sábado, 20 de setembro de 2014
Bokeh
Era uma menina com um olhar diferente das demais. Uma criança, ainda. Mas olhava a vida com formas, matizes e enfoques diferentes de todos à sua volta. Era especial. Tudo para ela era poesia, tudo era encantamento. Nada passava desapercebido aos seus olhinhos ávidos e interessados.
Mas não era apenas o olhar. Era um talento para transformar o que olhava, em alguma outra coisa. Ela eternizava o que via e sentia, de uma forma só dela, única: fazia um desenho, uma pintura, elaborava um poema sem esforço, saía rodopiando uma dança só sua, ou cantarolava uma música espontânea, nascida de algum lugar perto do peito.
Dormia bem, dormia pesado - talvez para compensar o excesso de atenção que dispensava a tudo na sua vidinha de criança. Mas, na manhã de um sábado frio e ar seco, ela acabou acordando mais cedo do que de hábito. Por algum motivo, os passarinhos naquele dia cantavam mais alto. Ou os seus ouvidos é que estavam mais felizes. O fato é que o canto deles a despertou antes do sol nascer, e não conseguiu mais adormecer.
Nem tentou ficar na caminha. Levantou-se e foi, com os pezinhos descalços até a sala e ficou lá, sentadinha à janela, esperando os primeiros raios do sol. Já tinha visto fotos mas, aos 6 anos, nunca tinha presenciado um amanhecer.
Não demorou muito e começaram a aparecer os primeiros raios de sol. E ela ficou simplesmente encantada. Nunca tinha visto nada tão lindo. Emocionada, pela primeira vez na vida chorou por um motivo que não sabia explicar. Chorou só para si, sem expectadores. E, com o passar dos minutos, e as cores mudando no céu, não conseguiu mais se conter: precisava compartilhar sua alegria, e foi acordar o pai:
- Papai, papai! - sussurrou com aquela delicadeza que sempre tinha, para não assustá-lo, enquanto afagava seus cabelos.
- O que foi, meu amor?
- Vem ver, papai! Vem ver! - já puxando-o para fora da cama.
- O que aconteceu, filha?
- Olha na janela! O sol está vermelho!
- É, meu amor. É porque o dia está nascendo.
- Não, papai! É que o sol passou batom para beijar a gente!
O pai, sorriu, encantado com mais uma das suas ideias criativas e surpreendentes.
- É, sim, filhota. Passou um batom bem bonito, igual ao seu.
- E sabe o que isso quer dizer, papai?
- Não sei. O quer dizer?
- Quer dizer que o sol é mulher!
Daquele dia em diante, a pequenina apaixonou-se pela luz. E, no aniversário seguinte, pediu - e ganhou - uma máquina fotográfica. Simples, mas só sua.
Tirava foto de tudo. Fotografava coisas comuns: o cachorrinho, as árvores, os pais, o irmãozinho, os brinquedos. Mas passava horas, também, caçando as pequenas coisas para fotografar: joaninhas, gotas d'água, a própria mãozinha escrevendo, os primeiros pelos brancos da barba do pai, enquanto cochilava. Queria sugar o mundo nos mínimos detalhes, com a lente sedenta da sua câmera nova.
Passaram-se alguns anos e a menina, já mocinha, apaixonou-se por um garoto na escola, um pouco mais jovem do que ela. E, intensa como era, foi uma paixão daquelas, arrebatadora, vigorosa, colorida. Mas doce, sem doer. Só o lado bom de estar apaixonada.
- O perfume dele, mamãe, tem cheiro de estrela!
A mãe nunca entendeu bem o que era cheiro de estrela. Mas a menina sabia muito bem.
- Mãe, tenho saudade do abraço dele...
- É, filha? Que lindo! E quanto tempo faz que vocês não se abraçam?
- Nunca nos abraçamos, mãe.
Ficaram, sim, amigos, mas o menino era muito tímido. Também gostava dela, do seu sorriso fácil e dos olhos mais ávidos que já tinha visto, mas não tinha a menor coragem de dizer isso a ela com todas as letras.
Certo dia, escondida do pai, pegou a máquina fotográfica dele - uma daqueles grandes, com a lente cheia de ajustes - e levou para a escola. Queria fazer uma foto especial do garoto. Mas não era para colocar no porta-retrato, nem no fundo de tela do celular.
- Pra colocar embaixo do meu travesseiro, ué! - respondeu à amiga, quando perguntada o porquê de querer tanto uma foto dele.
Ela pediu para ele, mas sua timidez o impediu de aceitar de tirar a foto. Ela insistiu, mas ele não quis. Não tinha jeito. Era só um garoto assustado diante de uma menina cheia de ideias e vontades. E foi se afastando, envergonhado, caminhando de costas para ela, fugindo da foto e contrariando seu coração, que queria tanto ficar.
Ela não teve dúvidas: deu o máximo de zoom na lente - adorava aquela câmera do pai - e esperou por alguns segundos. Quando o visor mostrava só a cabeça dele, ainda de costas, ela não se conteve e gritou:
- Eu gosto de você!
Ele parou, imediatamente. A respiração, suspensa. E, de repente, em um segundo, uma calma tomou conta dele. O vento virou brisa. Sorriu, respirou fundo, virou-se e olhou bem para lente, como se olhasse para os olhos dela.
E ela fez a foto: só o rosto dele, sorrindo, no enquadramento bem fechado. O fundo, completamente desfocado, mostrava um mundo que, àquela altura, não importava mais. Ela havia capturado a imagem que queria. Exatamente a imagem que queria.
E ele, sereno, sussurrou, sabendo que ela ainda o olhava através lente:
- Eu também gosto de você.
Aquela foi a melhor foto que lhe tiraram na vida. Ela enviou para ele, por e-mail. O pai dele era fotógrafo e ficou maravilhado com a foto tirada pela garota. Achou lindo o filho, capturado naquela espontaneidade, rodeado por aquele fundo suave, esmaecido pelo fascínio do olhar daquela menina. A luz do início da manhã oferecia uma luz difusa, com sombras suaves. Uma foto singular. Belíssima.
Ele explicou ao filho o termo usado em fotografia para se referir àquele efeito desfocado, difuso, que havia naquela foto: Bokeh.
E, daquele dia em diante, ela ganhou do menino um apelido, pelo qual só ele a chamava. Um apelido que ela adorava. Um apelido nascido do retrato dele, mas que era, na verdade, um retrato dela própria. Porque a atenção que ela dava ao que lhe era importante era tão grande e tão intensa, que fazia todo o resto desaparecer, desfocar-se. O apelido perfeito: Menina Bokeh, a menina que fotografava a felicidade.
sábado, 13 de setembro de 2014
O menino
Não sabia dizer ao certo o que era, nele, que a fascinava tanto.
Sabia que não era o jeito orgulhoso de falar, nem as mãos. Sabia que não era o pomo de Adão, saliente, nem a voz rouca. Também não eram a baixa estatura, nem os lábios carnudos. E sabia também que não era a inteligência, apenas mediana, nem a facilidade em assoviar. Nem a brancura da pele. Nem o escuro dos cabelos. Nem as sobrancelhas bem desenhadas. Nem o jeito singular de apoiar a rosto nas mãos. Nem a panturrilha musculosa e os ombros largos. Nem o beijo mais molhado do que estava habituada.
Ela sabia tudo o que não era, mas não sabia dizer o quê, afinal, era a causa do seu fascínio. Não era um homem misterioso, não era especialmente atraente, não era especialmente nada. Mas era tudo.
