sexta-feira, 11 de maio de 2012

Para se achar ou se perder


Mais de cinco meses se passaram, desde meu último post neste blog. E eu que imaginei que conseguiria mantê-lo com conteúdos pelo menos mensais. Ingenuidade a minha... Mas a verdade é que a razão pela qual eu não escrevi, não foi falta de tempo. Não só.

Quem faz um blog, escreve cartas abertas, publica, é, na verdade, meio convencido. Acredita piamente que tem algo a dizer ao mundo que é absolutamente indispensável, que precisa ser dito, que é tão grande e tão interessante que não cabe dentro de si e que merece ser revelado. Pretensioso, eu sei. E, sim, me senti deste modo cada vez que publiquei aqui.

Mas, este ano, não. Abstive-me de escrever, porque acreditei durante vários meses que meus (poucos, mas fieis) leitores mereciam algo mais do que eu poderia oferecer. Não sei exatamente o porquê, mas foi assim que me senti.

Na verdade, acho que sei: porque não estou em condições de julgar nada, nem ninguém. Ao escrever algo, inevitavelmente estou julgando: uma pessoa, uma situação, um esteriótipo ou qualquer outra coisa externa a mim, que me gera uma opinião incômoda feito um fio de cabelo na boca ou um grão de areia nos olhos, que precisa sair a qualquer custo.

Hoje, não. Não estou em posição de achar explicações que justifiquem isto ou aquilo. Posso, sim, observar, tentar entender. Mas a julgar, não me sinto autorizado, meus amigos. E eu não queria escrever enquanto houvesse qualquer tipo de julgamento em minhas palavras.

Curiosamente, em janeiro deste ano, tive a honra de fazer uma viagem que me mostrou exatamente isto: que os motivos das pessoas, de modo geral, não são passíveis de julgamento. As ações, sim. Mas não os motivos. Estive na Patagônia.

Não sei bem dizer o porquê, mas desde minha adolescência eu era fascinado por conhecer "o fim do mundo". Na verdade, tudo que está "no limite" me fascina: histórias sobre escaladas no Everest, a vida no deserto, peixes abissais, a vida dos esquimós, as expedições à Antártida. Ainda na puberdade, quando ouvi falar em Ushuaia - La Tierra del Fuego - me peguei fantasiando sobre este lugar distante, inóspito e, para mim, completamente desconhecido. Sabia que, se um dia tivesse a oportunidade, visitaria. Que sorte a minha!

Tren del Fin del Mundo - Ushuaia
É claro que minha visão de pessoas aglomeradas em volta de uma fogueira, lutando por um pouco de calor para sobreviver, não combina com a vida da belíssima e charmosa Ushuaia de hoje. Mas foi especialmente gostosa a sensação de estar na última cidade do mundo: no limite do continente, sabendo que não havia nenhuma outra cidade que estivesse mais ao sul do ponto onde me encontrava com minha família. Dali pra baixo, só um vilarejo (em território Chileno) e a Antártida, que ainda sonho em conhecer um dia.

Mas, mais fascinante do que Ushuaia, é El Calafate: a cidade dos Glaciares (calma eu já vou dizer o que isso tudo tem a ver com "não julgar"). Glaciares são imensas formações de gelo, que permanecem desde a última glaciação, há muitos milhares de anos, e que descem as montanhas formando imensas paredes de gelo. Não, não é avalanche, nem é neve. É gelo. Uma montanha de gelo em um lento mas contínuo movimento: e como se estivéssemos na Antártida, imagino. Não dá pra descrever sem ser piegas nem pequeno. Então, não vou nem tentar fazê-lo.

Glaciar Perito Moreno - El Calafate
Na língua do glaciar. Achou as pessoas nesta foto?

O fato é que, ao andar perto dos glaciares, e ver a região incrivelmente inóspita onde estão, me peguei pensando - julgando, na verdade - nos motivos que levaram os primeiros habitantes até ali, quando não havia luz elétrica, roupas térmicas, aquecedores de qualquer tipo. Julguei-os durante muitos dias, tentando achar explicações, sem sucesso.

O que fez uma família vinda da Inglaterra, com duas crianças pequenas, se instalar à beira de uma imensa lagoa, aos pés de um Glaciar, para criar ovelhas, a 2 dias de barco de qualquer civilização? Por que submeter-se a tanta privação? Do que será que fugiam, que precisassem de tamanho isolamento?

E ampliei meus julgamentos para outras pessoas: por que diabos os índios de Ushuaia, que ali viveram durante milênios, não migraram para o norte, atrás de um pouco mais de calor? Porque chegaram tão ao sul, se ao norte encontravam condições supostamente mais favoráveis? Por que se mantiveram por milênios em precárias tendas, pelados, brigando incessantemente contra o frio cortante e perene? E por que os nossos pobres brasileiros ficam passando fome no sertão em vez de tentarem se mudar para um lugar que tenha pelo menos alguma água? E por que os esquimós, no extremo oposto do continente, não vêm um pouco mais para o sul, onde é mais quente? E por que um engenheiro formado na Poli larga tudo para abrir uma lanchonete à beira do mar em uma pequena praia no litoral fluminense? E por que as pessoas que vivem em locais onde há terremotos simplesmente não se mudam de lá? E por que um rapazinho de Governador Valadares, nas Minas Gerais, sonha tanto em ser lavador de pratos em qualquer cidade nos Estados Unidos?

