão "teatro de arena", realizada em uma escola pública. Um total de quase 20 apresentações, em cujos talentos e esforços de seus amigos Palhaços o encantam: as cenas de baile, as cenas de beijo que despertavam pontinhas de inveja nos garotos (Sulceneide, Sulceneide!!!) e um impecável e emocionante monólogo de encerramento da palhaça Rubrica Perneira, cujos expressivos e diretos olhos azuis choravam com a verdade das grandes atrizes, seguido por "Carcará", na voz de Maria Bethânia.

São muitos aplausos, muitos sorrisos e uma sensação de alegria diferente de tudo o que já sentiu.

Embora no dia-a-dia o garoto seja (ou acredite ser) o mesmo, está inegavelmente fascinado com os aplausos. Recebe cartinhas de "admiradoras", brincadeiras e namora uma de suas "paqueras", na peça: a palhaça Cambalhota, um ano mais velha que ele. As cartas de Anita, sua personagem, para Mario Jorge, escritas e assinadas como se fossem de 1962, faziam parte do texto original da peça, mas nunca chegaram ao palco na montagem final do Palhaços. Ainda assim, tornaram-se lembranças incríveis do processo de criação da peça - e do vínculo que se esboçava, além dela. O garoto reservado, caramba, agora namora uma menina do colegial, cara!!!!


O garoto não cabe em si. E é devidamente alertado por algumas pessoas próximas, como a palhaça Fofucha, em uma carta pessoal, que está lá, também na caixinha, guardada: "não misture as bolas, não se encante demais consigo mesmo. O excesso de auto-confiança poderá decepcioná-lo, no futuro". Isto vem, sim, a fazer sentido para ele, alguns anos depois. Ele nunca teve a chance de agradecê-la pelos conselhos e pela verdade neles contida, mas lembrou-se muito deles em sua vida adulta.

Mas, por enquanto, não. O sucesso da peça e o sentimento de ter sido visto - ainda que muito mais pelo papel que recebeu, do que exatamente pela sua performance - o enchem de alegria, assim como o orgulho decorrente de uma nítida sensação de um vínculo especial, de respeito, admiração e carinho mútuos, com algumas das pessoas que mais influenciariam sua vida.

Termina o ano de 1991 e começa o igualmente fascinante ano de 1992. É neste ano (veio a saber o garoto só em 2010) que surge o grito de "SEXO" das meninas, para "competir" com o "THUNDERCATS", dos meninos. Soa bobinho, assim, por escrito, mas é engraçadíssimo. Especialmente quando se tem 15 anos...

A diretora acredita que o grupo, entrando no seu 12o. ano de existência, está pronto para um clássico: "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. A peça é montada inteiramente com músicas de Chico Buarque.

Montar "Romeu e Julieta" revela-se um desafio em um grupo de teatro-escola, amador, com 20 e poucas pessoas, em que a existência de protagonistas é uma tema delicado e potencialmente espinhoso.

A solução encontrada é criativa e nobre, com vários Romeus e várias Julietas. Seriam diferentes "romances proibidos": um (espetacular) casal de idosos, um belo e muito elegantemente conduzido casal formado por um aluno e uma professora, e o "original", com os filhos das famílias Capuleto e Montecchio. Na verdade, após a publicação deste texto, o palhaço Pluft, que entrara no grupo naquele ano de 1992, lembrou este autor que havia ainda um quarto casal, com um Romeu tímido (o próprio Pluft) e uma Julieta extrovertida. A memória infelizmente não lhes permitiu resgatar quem era exatamente aquela Julieta.

Pavarotti tem a felicidade de ser escolhido Romeu Montecchio. Como Julieta, é escolhida a palhaça Colombina. Só que, sem que saibam exatamente o porquê, o casal no início dos ensaios mostra não ter grande afinidade. Nunca brigaram, nunca discutiram... mas existe entre eles uma certa distância tola e inexplicável - talvez por serem mais parecidos um com o outro do que estão dispostos a admitir - e não muito interessante para um par que deve ser romântico e parecer apaixonado.

Em um desses ensaios, na clássica cena do balcão, realizada nos recém-instalados praticáveis nas laterais do teatro, Julieta falava ao vento sobre sua paixão secreta por Romeu, enquanto ele ouvia às escondidas, para em seguida declarar-se a ela também. No final da cena, o casal se abraça apaixonadamente. Ou, melhor dizendo, deveria se abraçar apaixonadamente. Mas a distância entre os atores é tão visível quanto engraçada. A diretora, divertindo-se com a situação os "ensina" a abraçar:

- Abracem direito, com o corpo todo! Não é só passar os braços! Encostem-se! Assim, ó!

E apertava os dois.

- Abracem-se de verdade! Vocês estão apaixonados, caramba! Vocês não precisam se amar fora daqui, não. Mas devem nos convencer no palco! Devem ser capazes de olhar apaixonadamente para um prego, se precisar!

Sobe ao palco e olha apaixonadamente para um prego na parede.

- Agora, tratem de se apaixonar!

Demora, mas o abraço sai. E, depois da estreia, já na temporada de apresentações, durante a cena do balcão, diversas vezes o garoto se pega admirando a naturalidade com que sua parceira atua e a beleza viva e delicada que imprime à personagem - embora nunca tenha tido a chance de dizer isto a ela, com todas as letras.

Como de hábito ao final dos espetáculos, os atores, no proscênio, conversam com a plateia sobre a peça, sobre o que acharam, do que gostaram, ou não gostaram, o que têm a perguntar. Em uma dessas ocasiões, uma jovem senhora, sorrindo, pede a palavra:

- Posso fazer só uma pergutinha?
Faz alguns segundos de silêncio, mantém o sorriso, e diz:
- Posso levar o Romeu e a Julieta para casa?

O teatro todo a acompanha no sorriso e solta um sonoro "Oooooooh" (de "Ó, que fofo!"). Pavarotti e Colombina se olham e, sem que precisem dizer nada, sabem que aquilo tudo funcionou. A aproximação entre os dois nunca viria a acontecer fora dos palcos. Mas existia, sim, uma química curiosa e inegável, que parecia funcionar em cena e que, muito provavelmente, fosse motivo de orgulho e satisfação para ela tanto quanto era para ele.