E, durante anos, ela nutriu aquele interesse. Fascínio, na verdade. Tudo o que vinha dele a encantava, era motivo de adoração.
Durante algum tempo, pôde tê-lo. Mas, apesar de todos os carinhos e mimos e afagos, ele não ficou. Simplesmente não estava pronto. Ou, como todo homem, talvez nunca viesse a estar, porque nunca deixaria de ser apenas um menino.
E ele se foi. Partiu para, talvez, tentar descobrir em si mesmo o que havia para se gostar. E ela sentiu saudades, muitas saudades. Durante muito tempo.
Mas, com os anos, ela seguiu adiante. Nunca o esqueceu, apenas o superou. Deixou de doer porque simplesmente deixou de lembrar. Virou página no meio do livro. Não rasgada, não molhada, não embolorada. Apenas acolhida, no meio de outros livros, no meio de outras estantes, em bibliotecas que já não costumava visitar.
Um certo dia, muitos anos depois - décadas, talvez - o avistou. Estavam no metrô - ele já no vagão, quando ela entrou. Ele lia um livro, cujo título ela não conseguia destinguir à distância. Lia atentamente, como costumava fazer. Estava, claro, mais envelhecido. As feições maduras, os cabelos já levemente grisalhos, um pouco mais gordo. As olheiras, um pouco mais escuras.
Eram só duas estações até ela descer. Não iria abordá-lo. Ficou ali, olhando-o à distância, folheando na memória as páginas que a levavam a ele e aos sentimentos que um dia a habitaram. Sem dor, sem tristeza. Só contemplação serena.
O metrô começou a desacelerar. Ela desceria na próxima parada.
- Estação... Luz. - disse o alto falante.
Isto o distraiu por um instante e ele levantou os olhos do livro. O metrô já estava praticamente parado. Cruzou o olhar com o dela imediatamente, com se já a soubesse ali. Detiveram-se naquele olhar e, passados apenas três segundos, já tendo localizado as páginas em que viviam, nos livros de suas vidas, sorriram ao mesmo tempo: um sorriso levíssimo, quase imperceptível.
E ela desceu do vagão.
A porta se fechou. Ela ficou parada por alguns instantes na plataforma e virou-se, para olhá-lo novamente. Ele continuava lá, fitando-a com o mesmo sorriso quase imperceptível. Não se moveram. Não acenaram. Não fizeram menção em fazer um gesto de "Me liga". Nada. Só o sorriso quase não-sorriso, enquanto o metrô começava a acelerar e ele ia embora, uma vez mais.
Finalmente, com a respiração ainda suspensa, e com o vento causado pelo deslocamento dos vagões soprando em seus cabelos, descobriu o que tanto a havia fascinado naquele homem: a verdade no jeito carinhoso de olhar. Olhar de menino.
Sabia que não era o jeito orgulhoso de falar, nem as mãos. Sabia que não era o pomo de Adão, saliente, nem a voz rouca. Também não eram a baixa estatura, nem os lábios carnudos. E sabia também que não era a inteligência, apenas mediana, nem a facilidade em assoviar. Nem a brancura da pele. Nem o escuro dos cabelos. Nem as sobrancelhas bem desenhadas. Nem o jeito singular de apoiar a rosto nas mãos. Nem a panturrilha musculosa e os ombros largos. Nem o beijo mais molhado do que estava habituada.
Ela sabia tudo o que não era, mas não sabia dizer o quê, afinal, era a causa do seu fascínio. Não era um homem misterioso, não era especialmente atraente, não era especialmente nada. Mas era tudo.
E, durante anos, ela nutriu aquele interesse. Fascínio, na verdade. Tudo o que vinha dele a encantava, era motivo de adoração.
Durante algum tempo, pôde tê-lo. Mas, apesar de todos os carinhos e mimos e afagos, ele não ficou. Simplesmente não estava pronto. Ou, como todo homem, talvez nunca viesse a estar, porque nunca deixaria de ser apenas um menino.
E ele se foi. Partiu para, talvez, tentar descobrir em si mesmo o que havia para se gostar. E ela sentiu saudades, muitas saudades. Durante muito tempo.
Mas, com os anos, ela seguiu adiante. Nunca o esqueceu, apenas o superou. Deixou de doer porque simplesmente deixou de lembrar. Virou página no meio do livro. Não rasgada, não molhada, não embolorada. Apenas acolhida, no meio de outros livros, no meio de outras estantes, em bibliotecas que já não costumava visitar.
Um certo dia, muitos anos depois - décadas, talvez - o avistou. Estavam no metrô - ele já no vagão, quando ela entrou. Ele lia um livro, cujo título ela não conseguia destinguir à distância. Lia atentamente, como costumava fazer. Estava, claro, mais envelhecido. As feições maduras, os cabelos já levemente grisalhos, um pouco mais gordo. As olheiras, um pouco mais escuras.
Eram só duas estações até ela descer. Não iria abordá-lo. Ficou ali, olhando-o à distância, folheando na memória as páginas que a levavam a ele e aos sentimentos que um dia a habitaram. Sem dor, sem tristeza. Só contemplação serena.
O metrô começou a desacelerar. Ela desceria na próxima parada.
- Estação... Luz. - disse o alto falante.
Isto o distraiu por um instante e ele levantou os olhos do livro. O metrô já estava praticamente parado. Cruzou o olhar com o dela imediatamente, com se já a soubesse ali. Detiveram-se naquele olhar e, passados apenas três segundos, já tendo localizado as páginas em que viviam, nos livros de suas vidas, sorriram ao mesmo tempo: um sorriso levíssimo, quase imperceptível.
E ela desceu do vagão.
A porta se fechou. Ela ficou parada por alguns instantes na plataforma e virou-se, para olhá-lo novamente. Ele continuava lá, fitando-a com o mesmo sorriso quase imperceptível. Não se moveram. Não acenaram. Não fizeram menção em fazer um gesto de "Me liga". Nada. Só o sorriso quase não-sorriso, enquanto o metrô começava a acelerar e ele ia embora, uma vez mais.
Finalmente, com a respiração ainda suspensa, e com o vento causado pelo deslocamento dos vagões soprando em seus cabelos, descobriu o que tanto a havia fascinado naquele homem: a verdade no jeito carinhoso de olhar. Olhar de menino.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Isso. Ou aquilo. Tá, isso, então.
Ia chegar já beijando. Ia chegar arrepiando, mostrando que não estava para brincadeira. Estava ansioso por encontrá-la e queria que ela ficasse impressionada com seu ímpeto, com seu fogo. Ela iria conhecê-lo sabendo, de cara, quem era o dono do pedaço.
- É isso aí. Vou chegar beijando, agarrando logo. Essa morena hoje vai ver o que é bom pra tosse...
Tomou seu banho, bem tomado. Muito bem tomado. Até a sola dos pés, esfregou. Lavou atrás das orelhas e embaixo das unhas. O banho da década.
Saiu do chuveiro, enrolou-se na toalha e limpou o espelho embaçado, para ver sua imagem.
- Vou fazer a barba.
Passou uma grossa camada de espuma de barbear no rosto e pegou o aparelho de barbear.
- Pensando bem, não vou fazer, não. A pele fica muito irritada...
Lavou a espuma do rosto. Deu uma olhada para ver se os pelos na orelha estavam aparados. No nariz, idem. Passou desodorante, 8 segundos em cada axila. Não queria nenhum risco de cheirar mal, no seu primeiro encontro com aquela mulher tão linda e tão desejada.
