domingo, 12 de janeiro de 2014

O House não Existe

Texto original de Maio de 2012.


Não sei se já comentei alguma vez, mas eu adoro o House. Ele é uma espécie de alter ego grosseiro, cavalo, estúpido e bruto, de todos nós. Ele pode dizer coisas que ninguém diz. Desafiar pessoas que ninguém pode. Ele manda e desmanda, manipula e adapta a realidade à sua própria vontade e aos seus próprios caprichos. Ele demite, para recontratar 5 minutos depois. E despedir de novo imediatamente. O House é um adolescente que nunca cresceu e que, por ser um gênio, exige que o mundo pague um alto preço, aturando-o a qualquer custo, já que está sempre certo. Quem não tem vontade de sair por aí dizendo verdades - ou inverdades, não importa - sem dar a mínima para as consequências e para a opinião de quem as escuta?

É, mas o House não existe. Nem poderia. Pode até haver um cara extremamente mal-humorado, como ele. Vejo um todos os dias, quando faço a barba de manhã. Pode até haver alguém que manipule o mundo ao seu redor, para atender às suas vontades. Mas ninguém assim consegue manter um bom emprego por muito tempo. Ninguém assim vai ter amigos - até porque não existe ninguém como o Wilson ou como a Cuddy (saudades da Cuddy...). Esses personagens são caricaturas levadas ao extremo dos traços que as definem.

A vida adulta, real, é diferente. A diferença entre a palavra do adulto e a da criança, é que a da criança se pode perdoar com mais facilidade. Se minhas filhas olham para mim com cara de ódio e dizem "Eu te odeio", eu vou segurar a risada, porque não vou acreditar nelas e porque sei que em 5 minutos, a atitude delas será outra. Mas, se um adulto olha para mim e diz "Eu te odeio", eu vou acreditar. E vai levar um bom tempo até que ele me convença de que aquilo não era, de fato, verdade.

Felizmente, nunca ouvi "Eu te odeio" de ninguém. Mas já fui desacreditado, já vi olhares de desconfiança, já deixei de gostar de pessoas pelo que elas disseram, já levei broncas por erros que não cometi. Aceito todas as críticas do mundo pelos erros que cometi. Mas me nego a ouvir um "Ah" por algo que não devo. Eu não sou o Wilson. E, claro, já fui colocado contra a parede por erros que cometi, mesmo sabendo-os como tal. Já fui, sim, um pouco House. Você, certamente, também.

Existe entre nós, contemporâneos dos computadores, uma sensação de que tudo pode ser desfeito com facilidade. É o que eu chamo de "Geração Undo". Undo é aquele comando que desfaz as operações, no computador. Se você erra, você dá um Undo. Desfaz, com facilidade, o erro que acabou de cometer. E, se o erro for maior, mais grave, cometido dias atrás, você restaura do backup. Se você morre, no video-game, você recebe mais uma vidinha e continua a jogar. Nada é final. Nada é definitivo.

Algumas pessoas transferem isto para a vida real. Magoou alguém? É só pedir desculpas! Transou sem camisinha? Toma a pílula do dia seguinte e relaxa! Repetiu de ano? Faz de novo! Para quê a pressa? Bebeu demais? Toma um Engov! Ou uma glicosesinha na veia, o que é que tem? Bateu o carro? Ah, o seguro cobre! Atropelou alguém? O papi molha a mão do policial e me livra da cadeia.

É por isso que os acidentes de trânsito estão cada vez mais graves. Porque motoristas cada vez mais bêbados, correm cada vez mais rápido, em carros cada vez mais caros. Ministros roubam quantias cada vez maiores e contam mentiras cada vez mais estúpidas para escândalos cada vez mais escancarados. Tudo é hiperbólico - mas a sensação é de que as consequências para o que se diz, se pensa ou se faz, são cada vez menores. Perigosamente menores. É o mundo do falso "Você sabe com quem está falando?", em que todo mundo se sente imune às consequências dos próprios erros.

Só que, alguns desses erros, são realmente definitivos. Não dá pra consertar a vidraça depois que quebrou. Você pode trocá-la, e até se esquecer da que quebrou. Mas a quebrada estará, para sempre, irremediavelmente quebrada.

Entender que isto faz parte da realidade, e que a vida adulta terá algumas cicatrizes, causadas pelos cacos de algumas daquelas vidraças quebradas, deve nos tornar mais cautelosos e alertas, e não mais irresponsáveis. Arranhado que fui por alguns desses cacos, tento todos os dias fazer minhas filhas entenderem que as consequências daquilo pelo qual se opta, são tão reais quanto as consequências daquilo que se negligenciou - intencionalmente ou não. Ponderar, medir, avaliar, são ferramentas que se aprende a usar. Crianças que não são submetidas a este aprendizado, ao meu ver, podem se tornar Houses quando crescerem: não estarão prontas para as consequências que, inevitavelmente, virão. Cedo ou tarde. Pelas próprias mãos ou pelas dos outros.

Eu costumo brincar, dizendo que nunca dou "Bom Dia" antes das 8 horas da manhã: porque nenhum dia pode ser bom a esta hora da madrugada. Mas isto é mentira. Eu dou "Bom Dia", sim. Porque as pessoas não têm culpa se meu cerébro de manhã é retardado. Assim como eu não estou nem aí para a sua TPM. E seu chefe não quer nem saber se você não dormiu a noite toda porque estava discutindo a relação com seu parceiro. Nada disso interessa a ninguém, e você precisará de muita sorte para que alguém releve uma grosseria, só porque entendeu que você estava "com a cabeça quente". Cansaço, todo mundo entende e até perdoa. Grosseria, ninguém. Eu mesmo gostaria de ter lembrado disso mais vezes.

É, a vida seria engraçada se eu pudesse ser como o House e se o mundo fosse como o Wilson. Mas seria demasiadamente fácil. E assustadoramente triste.



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