O garoto lamenta nunca ter podido assistir à cena do enterro de Julieta, nem mesmo em ensaios - pois sempre estave na coxia, esperando para entrar na cena da qual participaria, logo em seguida. Mas ele lembra-se de ouvir pessoas queridas mencionando que aquela era uma das cenas mais lindas que o grupo já havia apresentado em sua história. Recorda-se apenas da luminosidade bruxuleante das tochas, que sentia na coxia, e do réquien solene e alto... mas isto é tudo. O resto desta cena, para ele, só existe em imaginação, porque nunca a pode ver por completo, assim como Julieta, que nela sempre esteve de olhos fechados.

1993, Anarquistas Graças a Deus. Em oposição ao ano anterior, nesta peça há uma grande família, em dose dupla: o casal de pais, a pajem, os vários filhos, em 2 grupos distintos, que atuam alterando-se entre as cenas. Ambos os grupos, infantil e adulto, montam a mesma peça, e o sortudo garoto tem a honra de poder participar de ambas as montagens, que trazem muitos personagens e muitos novos talentos - certamente alguns dos maiores da história do grupo, em todas as épocas.

A sensação do garoto, agora com 16 anos, é diferente do que fora até ali; uma felicidade intensa, só que mais serena. Como uma paixão que vira amor. A ansiedade sobre o processo de elaboração da peça é menor, talvez por já conhecê-lo dos anos anteriores e por saber que o processo como um todo, e não simplesmente o seu fim, é o que torna tudo tão incrivelmente extraordinário.

Além do mais, sabendo que é o seu último ano no grupo, pensar sobre o fim é exatamente a última coisa que ele deseja fazer...

Os figurinos são - como dizer? - cor de chá. São sépia; cor de fotografia tirada no início do século XX - exatamente a época retratada pela peça.

O garoto interpreta Ernesto, o pai da família Gattai, desta vez alterando a voz, para torná-la um tanto rouca e parecer de um homem de mais idade, com seu sotaque ítalo-brasileiro de meia tigela, mas desempenhado da maneira mais sincera que lhe foi possível fazer.

"Anarquistas Graças a Deus" é uma peça sóbria, mas com várias situações cômicas - talvez mais pelos atores que a interpretaram do que pelo tom do texto. E o garoto lembra-se bem de algumas dessas passagens, apreciadas à época pelo gosto antecipado da saudade iminente que, ele sabia, viria a sentir quando a temporada acabasse.

Em uma cena, em que ele faz o seu próprio genro (?! - coisas de Fantasia...), ele curiosamente é de novo par da mesma palhaça que fez Julieta no ano anterior. Ele a pede em casamento aos sogros, interpretados pela impagável e hilária palhaça Fanikito e um acolhedor e naturalíssimo Chicabon. É simplesmente impossível fazer a cena sem rir, sem se desconcentrar. Depois de algumas vezes, o garoto simplesmente desiste de tentar. O casal de sogros rouba a cena de tal forma, que ele sabe que pode rir sem medo: não existe a menor chance de alguém estar prestando atenção nele. E, mesmo que estejam, veriam o mesmo que em todas as outras pessoas, no palco ou fora dele: risadas.

Há também uma outra passagem curiosa. Passam-se alguns dias da estreia da peça e o garoto está envolvido com a palhaça Xantili (assim mesmo, com X e I no final). Mas, oficialmente, ainda não estão namorando.

Em uma das cenas, Xantili faz uma rica e severa mulher, que inspeciona alguns candidatos para o emprego de motorista. O garoto, Pavarotti, é um deles, e lembra-se que ela dizia mais ou menos assim:

- Eu sou uma mulher fina! E meu motorista deve ter aparência impecável! Deve andar arrumado, perfumado e barbeado!

Os homens, perfilados, ouvem em silêncio.

- E devem ter a mãos e as unhas perfeitamente limpas para trabalhar no meu carro! Limpíssimas, ouviram bem? Deixem-me ver suas mãos!

Os homens mostram as mãos e ela inspeciona, esbravejando e resmungando. Olha primeiro as unhas, em seguida as palmas, de cada um.

Chega a vez do garoto e ela vê suas unhas. Ao virar suas mãos, lê a mensagem secretamente escrita em suas palmas: "Quer namorar comigo?". Ela arregala os olhos, cora-se como uma criança envergonhada, esboça um sorriso contido e continua a cena, sem hesitar. Na coxia, Xantili e Pavarotti tornam-se, oficialmente, namorados.

Mesmo sabendo que a plateia não perceberia, talvez não tenha sido muito adequado misturar as bolas, colocando no meio da peça uma coisa tão pessoal, que poderia ter desconstruído a cena... Mas aquele foi definitivamente o pedido de namoro mais original que já fizera. E ele nunca duvidou, a qualquer tempo, que a imagem do sorriso contido da Xantili compensou em muito os riscos de ter estragado a cena.

A temporada está chegando ao fim. Pavarotti desfruta pela última vez de uma das cenas mais simples da peça. Ele, em um dos praticáveis, sentado com um cobertor sobre as pernas. No outro lado, a palhaça Té Kinfim - talentosíssima! - no papel de Angelina, faz o mesmo. O casal, na cama (da qual a plateia, entre os dois, faz parte), conversa sobre a contratação de uma pajem para as filhas. A cena termina em blecaute e, em todos eles, desde o início da temporada, o garoto pensa em como aquela cena tão simples era tão deliciosa de fazer: a naturalidade do texto e a liberdade de dizê-lo de diferentes modos, as expressões precisas de sua parceira, a segurança da direção em resolver uma cena simples com apenas dois banquinhos, duas pessoas sentadas e um blecaute.

Mas, no último espetáculo, aquele blecaute doi. Cada segundo, doi. Cada fala, tem gosto de despedida. E, ao final, ao som da voz rouca de Raul Seixas em "Tente Outra Vez", Pavarotti chora um choro verdadeiro e desavergonhado. Um choro espedaçado. Um choro intenso, que mistura orgulho pelo que realizou e uma dor inconsolável pelo que sabe que não virá mais. Chora uma saudade que ainda nem veio. Uma saudade dos outros e de si próprio. Acaba ali a jornada de Pavarotti no Palhaços Graças a Deus.

