domingo, 30 de junho de 2013

E ai de quem não coma!

Era um chato. Pense num cabra chato? Era ele: uma pessoa dotada de uma inteligência ímpar para tudo que fosse cricri, enjoado, metódico e implicante. Um chato natural, puro-sangue, que nascera com o gene da chatice duplo-dominante. Chato com pedigree. Porra, como era chato!

Certo dia, ainda lembrava-se muito bem, quando iniciou as aulas no ginásio, participou de uma dinâmica de grupo em que cada um deveria responder, na roda: "Se você fosse usar uma única palavra para definir-se, qual seria?". As outras crianças, normais, definiram-se como "simpáticas", "alegres", "amigas", "sorridentes". Ele: "perfeccionista". Tinha consciência plena da própria chatice. E nada podia fazer para mudá-la.

Na infância, tinha um problema com os cadarços: precisavam ser milimetricamente alinhados, para que o laço pudesse ser dado com a precisão devida. Não podia haver voltas, nem torções. Após colocá-lo no tênis e esticar a pontas, para medir seu comprimento, a diferença entre elas tinha que ser nula - e isto deveria acontecer "de primeira". Caso contrário, tirava o cadarço todo e colocava-o de novo, paciente e doentiamente, tantas vezes quanto fosse necessário, ou quantas os adultos normais ao seu redor permitissem, antes de explodirem de raiva e indignação com tamanha chatice.

Não comia verduras de nenhum tipo, em nenhuma hipótese, o que lhe valeu o ilustrativo apelido de "Verdurinha", criado por um amigo do pai, que via em tirar-lhe sarro o melhor de todos os passatempos.

Como demonstração de sua chatice, um dia, durante o almoço, estranhou a cor das batatas em rodelas, que adorava:

- Mãe, por que a batata está esverdeada?
- É o tipo de batata, que é diferente, filho. Gostou?
- É, é boa.
- Então come, filho. Come.

Terminada a refeição, soube a verdade: era chuchu. Sua mãe, coitada, mentira para fazer-lhe comer. E Verdurinha passou anos sem comer chuchu. Só foi fazê-lo quando sua filha, já grande, arrumou um namorado.

Os pais de Verdurinha, corajosos e dedicados, odiavam vê-lo adormecer no carro. Porque, já grandinho, ao ser despertado, mesmo que carregado no colo, transforma-se em um ser das trevas. Ficava intragável e sua chatice, naturalmente elevada, parecia ser açoitada pelos deuses do azedume, para tornar-se hiperbólica e completamente insuportável.

Mas, como o tempo é generoso, Verdurinha cresceu e sua chatice foi abrandada. Tornou-se um homem relativamente normal, exceto pelo fato de não gostar de café, nem de sushi, nem de mamão, nem de assovios (dizia que era coisa de velho. Vai entender...) e preferir suspensórios a cintos. Tornara-se supervisor de segurança da informação, em uma empresa de auditoria internacional, trabalho que nunca conseguira explicar a ninguém que, educadamente, lhe perguntava qual era sua profissão e que ele, ingenuamente, acreditava ser interesse verdadeiro em sua pessoa tão desinteressante.

Por uma dessas coisas inexplicáveis da vida, Verdurinha começou a namorar com uma moça completamente maluquinha das ideias, uma meia-irmã de um de seus amigos de infância, apelidado de Zacarias, por causa da voz fina que manteve até quase o final da adolescência.

A moça era divertida e desencanada, tinha os cabelos revoltos e assimétricos, olhos grandes e vivos e lábios inquietos, cujos beijos exagerados e gostosos lhe surpreendiam e excitavam. Era tão doidinha, imagine, que fez xixi de porta aberta, na primeira vez em que dormiram juntos! Cortava sozinha os próprios cabelos e nunca, jamais, usava salto alto.

Seu apelido era Polilla, que quer dizer "traça" em espanhol. Quando adolescente, ela fizera intercambio no Panamá (por vontade própria, e não por falta de vagas na Nova Zelândia ou nos EUA) e, por passar o dia todo com a manga da blusa na boca, como se a quisesse comer feito uma traça, ganhara dos colegas de escola o apelido de "Polilla".

Eram uma espécie de Eduardo e Mônica: diferentes, mas surpreendentemente compatíveis. Namoraram por 8 meses e começavam a acreditar que aquela relação meio amalucada poderia realmente dar certo.

Foi quando surgiu para Polilla uma oportunidade irrecusável: estudar gastronomia em Quebec, no Canadá. Não aguentava mais trabalhar como recepcionista de consultório e queria mesmo era ser chef de cozinha. Aprendera francês ainda jovem, motivada por entender as músicas pelas quais se apaixonara quando criança, enquanto ouvia-as com a mãe, uma goiana deslumbrada pela França, embora nunca tivesse colocado os pés lá. Seu ótimo francês abriu-lhe as portas para a bolsa de estudos na cidade mais francesa do Canadá.