Tinha 2 perfumes. Um mais forte, outro mais suave.
- Vou usar o suave. Vai que ela é alérgica...
Abriu o frasco. Desistiu.
- Pensando bem, vou com o forte. Para combinar com minha atitude mais máscula.
Só que o forte estava quase, quase acabando. O frasco estava praticamente vazio.
- Será que dá? Acho que dá.
Borrifou uma nuvenzinha no pulso direito, atrás da orelha direita, no lado direito do pescoço. Não esfregou, conforme havia aprendido. Mas, na hora de passar do lado esquerdo, já não havia mais perfume algum. Havia usado as últimas gotas em um único lado do corpo.
- Mas que droga! Como é que eu vou com perfume só em metade do corpo?!
Voltou para o banho. Ensaboou-se completamente, para remover todo o perfume. Saiu e enxugou-se com a mesma toalha, já molhada do banho anterior. Cheirou a própria pele para ver se o perfume tinha saído. E tinha, mas agora estava com cheiro de toalha molhada.
- Mas que droga! Será que dá para perceber? - falou, cheirando-se novamente. - Dá, dá, sim.
Tomou um terceiro banho e desta vez usou uma toalha seca. Passou o perfume - o suave desta vez -, terminou de se arrumar, penteou o cabelo e saiu para encontrar aquela deusa.
Estava nervoso. Foi repassando mentalmente o que tinha planejado, o que iria dizer, como iria se comportar. Aquela noite tinha que ser perfeita!
Estava nervoso. Foi repassando mentalmente o que tinha planejado, o que iria dizer, como iria se comportar. Aquela noite tinha que ser perfeita!
Chegou e no exato momento em que deixava o carro (devidamente lavado e encerado naquele mesmo dia) com o manobrista, se apercebeu:
- Caramba! Esqueci o Halls!
Mas era tarde demais. Chegaram quase juntos e ela já estava parando o carro dela, logo atrás do dele. Não ia poder arranjar um jeito de melhorar o hálito.
Estava deslumbrante, com aquele cabelão preto solto, a maquiagem valorizando os olhos, vivos e atentos. O rosto atraente emoldurado pelos brincos enormes, os braços nus e um decote sexy, mas sem revelar em excesso.
Ele ficou estático. Sem Halls, sua auto-confiança para chegar beijando já tinha ido para a cucuia, mas poderia pelo menos usar alguma frase de efeito para impressioná-la.
- Oi.
- Oilá - nervoso, acabou não saindo nem "Oi", nem "Olá".
Seu cérebro parecia de bêbado. Não conseguia pensar com rapidez.
- Você está muito... lindita.
Pronto, ferrou-se. Ia dizer "linda", mas mudou de ideia no meio da palavra, para dizer "bonita". Saiu "lindita". Ela riu, achando graça do elogio.
- Muito obrigada! Você também está muito... lindito. - fez até a mesma pausa, para imitá-lo.
"Idiota, idiota, idiota!" - ele pensava. "Lindita?! Sério?! Oilá?!"
Era o primeiro encontro e, embora já se conhecessem "on-line", precisava se apresentar pessoalmente. Esticou a mão para cumprimentá-la, enquanto ela se aproximava para beijar-lhe o rosto. Acabou não fazendo nem uma coisa, nem outra. Ficou com a mão ali, sem jeito, flutuando entre os dois. "E isto por acaso é reunião de negócios, para dar a mão?!", ele pensou, odiando-se.
- Muito prazer. Soraya.
- Prazer o meu. Otávio.
- Gostei do perfume! Suave...
- Obrigado. Vamos entrar? - disse ele, já virando-se. "ELOGIA O PERFUME DELA, SEU ANIMAL!", pensou, já sem a deixa para fazê-lo. Não o fez.
Porra, como estava nervoso! Enquanto o maître os conduzia à mesa, deu um tropeção, ao pisar no próprio cadarço desamarrado. Ela fingiu não perceber.
Chegaram à mesa. O maître puxou a cadeira para ela, mas quem se sentou foi ele, enquanto ela colocava a bolsa na outra cadeira. Ele nem percebeu. Ela sorriu para o maître, que sorriu de volta, puxando a outra cadeira para que, finalmente, se sentasse.
- Vocês aceitam a carta de vinhos?
- Não - ele respondeu sem pensar, já que não gostava de álcool. - Ou sim? Você quer?
- Ah, eu aceito um vinho, sim. Você não quer?
- Eu? Quero, quero, sim.
- Eu adoro vinho.
- Eh... eu também.
Detestava vinho. Não estava habituado a beber. Aquela noite não seria fácil. Mas ela valia o esforço.
- Vocês aceitam o couvert?
- O couvert? Ah... - e enquanto dizia "Acho que não...", ela soltou, ao mesmo tempo:
- Eu estou morrendo de fome!
O garçom olhou para ele, esperando uma definição.
- Claro, claro, pode deixar o couvert.
Petiscaram e a conversa começou a engrenar, enquanto olhavam o menu.
- Eu adoro risoto! - ela disse.
- Ah, eu também. Mas estou tentado a pedir esse ravioli com queijo brie e figos.
- É, parece ser uma ótima pedida, né?
- Mas, pensando bem, talvez eu vá de risoto - disse ele, já se irritando com sua própria indecisão.
- Ué? Desistiu do ravioli?
- Não. É que, gostei da sugestão do risoto... sei lá... Tá, vai, vou de ravio... Não, vou de risot... Não, ravioli. Ravioli, pronto.
Ela mesma pediu os pratos ao garçom:
- Então, para ele vai ser o ravioli com queijo brie e figos. Para mim, o risoto de funghi com medalhão. Mal passado, por favor.
Enquanto o garçom se afastava, Otávio perguntou:
- Mal passado?
- É! Adoro! O verdadeiro gosto da carne só se sente quando ela está mal passada!
- Ah, sim, eu sei.
Detestava carne mal passada! Mas continuou com a farsa:
- Os sucos da carne ficam mais saborosos.
- É, ficam - disse, sorrindo da frase feita.
Comeram. Estava tudo uma delícia, menos o vinho. Ele ficou o jantar todo, na mesma taça. "Como alguém pode gostar disso?".
Ela levantou-se para ir ao toilette, provavelmente retocar o batom, e ele aproveitou para se antecipar e estudar o cardápio de sobremesas. Não queria parecer tão indeciso desta vez. Pediu o menu ao garçom e olhou as opções.
Ela retornou, sentou-se e disse:
- Ai, acho que não vou querer sobremesa, não. Você vai?
- Eh... vou... Eh, pensando bem, não. Acho que não. Acho que não estou muito a fim de sobremesa.
- Pode pedir!
- Não, não.
- Pede!
- Tá bom... Eu vou de... Não, não. Não vou. Não quero sobremesa.
- Quer sim!
- Não, não quero. Sério!
E terminou com um intelectualíssimo:
- Estou "de boa".
Era uma formiga! Teria pedido todas as sobremesas do cardápio. E, pela milésima vez naquela noite, estava consumido pela própria vergonha. "Estou 'de boa'?! Quantos anos você tem?! Dez?!". Estava se sentindo o maior dos patetas da história da humanidade.
Pediram a conta, que veio rapidamente. Desta vez ele não bobeou: pegou rápido e já foi logo sacando o cartão de crédito, para pagar.
- Vamos rachar! - ela disse.
- Imagina!
- Vamos, faço questão!
- De forma nenhuma!
- Vamos, sim! - ela, decidida, tirou a conta da mão dele e foi logo abrindo.