Com o passar do tempo, o azedo da saudade rasgada dá lugar ao sabor doce das lembranças ternas. Ele desiste de pensar no que perdeu e no que deixou de ter, para ficar só com aquilo que ganhou e que ninguém lhe pode tirar: recordações de uma das melhores épocas de sua vida, em que suas semanas gravitavam em torno dos dias em que o grupo de teatro se reunia.

Não houve dia sequer, desde que saiu do grupo, em que não se sentiu Palhaço. Ser Palhaço, e ter vivido as coisas que viveu, deixou no garoto, já crescido, marcas que foram impressas em sua personalidade, em sua forma de ver as pessoas, o mundo e a vida. Para melhor ou para pior, ciente dos seus novos talentos e também dos seus novos defeitos, sua vida foi profundamente influenciada pelo que viveu ali.

Talvez alguns Palhaços não se lembrem de detalhes, ou talvez nem sequer lembrem dos seus nomes de batismo. Mas isto também não é importante. Porque estes Palhaços também viveram coisas naquele grupo que certamente não viveram nem viverão em nenhum outro lugar - mesmo que talvez nem se lembrem mais delas.

As pessoas que hoje fazem parte do grupo certamente não sabem nada a respeito do Palhaço Pavarotti ou de suas lembranças, que, no fundo, talvez não tenham importância alguma, a não ser para ele próprio. O que o orgulha, o que é de fato importante, é saber que gerações e gerações de Palhaços carregam em suas vidas as lições que ali aprendem e ensinam, muitas vezes sem querer, nem perceber. Este é seu maior orgulho nesta jornada: saber que faz parte de uma história que deixa um legado tão importante na vida de tantas e tantas pessoas que, mesmo de épocas tão diferentes (afinal, são mais de 30 anos de história), mesmo que completamente desconhecidas uma das outras, carregam semelhanças e valores que são tão belos quanto atemporais e que os une de uma forma inexplicável.

A primavera é a época da floração dos Ipês. E, especialmente quando florescem os amarelos, é sinal de que está próxima a estreia da montagem daquele ano. Faz 20 anos que o garoto sorri todas as vezes em que vê um Ipê Amarelo florido. E, especialmente nesta época, mesmo com a distância física que às vezes o tempo acaba impondo, lembra com imenso carinho de muitos palhaços que dividiram com ele o palco, os aplausos e que foram, ao mesmo tempo, espectadores e atores importantes da sua vida: Coxia, Pôr-do-Sol, Fuligem, Bastidor, Fofucha, Arrelia, Sereno Orvalho, Alvorada, Cambalhota, Colibri, Amanhecer, Aquarela, Xantili, Tcham Tcham Tcham Tcham, 123 Sinais, Bereré, Colombina, Tim Pim Pim, Batatinha Quando Nasce Espalha a Rama Pelo Chão, Chicabon, Raspa de Tacho, Joystick, Té Kinfim, Pingo, Pluft, Papoula, Ciclorama, Butterfly, Fanfarra, Fanikito, Dama da Noite, Brigadeiro, Peteca, Rubrica Perneira e, a mãe de todos, Fantasia, além de todos aqueles cujos nomes o tempo apagou de sua memória, mas não do legado dos Palhaços Graças a Deus.

Amyr Klink, em um dos seus extraordinários livros, em um trecho que fala das saudades que sente enquanto está em suas viagens solitárias, diz que "Trazia próximos, como nunca, pessoas queridas e amigos, e a provisória distância que nos separava era apenas física. Uma distância real e emocionante, que sabia muito bem como percorrer. Uma distância fácil de resolver. (...) E foi, só - por esses breves instantes que dura um inverno -, que descobri como fazer o tempo correr para tornar próximos todos os lugares, e certas pessoas, por quem se morre de saudades".

Ao escrever este texto, o garoto fez o tempo correr e percorreu distâncias enormes, sem sair do lugar. Sentiu inúmeras vezes o coração acelerado e as pernas inquietas, como se uma parte do seu corpo revivesse as lembranças e sensações que resgatou. Sonhou com o que escreveu, dormindo e acordado. Mas, acima de tudo, humildemente, homenageou em pensamento aquelas tantas pessoas, por quem nunca deixou de morrer de saudades e que tão generosamente dividiram dias tão especiais com ele.

Que os Ipês amarelos continuem a florescer. E que as lembranças da época que simbolizam, continuem deixando marcas indeléveis na vida de pessoas absolutamente inesquecíveis.


     Pavarotti  
 Agosto de 2011   
  


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Medíocre, mas imortal


Peço desculpas pelo texto grande. Mas não faço ideia de como resumir o tema...

Sou um artista medíocre, mas feliz. Não, não estou carente de atenção, de afagos ou dos aplausos dos amigos que me leem - ainda que me sinta muito agradecido sempre que os recebo. O fato é que conheço bem quais são e quais não são os meus talentos, e sei que a arte verdadeira está no segundo grupo.

Não sei fazer poemas, não sei cantar, não toco nenhum instrumento direito, não sei pintar, desenhar ou esculpir. No entanto, sou perdidamente apaixonado por arte. Perdidamente. E, ao longo da vida, venho tentando criar pedacinhos de arte dos quais possa me orgulhar.

Na adolescência, há exatos 20 anos, foi o teatro: uma das épocas mais felizes e mais importantes da minha vida, da qual me orgulho imensamente, e que muito tem a ver com a pessoa que sou. Atuei por 3 anos, no Palhaços Graças a Deus, no colégio em que estudei. Não vou escrever muito a respeito agora, porque pretendo fazê-lo em um texto especificamente para isto, em breve, em meados da primavera, quando os ipês amarelos já estiverem em plena floração.

Mais recentemente, resolvi começar a escrever, sem saber bem o porquê. Estou feliz em conseguir manter este blog com conteúdos pelo menos mensais. E faço-o sem nenhuma pretensão, sem me preocupar com quantas pessoas vão ler, nem que opiniões terão a meu respeito através do que escrevo. Faço-o com imenso prazer, só para não esquecer dos meus próprios pensamentos, muitas vezes tão fugazes. Escrevo, talvez, para poder me lembrar como era lá atrás, quando o futuro de hoje virar presente amanhã. Mas também não é sobre isso que quero falar hoje...