Sempre minhas perguntas estavam relacionadas a "fugir" ou não de algo. Todas elas poderiam ser resumidas em uma só: por que as pessas fogem - ou não fogem - da situação em que atualmente se encontram?

E, ao me fazer estas perguntas, julgar torna-se inevitável. Porque "fugir" de um lugar para outro, ou manter-se nele apesar dos pesares, implica necessariamente em definir certo e errado, melhor e pior, ímpeto ou inércia, desejo ou resignação. Seguindo este caminho, de tentar achar os porquês, minhas perguntas seguiam sem resposta.

Saimos de El Calafate, pegamos um carro e dirigimos por quase 6 horas por uma reta interminável, seca e vazia, até entrar no Chile. Exaustos, chegamos ao Parque Nacional Torres del Paine. Dias antes, houvera ali um imenso incêndio, que destruiu grande parte da vegetação do local. Fomos os primeiros turistas a visitar o parque após sua reabertura. Ali vi algumas das paisagens mais memoráveis que trago na memória, no contraste da vida que já não é, nas cinzas do incêndio, com a vida que teima em continuar a ser, nas várias áreas não atingidas pelas chamas, cuja beleza e intensidade das cores desafia qualquer descrição.

Torres del Paine

Mesmo muito confortavelmente instalados em um hotel, nunca tinha me sentido tão isolado de tudo e de todos. Sem celular, sem posto de combustível e a mais de 250 Km de qualquer cidade. O silêncio era cortado somente pelo incansável vento patagônico, e a escuridão, pela luminosidade fraca de um sol que caprichosamente relutava em se apagar, mesmo depois das 23h30. Dormimos aquela noite ouvindo o vento, que parecia querer levantar as paredes. E, de novo a pergunta: por que alguém viveria ali, em condições tão difíceis?

A resposta para todas aquelas perguntas me veio naquela noite (ou foi minha esposa que me deu a resposta mastigada, e eu estou achando que foi ideia minha?), juntamente com a imagem dos índios, da tal família Inglesa à beira do lago, dos esquimós, do Sherpas aos pés do Everest, no pobre nordestino e sua sandalinha de dedo: as pessoas vivem ali - e em qualquer outro lugar - porque querem ser felizes. Simples assim.

Não precisa haver nenhum outro porquê a não ser este, precisa? Ser feliz. Até pode haver outros motivos... Mas todos tornam-se inválidos sem que este esteja como pano de fundo. Estavam ali minhas respostas. Os índios não iam para o norte, atrás de calor, porque eram felizes cobrindo-se com gordura de foca para se proteger do frio. Os esquimós não vêm para o sul porque são felizes em seus iglus. E os brasileiros que ficam no sertão, são felizes porque ali abunda mais esperança do que água. Nem todos estão buscando, cavando, procurando, decifrando, caminhando. Nem todo mundo está. Alguns simplesmente são.

E os que saem? Bem, o fazem pelo mesmo motivo: porque acreditam que podem ser mais felizes em outro lugar. No fundo, acredito que este é o verdadeiro objetivo - seja para sair, seja para ficar. Cada um com seus motivos: alguns para se achar, outros para que não se percam. Mas todos, sem exceção, porque desejam ardorosamente ser felizes.

E isto vale para quase qualquer coisa na vida, não? Sair ou manter-se no emprego, fazer um curso de teatro ou aprender um novo idioma, fazer dieta ou entupir-se de carne na churrascaria, sair para dançar ou ficar em casa para dormir: tudo, para que se tente ser feliz. Resposta única e simples, para perguntas desnecessariamente complicadas e tolas, as minhas.

Escrevo este texto meses depois de ter me dado conta disto tudo, digitando em um notebook, no colo, em um saguão de Aeroporto muito, muito longe de casa, no Canadá. E certo de que, não importa quantas vezes nem para onde eu viaje, há poucas coisas que me causem tanta felicidade quanto voltar para casa. E ninguém tem o direito de julgar isto - não importa quão longe a casa fique.

Não se iludam: meus próximos textos voltarão a ter julgamentos, sim. Crônicas são julgamentos obtusos derramados em palavras rasas. E, confesso: adoro fazê-los. Mas, nestes primeiros 5 meses do ano, longe por completo das palavras escritas, achei que a distância - materializada na tal viagem à Patagônia, que não ia virar texto, mas virou - era algo do qual eu realmente precisava, e que meus leitores realmente mereciam. Perdoem-me se, ainda sim, fiz algum julgamento sem perceber.

Próxima viagem: não sei. Mas, com certeza, para algum lugar em que espero ser feliz. Igualzinho a você. Igualzinho a todo mundo.

Na Patagônia, as crianças voam. E os adultos, também.

3 comentários:

  1. Helder, vc não deve demorar tanto a escrever. A gente sente falta de seus textos, porque eles sempre lembram vc. Ler é um modo bom de matar a saudade.

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    1. Obrigadíssimo, minha querida. Prometo fazê-lo! Beijos!

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  2. Parabéns pelo texto!

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