- Não preci...
- Precisa, sim. Olha, pode cobrar metade em cada cartão. - disse ela ao garçom, já enfiando o cartão na maquininha.
Ele queria se matar. "Onde já viu? Deixar um mulher rachar a conta no primeiro encontro?! Eu sou um fracasso! Que desastre! Por que não insisti?! Por que não peguei a conta de volta?!"
Levantaram e saíram do restaurante. Lá fora, já certo de que ela nunca mais iria querer encontrá-lo na vida, disse, só por educação:
- Então, Soraya, fiquei muito felisfeito de te conhecer - "ANIMAL!", rugiu internamente. "FELIZ ou SATISFEITO, sua besta?!"
- O prazer foi todo meu, Otávio! - ela disse sorrindo, com sinceridade.
Estava encantada com o jeito acanhado dele. Mal podia acreditar que estava genuinamente interessada naquele cara.
Ele, para fechar com uma frase feita, segura, e já certo do seu próprio fracasso, completou:
- Quem sabe uma hora dessas a gente pode marcar de se encontrar de novo. Sei lá... semana que vem.
- Semana que vem?
- É... Ou então, na outra semana...
- Na outra?
Ela ficou olhando para ele fixamente, esperando sair algo útil daquela boca. Nada.
- Otávio?
Ela se aproximou e o segurou pela nuca. Apontou aqueles olhos ávidos para seu rosto e sussurou em seu ouvido a única pergunta decente daquela noite:
- E hoje, Otávio?
- Como assim?
- No seu apartamento ou no meu?
Barba Cerrada - Parte 2
Ele abre a porta de casa e entra.
- Ah, não, pai! Vai já tirar essa barba. Está horrível!
- Parece um mendigo, pai!
- Não, nem vem me beijar, pai! Está espetando!
- Vai tirar. Já!
E ele foi. Afinal, ele era homem. Mas quem mandava ali, eram as crianças. Qualquer um sabia disso.
Mas todos também sabiam que ele era um macho alfa. Dominante. Firme. Decidido. E a noite só podia ser encerrada com uma ordem dele:
- Pronto, tirei. Agora alguém traga meu Toddy! Morninho, ouviram?
Esmalte Cintilante
- Pode descer da maca. Agora, por favor, sente-se enquanto escrevo a receita.
- Obrigada, doutor.
- E como foi a viagem, dona Lourdes?
- Ah, doutor, foi incrível!
- Europa, certo?
- Isso mesmo. Passei um mês inteiro por lá. Conhecemos Portugal, Espanha, França, Áustria, Alemanha, Itália, Suíça, Bélgica e Holanda.
- Que bom!
- Fiz tanta compra, tanta compra! Devo ter voltado com umas 17 malas, doutor.
- Que bom. Dona Lourdes, a senhora passa na farmácia, compra esse remédio aqui e toma duas cápsulas por dia, durante 10 dias, ok?
- Ok, doutor. Obrigada.
- Volte em 2 semanas.
- Doutor, posso pedir uma gentileza?
- Pois não.
- O senhor poderia me passar o nome do genérico? Assim eu pego de graça, na farmácia popular...
- Não há genérico deste medicamento, dona Lourdes. Não é caro, não. Acho que não chega a 20 Reais a caixa para 2 semanas.
- Ah, doutor, é muito caro! 20 reais dá pra fazer uma mão inteira na manicure! E com esmalte cintilante!
- Obrigada, doutor.
- E como foi a viagem, dona Lourdes?
- Ah, doutor, foi incrível!
- Europa, certo?
- Isso mesmo. Passei um mês inteiro por lá. Conhecemos Portugal, Espanha, França, Áustria, Alemanha, Itália, Suíça, Bélgica e Holanda.
- Que bom!
- Fiz tanta compra, tanta compra! Devo ter voltado com umas 17 malas, doutor.
- Que bom. Dona Lourdes, a senhora passa na farmácia, compra esse remédio aqui e toma duas cápsulas por dia, durante 10 dias, ok?
- Ok, doutor. Obrigada.
- Volte em 2 semanas.
- Doutor, posso pedir uma gentileza?
- Pois não.
- O senhor poderia me passar o nome do genérico? Assim eu pego de graça, na farmácia popular...
- Não há genérico deste medicamento, dona Lourdes. Não é caro, não. Acho que não chega a 20 Reais a caixa para 2 semanas.
- Ah, doutor, é muito caro! 20 reais dá pra fazer uma mão inteira na manicure! E com esmalte cintilante!
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Barba cerrada - Parte 1
Se achava o tal. Boa pinta, seguro, maduro, bem-resolvido.
Só estava com um probleminha: tinha acabado de cortar os cabelos. E toda vez que isto acontecia, ficava durante alguns dias se sentindo com cara de garoto. Não queria parecer garoto! Era um homem!
Então, fez o óbvio: naquela manhã, deixou a barba por fazer. Dura, cerrada, escura, combinando com as sobrancelhas grossas. Isto sim, daria a ele a aparência de homem pelas próximas semanas, até que o cabelo estivesse mais crescido.
À noite, no caminho para casa, passou no supermercado que havia ali perto. Antes de sair do carro, deu uma olhada no retrovisor, ajeitou o cabelo, verificou se os dentes estavam limpos e desceu para comprar seu Toddy.
Afinal, não sabia dormir sem seu Toddy morninho...
Só estava com um probleminha: tinha acabado de cortar os cabelos. E toda vez que isto acontecia, ficava durante alguns dias se sentindo com cara de garoto. Não queria parecer garoto! Era um homem!
Então, fez o óbvio: naquela manhã, deixou a barba por fazer. Dura, cerrada, escura, combinando com as sobrancelhas grossas. Isto sim, daria a ele a aparência de homem pelas próximas semanas, até que o cabelo estivesse mais crescido.
À noite, no caminho para casa, passou no supermercado que havia ali perto. Antes de sair do carro, deu uma olhada no retrovisor, ajeitou o cabelo, verificou se os dentes estavam limpos e desceu para comprar seu Toddy.
Afinal, não sabia dormir sem seu Toddy morninho...
terça-feira, 2 de setembro de 2014
O Galanteio

# Lição 1: Elogie
# Lição 2: Nunca, jamais, pergunte a idade de uma mulher
# Lição 3: Demonstre interesse
- Oi. Tudo bem?
- Tudo e você?
- Eu estava te observando de longe e senti uma vontade louca de te dizer uma coisa e te perguntar uma outra.
- Pode falar.
- Preciso te dizer que você é absolutamente linda. Deslumbrante, mesmo.
- Você é muito gentil. Obrigada!
- E, agora, tenho uma pergunta.
- Diga.
- Dizem que não é educado perguntar a idade de uma mulher, certo?
- É verdade.
- Quanto você pesa?
domingo, 10 de agosto de 2014
Brinde à Saudade
"Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudades, mas não estará só."
Amyr Klink, navegador e escritor brasileiro
"O melhor espelho é um velho amigo."
George Herbet, pensador anglo-galês
George Herbet, pensador anglo-galês
Em agosto de 2014, pelo segundo ano consecutivo, reencontrei amigos de infância, do prédio em que morei por aproximadamente 10 anos. Encontrá-los me deixa extremamente reflexivo, porque me faz olhar em um espelho profundo, em que minha imagem reflete não apenas quem sou, mas porque sou.