Ainda sob o efeito mágico do show do Bobby McFerrin, que tive a honra de assistir na semana que passou, hoje vou escrever sobre música e sobre dança. E porque preciso delas para viver...

Sempre fui apaixonado por música, desde muito pequeno. Quando eu tinha, sei lá, uns 5 anos, lembro-me de assistir aos primeiros e ainda incipientes vídeo-clipes no programa Realce, na TV Gazeta, na época em que a TV tinha não mais do que 7 canais. Me divertia nos finais de tarde com o Capivara - o personagem que apresentava o programa - e com meu tio, com quem eu assistia.

Andando de carro, lembro-me de ouvir as músicas no rádio tentando listar todos os instrumentos que conseguia escutar, prestando atenção aos seus tímbres e seus "papéis" nas músicas.

Lá pelos 10 anos, ganhei dos meus pais um pequeno teclado Casio, e comecei a dedilhar. Na mesma época de pré-adolescência, começaram os bailinhos lá no prédio, que deixaram lembranças de pessoas queridas e meus primeiros contatos com a dança... e com as meninas.

Depois de muito esperar - era uma época economicamente difícil - ganhei meu micro-system Gradiente com duplo-deck! Era uma sexta-feira, e naquela noite eu quase não dormi, porque fiquei escutando músicas até de madrugada, fascinado com o presente. E passei então a preparar as fitas cassete, com as músicas para os bailinhos.

CD-players, no início muito caros, fui o último a ter... Todo mundo tinha, menos eu. E talvez a longa espera tenha alimentado ainda mais o desejo de ouvir os detalhes e a pureza do som que antes só podia escutar na casa dos amigos.

Algum tempo depois, comecei a estudar piano. Me encantava o seu som solene, e o desafio de tocar coisas diferentes com cada mão era imenso. Não me lembro do porquê, mas parei de fazê-lo algum tempo depois. Nunca perdi o encantamento pelo instrumento, que pretendo voltar a tocar um dia.

Com a adolescência, veio o teatro, que ocupou em mim todo o espaço que havia para a paixão por arte. Minhas semanas giravam, durante 3 anos, em torno dos dias em que havia reuniões do grupo. E, claro, sempre havia muita música. Foi nesta época que me dei conta de que precisaria de arte pelo resto da minha vida.

Mas faltou-me a coragem para tentar fazer da arte propriamente dita a minha profissão. E já, já eu digo porque eu acho que isto foi bom...

Veio a vida adulta, o namoro, a faculdade, o casamento, e muito trabalho. Produzindo vídeos, animações, roteiros e personagens, pude me manter envolvido com música - ainda que ela fosse coadjuvante em um processo eminentemente técnico - e também com atuação, já que fiz a direção e vozes de alguns personagens em filmes que produzimos.

Em alguns dos vídeos, fiz da música o elemento principal. E, quando os produzia, ouvia a música-tema repetidamente, vez após vez, horas a fio, dias ininterruptamente - até que aquela música entrasse no meu sangue. Nunca enjoava.

Foi exatamente nesta época que desenvolvi o gosto eclético que orgulhosamente trago até hoje. Tenho dezenas e dezenas de CDs, de muitos gêneros, de artistas magníficos, mesmo que desconhecidos do grande público. Tive a oportunidade e a honra de assistir a alguns desses artistas em shows ao vivo - e é sempre um orgulho fazê-lo. Com eles, e graças a eles, aprendi a ouvir sutilezas e apreciar com gratidão pequenos toques de genialidade que colocam em suas músicas, pelas quais me apaixonei tão intensamente.

Lembro-me que em 2000, às vésperas do nascimento da minha primeira filha, após vários dias de intenso trabalho e pouquíssimas horas de sono, voltei para casa ouvindo um CD instrumental, só com violão, que continha a música "How Great Thou Art". Foi como se algo maior do que eu (sobre o qual também pretendo escrever um dia), quisesse falar comigo, e me colocar numa sintonia diferente, para receber minha pequena e iniciar uma nova fase em minha vida...

E por aí, foi. Novas descobertas, novas músicas e, por elas, incontáveis paixões. Mas, nos primeiros anos do novo século, ainda que eu me mantivesse próximo à música através dos vídeos que produzia, o excesso de trabalho e o cansaço permanente chegaram ao limite do aceitável. Produzir aquilo deixou de ser um prazer, para virar um processo doloroso e angustiante.

Minha empresa, naquele momento, mudou de rumos - para melhor. Muito melhor! Passamos a trabalhar com internet, e os vídeos ficaram para trás. Meu dia-a-dia tornou-se mais técnico do que jamais fora, e a música deixou de fazer parte dele. Mas, ao diminuir sensivelmente o ritmo do trabalho, passei a ter vida fora dele. Sem a carga de obrigações e stress que o trabalho envolvia, passei a ter espaço e tempo para a arte e para música. E foi exatamente aí que reencontrei-me com elas, através da dança.

Quem diria! Pois é... o CDF aprendeu a dançar... Na segunda metade de 2006, com as filhas já mais crescidinhas, e motivados pelos novos ares que a vida nos trazia e demandava, eu e minha esposa resolvemos iniciar um curso de dança de salão. "Vamos lá, ver como é...". Só que o "ver como é" virou para mim paixão imediata e arrebatadora, que persiste até hoje. E isto também abriu portas para ouvir novas músicas, que antes meu gosto "eclético e pseudo-refinado" não me permitia apreciar.

Quem lê isto talvez possa me julgar um artista frustrado e covarde. Mas se por um lado talvez tenha me faltado a coragem - quase com certeza, também o talento - para seguir atuando profissionalmente, por outro, hoje posso me dar o luxo de ter uma relação com a arte que é de puro prazer. Me assusta me imaginar como ator profissional, ainda que amasse a profissão, pensando um "Ai, que saco! Hoje eu não estou a fim de subir no palco!" - porque afinal, todos nós temos nossos dias de chateação e desmotivação. Para mim, não. Não tenho obrigações com a minha arte, porque não preciso sobreviver dela.

Eu sei que isto soa cômodo, e talvez me impeça de desenvolver plenamente esta tal arte pela qual me digo tão apaixonado. Mas, por outro lado, me permite ter com ela uma relação de prazer em seu estado mais puro: faço quando e como quiser, sem amarras, sem obrigações e sem expectativas de terceiros...