Chegou o dia de Polilla contar a Verdurinha sobre seus planos. Uma tragédia. Verdurinha finalmente sentia-se uma pessoa normal, finalmente sentia-se gostado por alguém que não fosse da família e que lhe fazia, de algum modo, mais livre, mais feliz e mais irresponsável - exatamente como sempre quis ser. E agora, justamente agora, este alguém iria deixar-lhe. Ficou arrasado.

Polilla partiu no final no Fevereiro e chegou ao Canadá em pleno inverno, sob uma forte nevasca. Nunca tinha visto neve e aquela visão tão bonita fez-lhe lembrar de Verdurinha e do calor de suas mãos. Não pensava nele pelo nome de "Verdurinha", que nem sequer conhecia, mas pelo apelido que lhe tinha dado, dois meses depois de começarem a se ver: "Cri", de "cricri", como reconhecimento terno à chatice da qual ela, inexplicavelmente, aprendera a gostar.

Verdurinha estava triste, como nunca havia se sentido. Seus dias sem Polilla eram cheios de nada, cinzas, longos e insípidos, como ele. Não suportava o próprio gosto e sentia uma falta de Polilla que, pela inabilidade com as palavras, não conseguia descrever.

E assim ficaram, completamente afastados e incomunicáveis, por meses. Polilla continuou seus estudos e até trocou uns beijos com um colega romeno, que também estudava na mesma escola de gastronomia. Sem grandes envolvimentos, só uns beijos, mesmo.

Verdurinha seguiu com sua vidinha, resumida a assistir seriados legendados, que baixava da internet, jogar Playstation 3, assistir vídeos pornôs em sites gratuitos e, quando tinha sorte, aos finais de semana, dar uns amassos em alguma feinha bêbada, depois que a noite já estivesse longa o suficiente para que ela aceitasse que ele seria a única coisa que conseguiria, depois de tanta cerveja.

Após vários meses sem falar com Polilla, um dia seu telefone tocou às 11h30, na manhã de um sábado com ar parado, seco e frio.

- O que é? - atendeu ele, com seu tradicional mau-humor matinal, com voz de travesseiro babado.
- Te acordei?
- Quem está falando?
- Te acordei, Cri?

Só ela o chamava de "Cri". Seu coração parou por um momento. Não imaginou que ouvir sua voz pudesse causar-lhe algum impacto, depois de tantos meses de afastamento.

- Polilla?! - falou, sentando-se, surpreso com o volume da própria voz.
- Como você está, Cri?

Ele fez uma longa pausa, já completamente desperto e sentado na cama; uma pausa longa o suficiente para ela achar que a ligação havia caído.

- Alô? Cri?
- Estou aqui.
- Achei que a ligação tivesse caído... Como você está, menino? - ela tinha mania de chamá-lo de menino. A voz não deixava dúvidas: estava sorrindo.

Ele fez novamente uma longa pausa.

- Cri?!
- Estou com saudade, Polilla.

A pausa desta vez foi dela. Ele ficou imaginando se ela estava surpresa com a resposta. Ficou lembrando do rosto que ela fazia quando se surpreendia com alguma coisa, fechando os olhos grandes demoradamente, soltando um suspiro curto e um discreto e adorável sorriso nos lábios.

- Estou voltando para o Brasil, Cri.

Ele também sorria, em silêncio.

- Chego amanhã.


Verdurinha foi apanhá-la no aeroporto. Chegou 2 horas antes, tamanha era a ansiedade.

Polilla chegara diferente, mais madura e mais bonita. Os cabelos estavam bem cortados e simétricos, mais lisos do que antes da viagem. A pele estava mais branca, talvez pela menor generosidade do sol canadense. Mas os olhos, ah, esses eram os mesmos: grandes, escuros e vivos, exatamente como os conhecera.

Sem rodeios nem palavras, abraçaram-se e beijaram-se, como se nunca tivessem se afastado. Um beijo delicado e discreto, de quem não tem nada a provar, nada a explicar, nada que já não soubessem de cor.

Verdurinha voltou a ser homem que Polilla fazia dele, o homem que queria ser. Nunca acostumou-se a comer chuchu, nem tomar café. Mas aprendeu a comer as esquisitices que Polilla, com seu paladar treinado e refinado, preparava. De vez em quando pedia para ela fazer frango com arroz e feijão, mas não recusava seus outros pratos, de nome difícil.

Quando nasceu a primeira filhinha do casal, deram a ela o apelido de "Corú", um pseudo-diminutivo de Coruja. A moleca simplesmente não dormia à noite e trazia, ainda pequena, um pouco dos traços chatonildos do pai, mas disfarçados pelo sorriso fácil, herdado da mãe.

Mesmo agora, já crescida, vive sendo repreendida pelos pais, porque não tira a roupa da boca - tal como fazia a mãe, quando jovem. E ouve-se à boca miúda que Corú está de namorico com um garoto que, puta que pariu, é o maior chato de mundo!

O menino vai almoçar na casa deles, no próximo domingo. E Verdurinha já decidiu que, neste dia, é inegociável: vai haver chuchu na mesa. E ai de quem não coma! Ai de quem não coma!

Um comentário:

  1. Adorei este conto!
    Achei fofinho e romântico...

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