Quando a gente cresce, tem a sensação de que "eu sou quem eu sou": eu enxergo o mundo do meu jeito próprio, singular; os meus trejeitos e manias, são meus; minha forma de falar, a expressão dos olhos, o jeito de apoiar o rosto na mão, as músicas que eu gosto, o tipo de assunto que me atrai, foram moldados espontaneamente por mim mesmo, à medida em que amadureci. A gente cresce e se torna adulto, dono de si, seguro de que "fui eu que me fiz assim". Uma imagem auto-suficiente, vaidosa e, como boa parte das convicções adultas, completamente errada.
Ao encontrar esses amigos, vejo que sou, também, eles. Vivi com a maioria deles em um momento em que tudo é muito intenso. Já escrevi que, durante as férias, quando se tem 11 anos, parece que se passa uma eternidade entre o nascer e o pôr do sol. Em um só dia, dá para acordar, ler, jogar, bola, escutar música, nadar, tomar banho de chuva, brincar de esconde-esconde, polícia e ladrão, dançar com as meninas, dançar com a vassoura, ouvir mais música, assistir um filme, jogar vídeo-game, conversar horas ao telefone e dormir, para recomeçar tudo no dia seguinte. Hoje, termino o dia lamentando não ter conseguido responder todos os e-mails que comecei a responder pela manhã... Mas, na infância, um dia é uma vida inteira.
Foi ao lado dessas pessoas, que vivi muitos desses dias. E, justamente pela intensidade que eles tinham, reencontrá-los me mostra que eu, na verdade, sou muitos deles. Às vezes um jeito de olhar, de falar, um gesto, até a forma de rir, são parecidos com os meus - mesmo depois de décadas de distância. Vemos que, na verdade, mesmo diferentes, muito do que somos foi moldado pela influência uns dos outros.
E as lembranças? Eles lembram de frases minhas que nem eu mesmo me lembrava. Recordam-se de detalhes, com suas lembranças de criança, que a minha cabeça de adulto já havia coberto com outras camadas de vida. Encontrá-los é retirar essas camadas e relembrar quem eu fui, com minhas manias, meus talentos, minhas chatices. É ver no que fui bom e em que fui insuportável. É ver no que era admirável, ou irritante. É ver quem eu fui, refletido nas lembranças de quem me conheceu sem as máscaras e escudos que eu mesmo construí, para me proteger de mim mesmo.
E não importa quanto tempo se passe: ao olhá-los, é como se o tempo não tivesse passado. Nenhum de nós é criança, nem adolescente. Mas o jeito de olhar, não muda. O jeito de sorrir e gargalhar. Até a voz é igual. A piada com aquele seu jeitão previsível que você tem desde sempre, o jeito de mexer no cabelo, de apontar o dedo, de arrumar os óculos, de gesticular enquanto se conta uma história... Está tudo lá, como estava antes.
"Você lembra das músicas?", "Como estão seus pais?", "Você ainda tem medo de fantasmas?", "Sua Paquita preferida era a Ana Paula!", "Você lembra como ficava puto, quando...", "Lembra quando a gente derrubou...", "Sua franja era assim...", "Seu perfume era assado...", "Lembra quando a gente se pendurava...". É como se quiséssemos gritar uns aos outros que "Eu me lembro de tudo! Eu me lembro de você!".
Rever amigos de infância é viajar no tempo e reencontrar com alguns protagonistas da minha vida. É convencer-me, com gratidão e humildade, da minha própria "inesquecibilidade". É lembrar não só de quem fui, mas porque me tornei quem eu sou.
E, no final, o abraço, que parece durar só um pouco mais do que seria normal, é dizer "Você se tornou parte de mim. E, eu, de você". Encontrar amigos de infância é brindar à saudade. É brindar à própria vida.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Cada vez menor
"Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo,
mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos."
Ralph Emerson, escritor norte-americano
Eu tinha uns 8 anos, acho. Ela tinha mais ou menos a mesma idade. Chamava-se Raquel. A casa onde estávamos ficava bem em frente à dela, em uma rua de terra, na deserta e bela Praia do Foguete, em Cabo Frio, RJ. Durante 3 anos, passamos as férias de janeiro naquele local. Eram tempos muito mais difíceis, e aquelas férias eram ansiosamente aguardadas.
Não me lembro com detalhes da Raquel. Não saberia descrever seu rosto. Lembro-me apenas que era carioca da capital, tinha os cabelos negros e pele clara. Não lembro de mais nada. Não lembro do seu rosto, nem do seu sobrenome - se é que algum dia eu soube.
E lembro especialmente de uma imagem, de um daqueles dias quentes de verão. Em frente à casa em que ela ficava, havia uma árvore, com flores brancas muito simples, de pétala aveludada e centro levemente amarelado - que só adulto eu vim a saber tratarem-se de magnólias. Certo dia, estávamos conversando debaixo da árvore, e havia algumas flores recém caídas, pelo chão. Espontaneamente, ela pegou uma delas, arrumou delicadamente o cabelo atrás da orelha e pôs a flor no cabelo. Realmente não me lembro do seu rosto, mas me lembro perfeitamente do que senti quando olhei para ela.
- O que foi? - ela me perguntou, vendo minha cara de bobo.
- Nada!
- Por que está me olhando assim?
Devo ter ficado em silêncio por alguns instantes, antes de responder:
- Você ficou linda com essa flor no cabelo!
Não era um galanteio barato. Meninos de 8 anos não sabem fazer galanteios. Meninos de 8 anos não dizem para meninas que elas estão lindas. Eu era um garoto tímido e jamais teria falado aquilo se não fosse absolutamente indispensável. Só disse aquilo porque meus olhos precisavam gritar.
A menina com a magnólia branca nos cabelos é uma das primeiras visões das quais me recordo, que me causaram encantamento. É um daqueles momentos quase religiosos, em que vivemos algo especial, único, que se torna parte de quem somos, parte daquilo que molda o que chamamos de "beleza". A Raquel e sua magnólia, foi um desses momentos.
Vivi muitos. Os primeiros "Eu te amo", o primeiro adeus, os primeiros beijos, o primeiro palco, o último palco, o "sim", as filhas, os reencontros, os desencontros, uma música ao piano, as viagens, entre outros. Mas, infelizmente, parece que a vida adulta é menos generosa e restringe a frequência desses momentos. É como se nos tornássemos, com o tempo, endurecidos. É como se o mundo passasse a ter menos encantamentos para nos oferecer. É como se nos tornássemos resistentes à alegria e à beleza.
Nas férias de Julho de 2014, tive a felicidade de fazer uma viagem de 3 semanas para os Estados Unidos, com a minha família. Já estive no país incontáveis vezes, sempre a trabalho. Mas esta foi a primeira viagem exclusivamente para lazer. E, desde o princípio, decidimos que iríamos conhecer locais que tivessem algo de especial, algo de diferente, que fosse muito além das Macy's, do Central Park, dos outlets, da Disney ou das Best Buys.
Mas começamos, sim, por Los Angeles, e fomos à Disneyland. Não dá para não ir. Programa normal, esperado. Programa adorável, de turista, com direito a orelhas de Mickey e foto com Cinderela.
De lá, andamos para o leste por incontáveis horas, até o Grand Canyon, majestoso. Ali assisti em silêncio ao mais lindo nascer do sol que já vi.
Entendi, olhando para a paisagem quase inacreditável, como o tempo e a água fria e persistente de um rio são capazes de esculpir maravilhas indescritíveis e impossíveis de fotografar. Se o tempo é capaz de esculpir rochas, o que é capaz de fazer com as pessoas?
Em seguida, visitamos, sim, o exagero de Las Vegas, suas luzes, seus restaurantes e seus shows divertidos.