A dança foi a oportunidade de voltar a juntar a paixão pela música, com a paixão e o desafio do teatro. Danço bem? Não. Só engano - como fazia com o teatro, com o piano e agora, com esses textos que alguns amigos pacientes e queridos insistem em ler, apesar do tamanho inadequado para a internet. Mas é este "enganar", este fazer unicamente pelo prazer, que me permite respirar arte, mesmo tendo um dia-a-dia tão técnico. Encontrei, sem querer e por mera força das circunstâncias, um equilíbrio que me permite viver, hoje, feliz e realizado com a arte que humildemente tento produzir, escrevendo, dançando e aprimorando meu ouvido, para que um dia meus dedos possam tocar o que eu escuto com admiração.

Quem tiver interesse em trocar figurinhas musicais comigo, por favor deixe um comentário! Sempre estou interessado em conhecer novidades musicais. Talvez eu possa também apresentar algumas das minhas, que vão da genialidade elétrica e contemporânea de Joe Satriani, à universalidade quase ancestral de Ladysmith Black Mambazo ou de Bobby McFerrin, que me motivou a escrever este texto.

Sim, sou um artista medíocre. Mas, isto não faz de mim um artista frustrado. E muito menos me impediu de descobrir a razão pela qual a arte existe e é tão desesperadoramente necessária: tornar a vida mais feliz e dar formas às lembranças que, de outro modo, poderiam ser apagadas pelo tempo. Porque a arte nos torna, mesmo que medíocres, imortais.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Lembranças de Quem Fomos


Pouca gente sabe uma coisa a meu respeito: nasci no estado do Ceará. Meus pais se casaram em Belém e se mudaram imediatamente para Fortaleza, onde eu e meu irmão nascemos. Saímos de lá quando eu tinha 2 anos e meio. Vivemos mais 1 ano em Recife e, em seguida, viemos para São Paulo. Então, não é de se estranhar que eu me sinta 100% paulista. Foi em São Paulo que cresci, que aprendi a ler, que fiz meus melhores amigos, vivi minhas paixões e meus amores, descobri meus talentos, meus medos e minhas fraquezas. Foi em SP que me casei (com uma Uruguaia de nascimento e paulista de criação, como eu) e aqui nasceram minhas filhas.

Como minha família é toda de Belém, não mantive vínculos em Fortaleza. Passei mais de 20 anos sem ir à cidade. Em meados dos anos 90, estive lá, a trabalho. Imagine uma pessoa de roupa social, andando num calçadão em frente à praia no final de tarde. Isto foi o mais perto que cheguei do mar naquelas 24 horas.

Em 2011, com 34 anos, fui pela primeira vez como turista a Fortaleza, onde fiquei durante 9 dias com a esposa e filhas. Comecei a escrever este texto no voo de retorno para SP, embora só tenha conseguido terminá-lo quase uma semana depois.

Não, não trata-se de uma redação entitulada "Minhas férias". Mas não posso deixar de escrever sobre o que elas me fizeram pensar e sentir.

Fiz todos os passeios que queria fazer: andei de buggy por dunas que pareciam de açúcar, andei de Pau de Arara (aqueles precários caminhões com banco duro de madeira, em que os retirantes faziam inimagináveis viagens fugindo da seca), fiz passeio de jangada e nadei em alto-mar olhando para o céu, mergulhei em lagoas, desci rampas imensas no skibunda e fiquei à milanesa ao rolar pela areia, fotografei calangos, desci tobogãs altíssimos sentindo o coração na boca, e com ela comi rapadura quente e descobri o gosto do suco de siriguela.

Em cada um desses momentos, me encantei com a receptividade de um povo incrivelmente hospitaleiro. Me senti chegando à casa daquela tia que você não vê há anos, mas que te recebe com tanto carinho, com um abraço tão acolhedor, que te faz sentir íntimo instantaneamente.

O sotaque doce, em alguns momentos curiosamente engraçado, o jeito carinhoso de chamarem uns aos outros de "meu amor" e uma simplicidade sem subserviência, me fez sentir um orgulho enorme de ser conterrâneo daquela gente - e de ser brasileiro.

Tem gente em São Paulo que diz que "aqui nós trabalhamos em dobro porque lá ninguém faz nada". Isto é mentira. Trabalhamos muito, sim, é verdade. Mas eles também! Sabe quantos "pedintes" eu vi em 9 dias de Fortaleza? Poucos. Muito poucos. Menos do que vejo no trajeto entre a minha casa e o trabalho, todos os dias. Vi, sim, muita economia informal. Mas era gente trabalhando! Não vi quase ninguém pedindo!

Vi bugueiros uniformizados organizados em cooperativas, extremamente bem treinados para atender turistas. Vi cardápios de restaurantes em 4 idiomas - coisa que não me recordo de ter visto em nenhum dos restaurantes que frequento aqui ou em qualquer outro lugar. Passamos uma hora com uma simpática índia analfabeta que fazia artesanato "desenhando" os nomes das pessoas, com as letras que ela sabia reconhecer, mas que juntas formavam sílabas que ela não sabia ler. Vi homens fazendo lindas e trabalhosíssimas artes com areia colorida em pequenas garrafinhas, a preços inferiores a uma bola de sorvete no shopping center.

E vi muitos e muitos sorrisos de um povo que, como boa parte dos outros do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste, irradia um calor que nós aqui em São Paulo, por mais cortezes que sejamos, simplesmente não temos. E se não o perdemos de todo, ainda, é porque há muitos deles vivendo aqui. Quando nos referimos com orgulho à "alegria do nosso povo", em geral é neles que estamos pensando.

Andei várias horas de ônibus ao lado da minha filha mais velha - uma moçona de 10 anos - e dei colo para ela, enquanto dormia como um bebê.

Fiz esculturas de areia! Adoro! Não, não tenho nenhum talento notável nesta área, não. São até bem feinhas. Mas fazê-las é uma coisa que me dá muita paz, muita tranquilidade... ficar ali, mexendo na areia, pacientemente, batendo, cavando, modelando e me sentindo criança outra vez.