E, em seguida, atravessamos o apavorante e sublime Vale da Morte. Em fevereiro de 2013, escrevi um texto chamado "Pessoas Nubladas", em que mencionei o Vale da Morte: o local com a temperatura mais alta já registrada pelo homem. Com meu habitual fascínio pelo distante, inacessível e inóspito (ainda vou descobrir o porquê disso), fiquei curiosíssimo em saber como seria esse local - mas nunca imaginei que de fato passaria por ele um dia. O tempo foi generoso e surpreendente: um ano apenas se passou para que acontecesse. E, em pleno verão no hemisfério norte, sob um calor que ultrapassou os 49 graus - ainda que no conforto de um carro com ar condicionado - visitamos um dos locais mais inóspitos da Terra, um deserto cheio de paisagens lindas e amedrontadoras: visão de um outro planeta ou de uma era distante.
Menos de 24 horas depois, visualizamos os contrastes da altitude elevada, da vida exuberante, rochas imensas que namoram o sol, cachoeiras e florestas com árvores descomunais de 2000 anos de idade e 100 metros de altura, testemunhas vivas de um tempo que já não existe mais.
Estivemos também em San Francisco, cuja lembrança desta vez será muito menos preciosa do que há 20 anos, quando visitei pela primeira vez e amei. Vi que Alcatraz, ainda que muito interessante, é bem menos amedrontadora do que o presídio em Ushuaia, no extremo sul da Argentina. E vi que há mendigos, muitos mendigos, que falam inglês fluentemente.
Na Highway 1, pela costa da Califórnia, vimos belas praias e paisagens, que nos lembraram das belezas da generosa costa brasileira e que há tanta coisa linda para se ver sem precisar sair do Brasil, nem falar outro idioma.
E, por último, visitamos o Hawaii, que, ao contrário do que se imagina, não é um vilarejo com prais paradisíacas apenas, mas um estado urbanizado e bem estruturado. Com praias paradisíacas, sim, mas também com vida urbana e infra-estrutura, mesmo em locais remotos.
Sempre que viajo para qualquer lugar, tenho ideias para novos textos. E não queria - como não quis em textos anteriores - que esta fosse uma mera redação sobre as "minhas férias". Não. De modo algum. Mas, nesta, depois de tanto contemplar, não sabia sobre o que escrever. Tantas belas imagens me roubaram as palavras, que em geral me vêm tão facilmente. Um vazio criativo. Foi só quando chegamos ao Hawaii, onde há inúmeras magnólias, que achei o "ponto em comum", o fio condutor de todas essas experiências. Descobri, olhando para as simples magnólias e relembrando o que elas representam para mim, que o "encantamento" que senti era o aspecto comum a todos aqueles locais fascinantes e diferentes que visitei, esculpidos essencialmente pela passagem do tempo - que vai continuar a esculpi-los e transforma-los em coisas completamente distintas do que são hoje, em um futuro distante, talvez já sem testemunhas. Vislumbrei parte do que descrevi em um texto recente, intitulado "Imperfeição Divina": uma história maior do que a nossa, um tempo geológico e biológico, muito mais grandiosos do que o humano, tão recente e restrito.
Mas, curiosa e caprichosamente, na viagem ao Hawaii, não vivi algumas coisas que eu queira muito ter vivido. Por exemplo, não consegui pegar uma onda sequer. Não sou surfista, em absoluto. Meu físico de caçador de mouse sem fio e meu bronzeado de escritório deixam isso bem explícito. Mas sei nadar bem e já peguei umas ondinhas com bodyboard, alguns anos atrás, com um querido amigo de infância, do qual me lembrei quando pisei no Hawaii. Mas, desta vez, mesmo depois de 2 horas na água com uma prancha dessas, não consegui pegar uma onda sequer. Zero. Ao meu lado, rodeado exclusivamente por pessoas com longas pranchas de surf, todos pegavam. Eu, nenhuma. Depois vim a descobrir - quando, indignado, perguntei a um surfista local o porquê do meu fracasso - que aquele tipo de ondas eram adequadas apenas para pranchas maiores, e que outras praias próximas é que eram ideais para a bodyboard que eu estava usando. Resultado: costas (muito) queimadas e só. Vim a um dos paraísos mundiais do surf e não peguei nenhuma onda.
Fui também saltar de paraquedas. Sempre sonhei com isto, mas depois que as crianças nasceram, desisti. Agora, que já estão crescidinhas, resolvi: "se vou fazer isto uma única vez na vida, que seja aqui". Fui. No caminho, o rádio caprichosamente tocou Tom Petti cantando "Free Falling", e vi nisso um "sinal dos céus" de que aquele seria um dia inesquecível. Cheguei. Esperei por quase 5 horas e me animei quando finalmente vi meu nome na lista do próximo voo. Eu iria saltar! Mas, não. As nuvens chegaram de vez e tamparam o céu. Voos cancelados pelo resto do dia. Sonho adiado. Sem salto. E o dia perdido - o último no Hawaii - me impediu de fazer uma outra coisa que desejava: mergulho com snorkel, que também perdi.
O Hawaii é lindo de morrer. Não é muito mais incrível do que o litoral cearense, mas é belo de um jeito diferente. Minha viagem ao Hawaii, ainda que maravilhosa, foi basicamente panorâmica. Faltaram coisas que eu queria ter feito. E, confesso: meu primeiro sentimento foi de frustração.
Mas foi também ele, o Hawaii, que me fez lembrar, com suas magnólias, suas águas turquesas, azuis e outros tantos tons que não devem ter definição em idiomas tão complexos quanto o nosso, e a beleza de suas praias com nomes de pronúncia suave e doce, que sempre há coisas para se descobrir e que, muitas vezes, mesmo que estejamos com tudo à mão, no lugar certo, na hora certa, com tudo pronto, tudo perfeito, algumas coisas simplesmente precisam esperar. Não porque devem, nem porque sejam proibidas ou inacessíveis. Apenas porque o tempo de descobri-las talvez ainda não tenha chegado. Ou talvez nunca chegue. Algumas ondas, simplesmente não são surfadas. Alguns saltos, podem nunca acontecer. E tudo bem. Porque, afinal, é simplesmente impossível conhecer tudo. Algumas coisas simplesmente não acontecem e dão lugar para que outras, aconteçam.
O alfabeto havaiano tem 12 letras, apenas. Não tem R, V, F, T, S, B. As letras não fazem falta e conferem ao idioma uma sonoridade pueril, fresca, leve, infantil. Talvez seja porque, no idioma deles, não há tanto o que se explicar. Há mais o que se apreciar. Talvez não precisem de tantas letras, quando não há tanto para se dizer. A vida e a beleza do que ela tem a oferecer, dizem tudo o que precisa ser dito, sem palavras.
O Hawaii me lembrou que a beleza e a lembrança do que se vive, são mais importantes do que as faltas daquilo que não se viveu, ou que o tempo esfumaçou. As consoantes que faltam, não fazem falta. Não ter saltado de paraquedas, pensando bem, não me faz triste. Nem não ter surfado. E, da infância, posso não me lembrar do rosto da Raquel, mas fui tocado profundamente pela sua flor no cabelo. E isto já basta. Não me dói não me lembrar do seu rosto.