Fiz minhas esculturas com minhas filhas, sempre próximas ao mar. Uma delas, na Praia das Fontes, foi o corpo de uma mulher, que chamamos - talvez sem muita originalidade - de Iracema. Outra, foi o rosto de um garotinho, que - definitivamente sem originalidade nenhuma - chamamos de Cumbuquinho, na praia de (adivinha!) Cumbuco.

A Iracema, fizemos na maré baixa e fomos embora da praia deixando-a lá, deitada e intacta.

Mas o Cumbuquinho, não. Quando terminamos, a escultura do rosto do menino sorrindo estava bem próxima ao mar. A fotografia no início deste texto foi tirada exatamente 2 segundos antes de uma onda destruir a escultura por completo. Minha filha mais nova, de 8 anos, ficou muito, muito triste. Uma tristeza tão grande, em um choro tão sincero, que me segurei para não chorar também. Não pelo Cumbuquinho - porque acho bonito pensar que o Cumbuquinho, na verdade, não era meu, nem nosso: era da praia. E a onda simplesmente estava devolvendo-o à sua verdadeira dona.

Quase chorei, na verdade, pelo sentimento de "saudade" que vi no rosto da minha pequena. Saudade do sorriso esculpido, que tinha voltado a ser praia. Pegamos na mãozinha dela, limpamos suas lágrimas e dissemos que tinha sido uma bela escultura e que ela estaria sempre em sua lembrança. E, olha só que sorte! Ainda tínhamos foto!

Nesta viagem, me senti privilegiado por vivermos momentos tão lindos e tão marcantes quanto um sorriso maior que o próprio rosto, ao se andar de buggy de frente para o vento, ou uma lágrima por algo que passou a estar apenas na lembrança, mas que trará, espero, sorrisos doces quando elas se recordarem da infância, em um futuro mais próximo do que gosto de imaginar.

Volto para São Paulo certo de que quero ser um pouquinho mais cearense. E certo de que as recordações que trazemos de lá - e de quaisquer outros lugares ou pessoas - estão, sim, nas fotos, nos souveniers e nos presentes. Mas, antes de tudo, estão nas lembranças de nós mesmos e de quem fomos quando lá estivemos. E, caramba, nós fomos felizes. Ah, como fomos felizes!

sábado, 2 de julho de 2011

Aquelas Mulheres de Branco

Semana passada, no feriado de Corpus Christi, passei uns dias descansando com a família em um hotel. E "descansando" é mesmo a palavra mais adequada: como todos que pegam no pesado, neste meio de ano eu estava precisando de uma pausa, que me permitisse desligar os motores e sossegar por alguns dias.

Só que, neste resort em que fiquei, em Campinas, entre as várias pessoas que vi, algumas delas me chamaram atenção especial: as personagens que dão título a este texto; as babás, aquelas mulheres de branco, que viajaram junto com seus patrões. Como estamos em Julho - época de férias escolares, em que muitas famílias viajam - achei oportuno escrever a respeito.

Mas, antes, quero deixar muito claro que não tenho absolutamente nada contra quem viaja com suas babás. De modo algum! Apenas aproveito para colocar no papel (na tela, você entendeu, vai!) algumas ideias sobre pais, filhos e convivência em família.

É claro que para algumas daquelas moças e senhoras, estar ali representa uma oportunidade muito bacana: um resort bonitão, com comida de primeiríssima qualidade, ambiente agradável e, visivelmente, patrões que gostam delas e valorizam sua presença. Não vi, em momento algum, alguém sendo ríspido ou grosseiro com elas. Ainda que seja a trabalho, imagino que estar ali seja uma coisa prazerosa.

Mas, o que realmente significa, do ponto de vista dos pais, a presença das babás ali? E não posso falar disso, sem falar de mim mesmo e da minha relação com a família.

Quem já leu meus textos anteriores, sabe que eu sou daqueles que trabalha 14 horas por dia. Não me considero workaholic, em absoluto. Já fui, mas não mais. Trabalho muito e gosto do que faço, mas encontro prazer em muitas outras atividades, que nada têm a ver com trabalho. Entre esses prazeres, está o de ficar com minhas filhas.

É verdade que, ficando em casa, mesmo que estejamos juntos, às vezes caímos numa rotina meio tola: cada um para o seu lado, lendo, jogando video-game, navegando na internet. Mas, muitas vezes, também estamos fazendo "nada" juntos: brincando, contando histórias, assistindo House e fazendo comentários sobre sua personalidade intrigante e maluca. E, nestes momentos, sinto um grande prazer.

É claro que ir viajar é uma ótima oportunidade para descansarmos. Mas confesso que nunca me imaginei indo para um local destes, e me abstendo de "cuidar" das minhas filhas. É claro que há os tios da recreação, e elas passam algum tempo com eles. Mas elas também ficam boa parte do dia com a gente e gostam de fazê-lo. Não vejo nos tios uma chance de "finalmente me livrar das crianças". Quero férias, sim, mas não das minhas próprias filhas. Estando ali, elas são automaticamente parte fundamental do meu descanso e dos prazeres que as férias - não importa quão curtas - me proporcionam.

Se elas não estiverem junto, aí é outra coisa. Já viajei sem as crianças, sim. É foi ótimo! Acho que os pais que têm esta chance, devem fazê-lo, vez em quando. Mas isto não é sempre! Quando estamos com as crianças, estamos realmente com as crianças!

Voltemos às babas. Imagino que algumas, lá no resort, talvez até dormissem no mesmo quarto que as crianças, para que os pais pudessem ter a devida privacidade, depois de um dia bem aproveitado ao sol. Algumas famílias, com 2 filhos, tinham uma babá para cada criança, inclusive.

Muitos daqueles pais que estão ali, devem trabalhar muito, como eu. E talvez fiquem pouco com suas filhas, como eu. E devem também estar ansiosos por um merecido descanso, como eu. No entanto, ao levar as babás, estes pais e mães perdem a oportunidade de, finalmente, passar momentos com os filhos fora de casa, como uma família - com as partes boas e as ruins. Ao levar as mulheres de branco, os pais ficam só com "a parte fácil" da convivência com os filhos, sempre limpos, banhados, de dentes escovados e cabelos penteados. Isto, convenhamos, não é muito diferente das noites, quando chegam em casa tarde, e vão dar um beijinho nas crianças, já adormecidas. No final das contas, viajaram com as crianças e mantêm delas, voluntariamente, a mesma distância asséptica que têm no dia-a-dia, por imposição da vida atarefada. Bem, isso para não falar daquelas que de atarefadas não têm nada... e ainda assim, levam as babás.