O tempo foi generoso comigo e com minha família, e nos permitiu viver, em apenas 3 semanas, vários dos momentos de encantamento que eu tanto prezo. Não sei dizer se gostei mais do deserto ou das praias. E, quem disse que preciso ter gostado mais de um deles? Espero que minhas meninas, daqui a 30 anos, lembrem-se deles com o mesmo carinho que eu - mesmo que talvez ainda não os compreendam neste momento, em que buscam um sinal de Wi-Fi com a mesma avidez que eu busco um pôr do sol. Talvez só precisem de tempo, assim como os Canyons.
Rubem Alves, um dos meus escritores favoritos, nos deixou durante o período em que fizemos esta viagem. Ele dizia que sua religião era a da beleza, e que Deus vive nas coisas belas. Então, esta viagem e as paisagens que vi foram praticamente uma oração de 3 semanas.
Chegando ao Brasil e à vida cotidiana, volto revigorado para achar nos pequenos momentos - nas simples flores no cabelo, nas árvores do meu bairro, que parecem mais verdes aos sábados, nas crianças que parecem dormir mais gostoso quando muito cansadas, ou no sabor de um prato que tem gosto de felicidade - os tais encantamentos que tornam a vida mais alegre, o coração maior e os caminhos a percorrer cada vez mais diversos, com belezas mais grandiosas do que nossa existência, ou com pequenas belezas tão grandes e simples, como o sorriso das meninas brincando na praia.
Que privilégio! Termino a viagem menor do que quando a comecei, porque meu mundo cresceu. É para isto que viajo; é para isto que vivo: tornar-me cada vez menor.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Imperfeição Divina
"Deus nos deu asas.
As religiões inventaram as gaiolas."
Rubem Alves
"And I believe in miracles
Something sacred burning in every bush and tree"
Steve Earle, em "God is God"
Ouvir no YouTube, cantada por Joan Baez
.
"And I believe in miracles
Something sacred burning in every bush and tree"
Steve Earle, em "God is God"
Ouvir no YouTube, cantada por Joan Baez
.
Não, meu amigo leitor, este texto, escrito na Sexta-Feira Santa de 2014, não será sobre ciência, mas sobre como eu vejo Deus. Mas não será também um texto sobre religião. De modo algum. Na verdade, será sobre a beleza da diversidade e daquilo que é inevitavelmente imperfeito. Tenha paciência, leia até o fim e me diga se concorda ou não comigo.
Não sou biólogo, mas com o auxílio de uma, e sem deixar de usar minhas próprias palavras, entendo que a Teoria da Evolução, em síntese, afirma que as características de um indivíduo de uma certa espécie que, por qualquer motivo, representem vantagens para a sobrevivência em um certo ambiente, e sejam transmitidas a seus descendentes, prevalecerão. Até aí, parece óbvio.
No entanto, o que a maioria das pessoas não entende - ou não quer entender - é a incômoda ideia de que não há "propósitos". Pode ligar a TV em qualquer canal em que se fale sobre vida - Animal Planet, Discovery, NatGeo - e todos os dias vocês ouvirá algum locutor falar que "a águia tem olhos incrivelmente precisos para poder ver suas presas desde grandes distâncias", ou que "o urso polar tem uma espessa camada de gordura para protegê-lo do frio extremo", ou que "o tamanduá tem uma longuíssima e áspera língua para penetrar nos formigueiros e extrair seu alimento". Não! Isto está absolutamente errado.
A palavra "para", em cada uma dessas frases - e em quase todas quando se explica a vida - dá um senso incorreto de "propósito", de "intencionalidade". É como se algo ou alguém tivesse decidido que uma certa mudança acontece com um objetivo definido, para se chegar a um efeito pré-desejado. Isto está simplesmente errado.
Seguindo este raciocínio, se eu fosse abandonado peladão no meio do deserto da Sibéria, no norte da Rússia, e, de algum modo, desse um jeito de sobreviver e ainda tivesse a sorte de arrumar uma louca para comigo ter filhos, talvez eles - ou nossos netos, ou nossos bisnetos ou nossos tataranetos - necessariamente teriam mais pelos no corpo, ou mais gordura, ou se tornariam naturalmente imunes aos efeitos do frio extremo.
Ou, se o mundo por algum motivo ficasse submerso e alguns de nós sobrevivêssemos, nossos descendentes criariam nadadeiras ou aprenderiam a respirar embaixo d'água pelo simples fato de que, afinal, "é o que temos para hoje": água
Ou, como alguns dizem por aí há anos, "as próximas gerações de humanos não terão dentes, porque nossos alimentos estão cada vez mais macios, e não precisaremos mais deles para mastigar no futuro".
Sério? Tudo errado. Tudo errado. A "adaptação" (para usar o termo técnico) só se caracteriza como tal depois que representou uma vantagem; não acontece para que a vantagem apareça.
O urso polar está vivo porque tem a capa de gordura. O tamanduá está vivo porque tem a língua comprida. A águia, porque enxerga bem. Porque, se não enxergasse, daria de cara no chão cada vez que tentasse um ataque... ou atacaria uma pedra movida pelo vento.
É completamente diferente! O urso não criou a camada de gordura para sobreviver ao frio. Na verdade, ele sobrevive ao frio porque tem a camada de gordura. As coisas não acontecem "para"; elas acontecem "devido a". Não há intenção. Não há propósito. Há apenas consequência, efeito.
Algum urso polar talvez um dia tenha nascido com um defeito que fazia com que ele produzisse menos gordura. E morreu. E talvez uma águia tenha nascido míope. Ou um tamanduá, sem língua. Morreram, todos. Ou então, nasceu um urso com faro melhor, visão melhor, maior tolerância ao frio, mas estéril. E suas vantagens simplesmente não seguiram adiante - e não se repetiram em mais nenhum outro urso. O certo que deu errado.
Isto significa, portanto, que só vemos o que "deu certo". Todas as espécies que vemos todos os dias, todas as plantas, os cachorros, os gatos, os malditos pernilongos e as baratas que aparecem correndo à noite perto do lixo, são seres que "deram certo" em seus respectivos ambientes. Porque os que não deram, morreram.
Ora, então quer dizer que estes que "deram certo", são perfeitos, certo? Estamos olhando para a perfeição da criação divina - afinal, estamos olhando para "os escolhidos"! Errado.
Se tivermos em mente que mais de 99% de todas as espécies que já existiram na história estão extintas - a grande maioria, muito antes de existir o mais primitivo rascunho do homem - vamos parar para pensar que os "perfeitos", em algum momento, deixaram de sê-lo. A imensa maioria do que deu certo, já não existe mais. E não estamos falando de aberrações, nem de "erros" da natureza, não! Estamos falando de gigantes carnívoros, de insetos do tamanho de ônibus, de peixes fortes e resistentes, de todo tipo de seres que, em algum momento, reinavam absolutos, "perfeitamente" adaptados ao seu ambiente. E, uma dia, deixaram de ser. Ou foram superados por outros que, afinal, mostraram que os perfeitos... bem, não eram tão perfeitos assim.
O que isto quer dizer? Pare e pense um pouco. Quer dizer que não há perfeição, assim como não há propósito! Afirmar que "A Natureza é Perfeita" é, portanto, um erro.
O que há, sim, é uma alteração contínua de circunstâncias que, ao longo de milhões e milhões de anos, esculpe a vida e a torna tão incrivelmente diversa e bela, com base na mais incômoda de todas as variáveis: o acaso. Muitas mudanças acontecem, sem que saiba exatamente se serão úteis ou não. Algumas delas podem ser importantes o suficiente para representarem vantagem e, com sorte, serem passadas adiante; ou simplesmente indiferentes a ponto de não inviabilizarem a vida, e serem levadas adiante, mesmo que inúteis.