Felizmente, na minha família, tivemos a felicidade de contar com vovós quando nossas filhas eram pequenas, para nos ajudarem - e contamos até hoje, eventualmente. Isto nos permitiu não precisar de babás. Imagino que seja bastante difícil para aquelas mães e pais que vivem longe de suas famílias, ter que confiar a terceiros os cuidados aos seus filhos. É por isso que respeito e valorizo muito o trabalho das babás e os laços de amor que muitas delas criam com as crianças sob seus cuidados.

Talvez para algumas daquelas famílias, a babá seja realmente parte da família - o que legitima sua presença ali. Mas acredito que a maioria delas não as vê assim, não importa quão bem as tratem. Parece-me que muitos daqueles pais e mães perdem uma chance ímpar de, finalmente, cumprir um papel que habitualmente é da mulher de branco: simplesmente estar com os filhos. Dá trabalho, sim. E, se dá trabalho, mesmo que possam encarregar-se dele, simplesmente continuam a delegá-lo, para que outrem o faça.

Não estou apto a dizer que impacto isto terá na vida dessas crianças e dos futuros filhos destas crianças. Mas espero que isto não as faça acreditar que a distância é boa. A Privacidade é boa e a individualidade, também. Mas, distância, não.

Olhando minhas filhas de 10 e 8 anos, e quão rápido cresceram, "distância" é uma coisa que eu não quero neste momento. A vida vai se encarregar de fazer isto naturalmente, quando crescerem mais. Mas, enquanto não faz, quero me sentar com elas à mesa para fazer as refeições, brigar para que não limpem a mão na toalha de mesa e lembrá-las mil vezes de mastigar com a boca fechada. Fácil, não é. Muitas vezes, nada prazeroso. Mas a vida não é feita só de prazeres, é? Certamente as mulheres de branco saberiam falar muito bem a este respeito.



sábado, 21 de maio de 2011

A câimbra dos diferenciados

Há exatamente duas semanas aconteceu-me um episódio, digamos, bizarro. Honestamente, nem dá para dizer foi bizarro - é que como nunca havia acontecido comigo, achei bom adjetivá-lo assim, para efeito dramático. O fato é que acordei aos berros.

- Ai, ai, ai!!!
- O que foi?! - minha esposa acordou sobressaltada, achando que era mais um dos meus pesadelos estúpidos.
- Câââââimbra!!!!
- Onde?!
- Na perna!
- Alonga!
- Alonga como?!
- Alonga a perna!
- Não sei como!
- Assim, caramba! - e lá estava ela, ensinando um marmanjo de 34 anos a alongar a panturrilha, para fazer a câimbra passar. E passou.

Depois de rir do absurdo da situação (nunca tinha sentido câimbra na batata da perna, ué!) e da lembrança de uma panturrilha dolorida durante todo o dia, como se a maldita câimbra quisesse me lembrar de que poderia me visitar de novo a qualquer momento, me peguei pensando sobre a beleza que é ter alguém, um porto seguro, uma pessoa com quem se pode contar. Alguém que te valorize, te acolha, que cuide de você quando tem pesadelos, ou câimbras, que te pegue um sabonete novo no armário, depois que você já entrou no chuveiro, que não ria da sua cara porque você gosta de jujubinha ou porque, no frio, você transa de meias.

Ao longo da vida, algumas pessoas cumprem esses papéis. A mãe, o pai, um irmão, um grande amigo. E, para a maioria das pessoas, também um amor.

Este episódio todo aconteceu exatamente 2 dias depois do Supremo Tribunal Federal ter reconhecido a União Homoafetiva. Interessante, né? Eu nunca tinha ouvido este termo "relação homoafetiva". Já tinha ouvido, claro, "relação homossexual". E confesso que nunca tinha parado para pensar na estreiteza do termo: "duas pessoas do mesmo sexo, que transam".

Ninguém fala isso de um casal hetero, já observou? A relação de um casal hetero é sempre uma "relação amorosa", "relação afetiva", que, claro, envolve o sexo - às vezes como item principal, inclusive. Mas, para os gays, não. Parece que os gays são apenas "seres que trepam. E ainda com pessoas do mesmo sexo, credo!". Como se a vida deles/delas fosse apenas isso.

Achei bonito e honesto o termo "homoafetivo". Foi a primeira vez que vi - justo de um órgão de governo tão sisudo e supostamente conservador - uma definição que vê os gays como mais do que seres meramente sexuais. Que avanço extraordinário! É uma pena que tenha demorado tanto para acontecer, mas deve ser, sem dúvida, comemorado por todos aqueles que acreditam que pessoas são, antes de qualquer outra coisa, pessoas.

É compreensível que haja resistências e controvérsias sobre isso. O que não dá para entender no entanto, é porque até mesmo alguns "diferenciados", que também são vítimas de precoceitos, sejam contra essa posição do STF. Para quem não sabe, "diferenciado" foi um termo que surgiu recentemente, numa carta aberta escrita por algumas - não todas, certamente - pessoas de Higienópolis, em São Paulo, avessa à construção de uma estação de metro em seu nobre bairro. Segundo elas, o metrô atrairia bagunça, tráfego, ônibus. E atrairia, ainda, como eles disseram, "gente diferenciada" - pessoas diferentes daquelas que costumam trafegar no bairro.

Estou até pensando em arrumar em emprego de faxineira por lá. Elas devem ganhar uns 30 mil por mês, né? Isso tudo não é surpreendente, considerando-se o que significa o nome do bairro: "Cidade da Higiene". Entendo porque alguém não queira morar perto do metrô. Mas referir-se às pessoas como "gente diferenciada", é de doer.

Gays, durante muito tempo foram - e continuam sendo - parte deste universo de "pessoas diferenciadas". Mas será que não somos todos? Minha pele me faz branco no IBGE, mas meu nariz, meus lábios e meus dedos grossos não negam meus ascendentes escravos. Os cabelos negros e lisos da minha mãe não negam os índios que devem fazer parte de sua árvore genealógica - e da minha por conseguinte.