Somos, portanto, uma sucessão de acasos que deram certo ou que, na melhor das hipóteses, não atrapalharam. Pelo menos, não por enquanto.
Vamos levar o raciocínio adiante e sair do campo da Biologia, para o da Astronomia. E, em seguida, a Deus.
Nosso Sol é pequeno se comparado a outras estrelas. E ainda é relativamente jovem. Completou apenas um terço do seu "ciclo". Ao longos dos próximos bilhões de anos, vai esquentar muitíssimo a ponto de fazer toda a água da Terra evaporar e fazer sua atmosfera escapar para o espaço. A vida estará inviabilizada muito antes que ele, o Sol, daqui a 5 bilhões de anos, cresça a ponto de finalmente engolir a Terra. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Literalmente.
O mesmo Sol que permite à vida existir, vai inviabilizá-la. E depois, ironicamente, ele próprio vai morrer.
Mas não há com o que se preocupar. Assim como os outros 99% das espécies que já existiram, nós provavelmente estaremos extintos muito antes disso. Porque não somos perfeitos, nem indestrutíveis.
Deprimente? Nem um pouco. Apenas põe as coisas em uma belíssima perspectiva. Falo sério. Belíssima. Vamos falar de Deus, então.
As pessoas veem Deus como um Pai. É o senhor de voz grave, idoso, corpulento e sábio, que interfere, salva, decide, pune e premia. Veem-no como a imagem da perfeição.
Mas, se 99% das Suas criações na Terra já desapareceram, que perfeição é esta? E por qual motivo criaria um sol para aquecer e em seguida engolir a casa de Seus filhos, incluindo Sua "melhor criação" - os humanos? E por qual motivo criaria um universo tão vasto, mesmo sabendo que sua melhor criação nunca chegará a conhecê-lo por completo?
E se falarmos de méritos e de castigos? O que fizeram de tão mal aquelas pessoas que morreram em tsunamis e terremotos? E que perversas devem ser aquelas crianças africanas famintas, para serem tão severamente punidas! E que pouca fé deve ter aquela senhorinha beata, cuja netinha morreu de câncer, apesar de todas as suas orações e promessas sinceras!
Acredito piamente em Deus. Mas não nesse. Não posso acreditar na figura de um pai que beneficia tanto alguns filhos, enquanto pune outros que nem conhecem os próprios erros.
Não posso acreditar na figura construída de um Deus que aplaude o sacrifício e renega o prazer. Rubem Alves, em "Variações sobre o Prazer", faz-nos uma pergunta inquietante: "Será que Deus fica feliz quando vê os seres humanos sofrendo? Digo isso pelo fato de que os fiéis, ao fazerem promessas a Deus para obter seus favores, o que lhes oferecem são sempre objetos dolorosos. Nunca ouvi de um devoto que tivesse oferecido a Deus uma sonata de Mozart ou um poema de Fernando Pessoa. A Igreja ensinou que o prazer é o ninho do pecado. Como se o mundo fosse um imenso jardim cheio de árvores com frutos doces e coloridos, com placas em todas dizendo: “Proibido”.(...) A espiritualidade que nos ensinaram foi construída sobre a negação do prazer. O caminho da santidade é o caminho do sofrimento".
Caramba, se há tanta gente sofrendo, por que essas pessoas não são beneficiadas com o que o sacrifício lhes confere aos olhos de Deus? E o que fiz eu e minhas filhas, tão privilegiados, para merecer tão escancaradamente tantos benefícios em vida?
Não posso acreditar em um Pai tão injusto. Desculpe, mas não. Não posso crer na história de um "Pai implacável que, incapaz de simplesmente perdoar gratuitamente (como todo pai humano que ama sabe fazer), mata o próprio Filho na cruz (...). É claro que quem imaginou isso nunca foi pai. Na ordem do amor, são sempre os pais que morrem para o que filho viva." (Rubem Alves, em "O Deus que Conheço", página 31).
Meu Deus é outro. É o Deus da beleza, da simplicidade, da solução e não da culpa. Do prazer, não da dor. Um Deus que permite viver e experienciar, não limitar e cercear. Um Deus que não pune, nem salva. Não cura, nem mata. Um Deus tão livre que permite à Natureza evoluir sem um propósito pré-definido. Meu Deus não decide que a capa de gordura dos ursos polares será grossa para que vivam no frio, para depois matá-los escaldados sob um Sol voraz. Não. Meu Deus simplesmente é. Ele não faz. Ele não arbitra. As coisas são como são, e pronto.
Acredito no mesmo Deus que Rubem Alves: "Eu amo a beleza da natureza, da música, de um poema. Amo a beleza das palavras de amor que os apaixonados trocam. Uma criança adormecida é, para mim, uma revelação, uma ocasião de espanto." (em "O Deus que Conheço", página 89).
Meu Deus é a Vida cantada por Mercedes Sosa em "Gracias a La Vida". É o milagre do que é trivial, do que teima em dar certo por um certo tempo, mesmo havendo tanto para dar errado. Meu Deus não nos escolheu para estarmos neste planeta, e provavelmente criou outros tantos iguais a este, aos quais nunca chegaremos. E também os diferentes, aonde, se chegássemos, não seríamos perfeitos o suficiente para neles sobrevivermos. E outros, para sempre desconhecidos, onde talvez Ele tenha "criado" vidas que são tão "suas filhas" quanto nós, mesmo sendo absolutamente diferentes daqueles que se dizem os "perfeitos", criados à sua imagem e semelhança.
Todas essas coisas, eu, você, a barata, a estrela cuja luz nunca chegará à Terra, existem porque existem. Simples assim. Não existem para. Não foram criadas por. Existem porque existem. Só.
E, não importa quão distantes sejam, nem quão inóspitas, nem quão diversas de mim e de você, todas elas são feitas das mesmas coisas, de uns cento e tantos elementos químicos que fazem tudo o que existe, existir - muito além de simplesmente aparecerem naquela tabela periódica que você tentou decorar para a prova de Química e, ainda assim, se estrepou.
Meu Deus está na ideia de unidade que há em tudo isso. Meu Deus está no todo, não na parte. Ou está em ambas, igualmente. Está na beleza de acreditar que essas coisas todas, tão diferentes e tão iguais, vêm de um único lugar, e para ele voltarão um dia. Isto nos faz tão pequenos, ou tão grandes, quanto nosso Sol.
Comecei este texto dizendo que minha percepção mudou no dia em que entendi, quando tinha 15 ou 16 anos, que a imperfeição e os acasos do trajeto são exatamente o que conferem à vida a diversidade e a beleza. De lá para cá (escrevo este texto numa Sexta-Feira Santa, às vésperas de completar 37 anos), não me tornei menos religioso. Apenas mais imediatista, mais sinestésico, mais apegado aos pequenos do que aos grande milagres, mais apegado ao agora do que ao amanhã, mais desejoso da fruta que caiu do pé hoje, do que da que crescerá só na próxima estação. Amante do verão tanto quanto do inverno. E mais crente de que a religiosidade e o divino são um estado de espírito, uma comunhão com a vida, e não uma doutrina com uma série de regras a serem seguidas.
Celebro a Páscoa (daqui a dois dias) por hábito e por respeito àquilo que une tantas pessoas ao redor do planeta, há tantos séculos. E faço-o convicto de que, de um modo ou de outro, rezando para este, para aquele ou para nenhum Deus, somos todos tão diversos quanto irremediavelmente parecidos, transitórios e divinamente imperfeitos.
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