Todos no mundo têm algo de diferente e de "estereotipável". Os paulistas são frios, os cariocas são malandros e os bahianos, lentos. Os americanos são fúteis, os franceses são metidos, os alemães, racistas e os suecos, depravados. Os japoneses são sérios, os árabes, rigorosos e os africanos, miseráveis. Os pobres são indesejáveis e os ricos, usurpadores. Os jamaicanos, maconheiros, os argentinos, arrogantes e os mexicanos, submissos. Os gays... bem, os gays são gays. Somos todos, sem exceção, "diferenciados" em algum lugar, em algum contexto.

Acolher e aceitar parecem estar na ordem do dia e isto, sem dúvida, vai nos fazer crescer como sociedade e como pessoas. Mas não precisamos ser hipócritas! As piadas de gays vão continuar, assim como as piadas de portugueses, de loiras, de advogados, de virgens e de velhos. Não há nada de errado nisso. O errado está em, na vida real, fora da piada, não aceitar que todos nós, gays ou heteros, inevitavelmente diferenciados aqui ou ali, precisamos de gente. Precisamos uns dos outros - mesmo para coisas tão tolas quanto resolver uma câimbra na perna.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

Não queremos sapos

Alguns dias atrás, os canais de TV começaram a anunciar que estariam no ar a partir das 5 da manhã, para transmitir o casamento do príncipe William com a bela Kate Middleton. Confesso que, quando ouvi isso, falei para quem quisesse ouvir: "Caramba, eu ficaria uma fera se tivesse que acordar de madrugada para fazer a cobertura jornalística do casamento de quem quer que fosse. Um monte de plebeus mundo afora babando por um monte de nobres que não têm o que fazer".

Pois é. Só que depois de ver flashes do casamento, confesso que mudei completamente de ideia. Termino o dia convencido de que a família real, hoje, prestou um excelente serviço ao mundo - apesar do empenho da doida ao lado, em fazer o oposto.

É verdade, sem dúvida, que há um excesso de atenção a coisas sem a menor importância que aparecem  em um evento como este: os designs horrorosos de 9 entre 10 chapéus usados pelas convidadas, o número de pedras preciosas na tiara da noiva, a duração do primeiro beijo do casal, o nome da estilista que fez o vestido, e um monte de outras coisas tolas, que só servem para rechear os comentários de alguns pseudo-entedidos e as páginas das revistas que costumam conter mais fotos do que palavras.

Em época de celebridades instantâneas do BBB ou de super ídolos tão descartáveis quanto suas obras, parecia que a elegância, a classe e a discrição haviam tornado-se coisas dispensáveis e indesejáveis. Quanto menos roupa, melhor. Quanto mais espalhafatoso, também. Quanto mais escandalosa é uma celebridade, maior é a atração que ela exerce. Todos querem ser notados, mas poucos empenham-se em ser notáveis. O negócio é ficar famoso. É por isso que todo mundo quer ser artista: porque aparece e fica rico. Não porque ama a arte...

O que me fez mudar de ideia sobre a importância do casamento real, a princípio tão distante de nós, mortais, foi a imagem que eles hoje transmitiram ao mundo.

Assistimos a uma cerimônia que tinha toda a pompa e o protocolo que seriam de se esperar. Mas, ao mesmo tempo, marcada por uma elegante simplicidade da atitude dos noivos. Reforço: não estou falando de luxo. Estou falando da atitude. Não foi necessário um vestido que tivesse um decote até o umbigo, ou um tomara-que-caia tão baixo que virasse espero-que-não-caia. Não foi necessário que a mãe da noiva usasse roupinha de onça-pintada no cio. Não foi necessária maquiagem carregada que fizesse a noiva parecer que iria para a esquina, em vez do altar. A simplicidade e a verdade do sorriso da noiva plebeia, ao meu ver, foram os pontos marcantes do que se viu hoje, em Londres.

Eu não casei na igreja e não estou aqui fazendo apologia aos protocolos, tradições ou conservadorismo. Aliás, vivo há 13 anos com minha esposa, com a qual não casei formalmente - nem no civil, nem no religioso. Isso não nos torna menos casados do que ninguém. Acredito que as tradições existem e devem ser cumpridas por quem realmente se identifica com elas. Para nós, esta não é uma tradição importante, embora entendamos perfeitamente que seja para muitos casais. Não somos religiosos e, exatamente por respeitarmos aqueles que são, optamos por não casar na igreja. Se o fizéssemos, seria só porque é "bonito", e não porque cremos no que aquela cerimônia representa. Mas usamos aliança, sim, porque acreditamos e apreciamos o que ela simboliza. Nos damos um luxo que príncipes não podem se dar: tomar a liberdade de pegar emprestado das tradições aquilo que faz sentido a nós.

Mas não é a tradição que estou defendendo - e espero não parecer um velhote ao mencionar estas coisas. Estou me referindo, isto sim, à valorização do que é belo, sem ser exagerado; do elegante, sem demonstrar arrogância; do comportamento respeitoso, sem que isso necessariamente represente uma definitiva anulação da própria personalidade. Vimos isto tudo hoje nos noivos e confesso que fiquei feliz em ver o mundo tão interessado nisto, em uma cerimônia em que bons modos são mais importantes do que quantas cervejas se bebeu ou quantas bocas se beijou.

Hoje, sexta-feira à noite, quem sabe, teremos mais moças se arrumando para sair, diante do espelho, querendo se parecer mais com Kate Middleton, e menos com a Lady Gaga ou com alguma Paty Xavaskinha, que tenha participado de uma das 50 edições do BBB. Quem sabe os rapazes sinalizem claramente a estas moças que as valorizam mais como Kates do que Gagas, e elas mostrem para eles que querem ver mais príncipes que batem continência, em vez de sapos que coaxam, ou arrotam depois da décima cerveja.

Se isto acontecer, a nova princesa britânica terá cumprido um papel muito mais vistoso do que os exóticos chapéus que algumas madames desesperadas por atenção optaram por usar, e que, paradoxalmente, foram tão nitidamente ofuscados pelo seu exato oposto: a simplicidade com elegância; coisa que qualquer plebeu que preze bons modos, pode ter.



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